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Inulina, microbiota e dor na artrose: o intestino pode influenciar o joelho?

Quando pensamos em osteoartrite do joelho, normalmente lembramos de cartilagem, peso corporal, força muscular, atividade física e fisioterapia.

Mas um estudo publicado em 2026 na revista Nutrients trouxe uma possibilidade interessante: modular o intestino com uma fibra prebiótica pode também influenciar dor, sensibilidade dolorosa e até força muscular.

Os pesquisadores avaliaram a suplementação com inulina, uma fibra prebiótica capaz de modificar a microbiota intestinal e aumentar a produção de metabólitos como ácidos graxos de cadeia curta. O objetivo foi comparar seus efeitos com os de um programa de exercícios orientados por fisioterapia e avaliar se a combinação das duas estratégias ofereceria vantagem adicional.

O resultado chama atenção porque reforça uma ideia cada vez mais importante:

o tratamento musculoesquelético talvez não dependa apenas da articulação. O intestino também pode participar da percepção de dor e da função muscular.

Como foi feito o estudo?

O estudo INSPIRE foi um ensaio clínico randomizado com desenho fatorial 2 × 2.

Participantes com osteoartrite e dor no joelho foram distribuídos para quatro estratégias durante seis semanas:

  • 20 g por dia de inulina;
  • programa digital de exercícios orientados por fisioterapia;
  • combinação de inulina + exercícios;
  • placebo com maltodextrina e cuidados habituais.

A inulina podia ser misturada a alimentos ou bebidas, como iogurte, cereal, smoothie ou água. O programa de fisioterapia incluía exercícios de força para quadril e joelho, movimentos concêntricos e excêntricos, exercícios de cadeia aberta e fechada, além de equilíbrio e educação sobre osteoartrite.

Foram randomizados 136 participantes, e 117 completaram as avaliações de início e após seis semanas. A idade média era de aproximadamente 67 anos, o IMC médio era 29,5 kg/m² e 58% eram mulheres.

A inulina reduziu a dor

Esse foi o primeiro resultado importante.

Em comparação com placebo, a inulina reduziu a pontuação de dor em aproximadamente 1,11 ponto numa escala de 0 a 10.

O exercício orientado produziu redução de aproximadamente 1,55 ponto.

Quando inulina e exercício foram combinados, a redução foi de aproximadamente 1,67 ponto.

Tanto a inulina quanto a fisioterapia ultrapassaram o limite de 1 ponto considerado clinicamente relevante pelos autores.

Ou seja, não foi apenas uma diferença estatística: houve uma melhora percebida potencialmente significativa para o paciente.

Mas a inulina não substituiu o exercício

Esse é um ponto importante.

A fisioterapia foi claramente melhor para determinadas capacidades funcionais.

Os participantes que realizaram exercícios tiveram melhora significativa no teste de levantar e sentar de uma cadeira durante 30 segundos.

Também apresentaram melhora no teste Timed Up and Go, que avalia mobilidade e capacidade de caminhar.

Já a inulina isoladamente não melhorou essas medidas.

Portanto, o estudo não sugere substituir fisioterapia ou atividade física por um suplemento.

Ele sugere que nutrição e exercício podem atuar por mecanismos diferentes.

O achado mais interessante: a inulina modificou a sensibilidade à dor

Dor crônica não depende apenas da quantidade de lesão estrutural encontrada na articulação.

O sistema nervoso também pode se tornar mais sensível aos estímulos dolorosos.

Esse fenômeno é conhecido como sensibilização, podendo ocorrer tanto próximo à articulação quanto em níveis mais centrais do sistema nervoso.

Os pesquisadores avaliaram isso utilizando testes quantitativos de sensibilidade.

A inulina aumentou o limiar de dor à pressão próximo ao joelho, indicando menor sensibilidade local.

Também melhorou a somação temporal, uma medida relacionada à amplificação repetida do sinal doloroso na medula espinhal e frequentemente utilizada como marcador de sensibilização central.

O programa de exercícios, apesar de melhorar a dor clínica, não apresentou esse mesmo efeito sobre os índices de sensibilização dolorosa.

Essa diferença é particularmente interessante.

Sugere que a inulina pode estar interferindo não apenas na articulação ou na percepção subjetiva da dor, mas potencialmente em mecanismos sistêmicos envolvidos no processamento doloroso.

O intestino pode influenciar o sistema nervoso?

Essa hipótese é biologicamente plausível.

A microbiota intestinal participa da regulação de:

  • imunidade;
  • inflamação;
  • produção de neurotransmissores;
  • integridade da barreira intestinal;
  • produção de metabólitos capazes de sinalizar para outros órgãos.

Alterações da microbiota já foram relacionadas, em estudos experimentais, a maior sensibilidade dolorosa.

Prebióticos como a inulina servem de substrato para determinadas bactérias intestinais e podem favorecer a produção de metabólitos como os ácidos graxos de cadeia curta.

Por isso surgiu a hipótese de um verdadeiro eixo intestino–cérebro–dor.

A inulina aumentou o butirato

No estudo, os participantes que receberam inulina apresentaram aumento de butirato, um dos principais ácidos graxos de cadeia curta produzidos pela fermentação bacteriana de fibras.

Entretanto, apareceu uma surpresa.

Apesar do aumento do butirato, os pesquisadores não encontraram uma correlação significativa entre as mudanças nos ácidos graxos de cadeia curta e a melhora da dor ou da função.

Isso significa que não podemos afirmar:

“a inulina reduziu a dor porque aumentou o butirato”.

O mecanismo parece ser mais complexo.

Os próprios autores lembram que a concentração de ácidos graxos de cadeia curta no sangue pode não refletir adequadamente o que está acontecendo dentro do intestino.

E então apareceu o GLP-1

Como o aumento dos ácidos graxos de cadeia curta não explicava suficientemente os resultados, os pesquisadores realizaram uma análise exploratória do GLP-1.

GLP-1 é um hormônio produzido principalmente pelas células L intestinais.

Ele ficou muito conhecido por causa dos medicamentos agonistas de GLP-1 utilizados no diabetes e na obesidade.

Mas sua fisiologia é muito mais ampla.

O GLP-1 participa da comunicação entre intestino, cérebro e metabolismo e também vem sendo estudado em relação à inflamação, nocicepção e função musculoesquelética.

No estudo, somente os grupos que receberam inulina apresentaram aumento significativo de GLP-1 circulante.

Inulina, GLP-1 e força muscular

Outro resultado surpreendente foi a melhora da força de preensão.

Os participantes que receberam inulina apresentaram aumento de aproximadamente 4,62 kg na força de preensão, em comparação com o placebo.

O tamanho do efeito foi moderado.

E surgiu uma relação interessante:

quanto maior o GLP-1, maior a força de preensão observada.

Em um modelo ajustado para idade, sexo, IMC, grupo e tempo, o GLP-1 permaneceu associado à melhora da força muscular.

Isso levanta a hipótese de um eixo intestino–músculo.

A microbiota pode produzir sinais metabólicos capazes de influenciar a função muscular, e o GLP-1 pode participar dessa comunicação.

Mas é importante não transformar hipótese em certeza.

A análise de GLP-1 não havia sido definida previamente no protocolo e foi realizada de maneira exploratória.

Portanto, esse resultado precisa ser reproduzido em novos estudos antes de afirmar que a inulina melhora força muscular “através do GLP-1”.

Isso tem alguma relação com os medicamentos GLP-1?

É uma pergunta inevitável.

Mas precisamos separar as situações.

A inulina parece ter aumentado a produção fisiológica intestinal de GLP-1.

Isso é completamente diferente de utilizar agonistas farmacológicos do receptor de GLP-1, como semaglutida ou medicamentos com atividade GLP-1/GIP.

As concentrações, duração de ação e intensidade da estimulação são completamente diferentes.

Portanto, este estudo não demonstra que medicamentos GLP-1 tratem osteoartrite.

Ele mostra algo mais interessante do ponto de vista fisiológico:

a alimentação pode modificar a sinalização hormonal produzida pelo próprio intestino.

A combinação de inulina e fisioterapia foi melhor?

Numericamente, o grupo combinado apresentou a maior redução da dor.

Mas os pesquisadores não demonstraram uma interação sinérgica estatisticamente significativa.

Isso significa que não foi possível provar que:

inulina + exercício > soma dos efeitos individuais.

Entretanto, o próprio estudo não tinha poder estatístico suficiente para testar adequadamente essa interação. Portanto, a ausência de sinergia não deve ser interpretada como prova de que ela não exista.

Um detalhe interessante: adesão

A taxa de abandono também chamou atenção.

Nos grupos submetidos à fisioterapia, aproximadamente 21% dos participantes abandonaram o estudo.

Nos grupos sem fisioterapia, a taxa foi de apenas 3,6%.

Isso não significa que suplementar fibra seja melhor do que fazer exercício.

Mas demonstra algo muito importante em medicina:

um tratamento só funciona se o paciente conseguir aderir a ele.

Intervenções simples e fáceis podem ter valor justamente porque são mais fáceis de incorporar à rotina.

Os autores levantam a hipótese de que intervenções nutricionais possam ter maior aceitabilidade em alguns pacientes, embora o estudo não tenha sido desenhado especificamente para responder essa pergunta.

Efeitos adversos da inulina

A adesão à inulina foi boa, aproximadamente 88%.

Entre os 50 participantes que completaram a intervenção com inulina, 23 relataram efeitos gastrointestinais leves, principalmente:

  • gases;
  • distensão abdominal.

Nenhum desses sintomas levou à interrupção da suplementação.

Dois participantes relataram inclusive melhora do funcionamento intestinal.

Isso é compatível com o que vemos na prática: aumentar rapidamente fibras fermentáveis pode gerar gases e distensão, especialmente em pessoas que consumiam pouca fibra anteriormente.

Por isso, na prática clínica, muitas vezes faz sentido aumentar fibras de maneira progressiva.

Podemos começar a prescrever 20 g de inulina para todo mundo com artrose?

Ainda não.

Apesar de o estudo ser randomizado, existem limitações importantes.

Primeiro, foram apenas seis semanas de acompanhamento.

Não sabemos se o benefício permanece no longo prazo.

Segundo, o estudo precisou modificar a estratégia de recrutamento porque houve maior abandono nos grupos de fisioterapia. Isso provocou algum desequilíbrio entre os braços e reduz parte da força da inferência causal, embora análises de sensibilidade tenham produzido resultados semelhantes.

Terceiro, os participantes sabiam se estavam ou não fazendo fisioterapia, o que pode influenciar resultados subjetivos como dor.

Quarto, o GLP-1 foi uma análise exploratória.

E o estudo não permite generalizar os resultados para pessoas com fibromialgia ou síndrome do intestino irritável, porque esses pacientes foram excluídos.

O que esse estudo realmente muda?

Ele não transforma inulina em medicamento para osteoartrite.

Mas amplia nossa visão sobre dor musculoesquelética.

Durante muito tempo tratamos artrose quase exclusivamente como um problema mecânico:

cartilagem desgasta → articulação dói.

Hoje sabemos que isso é simplista.

A experiência dolorosa depende também de:

inflamação + sistema nervoso + sensibilização + músculo + metabolismo + microbiota.

O estudo acrescenta um dado clínico importante a essa discussão.

Uma intervenção intestinal relativamente simples produziu melhora de dor, modificou a sensibilidade dolorosa e foi associada a melhora de força muscular.

Isso merece atenção.

A lição mais interessante talvez não seja a inulina

Talvez o ponto mais importante seja perceber que os órgãos não funcionam isoladamente.

O intestino conversa com o cérebro.

O intestino conversa com o músculo.

O sistema imunológico conversa com a articulação.

O metabolismo influencia a percepção da dor.

E provavelmente parte dos tratamentos do futuro envolverá compreender melhor essas redes de comunicação.

Por isso, uma abordagem moderna da osteoartrite não deveria olhar apenas para uma radiografia do joelho.

Precisamos olhar também para:

atividade física, força muscular, composição corporal, alimentação, metabolismo, sono e saúde intestinal.

Conclusão

“Este ensaio clínico mostrou que seis semanas de 20 g/dia de inulina foram associadas a redução clinicamente relevante da dor em pessoas com osteoartrite do joelho. A inulina também melhorou alguns marcadores de sensibilidade dolorosa e força de preensão. Ao mesmo tempo, a fisioterapia melhorou mobilidade e capacidade funcional dos membros inferiores. A inulina aumentou butirato e GLP-1, mas somente o aumento de GLP-1 apresentou associação com melhora de força muscular, um achado exploratório que sugere uma possível comunicação intestino–músculo. Podemos extrapolar esses resultados para o tratamento das mulheres com lipedema e otimizar os seus resultados.” – Destaca o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Referência

Kouraki A, Franks S, Vijay A, et al. Effect of Prebiotic Supplementation With and Without Physiotherapy on Pain and Pain Sensitivity in People with Knee Osteoarthritis. Nutrients. 2026;18:714. doi:10.3390/nu18050714.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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Viver bem é mais do que ser feliz: o que um estudo com 200 mil pessoas revela sobre o florescimento humano

Você pode estar satisfeita com o trabalho e, ao mesmo tempo, sentir falta de vínculos mais próximos. Pode ter estabilidade financeira, mas pouca clareza sobre o sentido da própria vida. Também pode encontrar propósito e afeto mesmo enfrentando dificuldades materiais.

Essas combinações mostram por que uma única pergunta — “você é feliz?” — não consegue revelar tudo sobre como uma pessoa está vivendo.

Essa é a proposta do Global Flourishing Study, uma pesquisa internacional cujos primeiros resultados foram publicados em 2025 na revista Nature Mental Health. Com 202.898 participantes de 22 países, incluindo o Brasil, o estudo investiga o chamado florescimento humano: uma maneira de compreender o bem-estar que reúne diferentes dimensões da vida.

O projeto foi planejado para acompanhar os participantes anualmente durante cinco anos. O artigo apresenta os resultados da primeira etapa, oferecendo um retrato inicial das experiências dessas pessoas.

O que significa florescer?

Na perspectiva adotada pelos pesquisadores, florescer envolve saúde física e mental, felicidade e satisfação com a vida, sentido e propósito, caráter e virtudes, relacionamentos próximos e segurança financeira.

Isso ajuda a entender algo que reconhecemos na experiência cotidiana: estar bem em uma área não significa estar bem em todas.

Uma pessoa pode ter conforto material e viver isolada. Outra pode contar com relações afetuosas, mas sofrer com a preocupação de não conseguir pagar as contas. Um olhar mais amplo permite reconhecer tanto os recursos quanto as dificuldades presentes em cada trajetória.

O conceito também considera o contexto em que vivemos. As condições da comunidade e do ambiente fazem parte das possibilidades de uma vida boa, embora o índice principal analisado no artigo se concentre nas dimensões individuais.

O dinheiro importa, mas conta apenas parte da história

Os resultados mostram que segurança material e outras formas de bem-estar nem sempre caminham juntas. Alguns países economicamente desenvolvidos apresentaram condições financeiras mais favoráveis, mas resultados menos positivos em aspectos como sentido de vida e qualidade dos relacionamentos.

Isso não significa que a pobreza favoreça o bem-estar ou que o desenvolvimento econômico prejudique o propósito. O estudo não demonstra essas relações de causa e efeito.

A questão que ele levanta é outra: como melhorar as condições materiais de uma sociedade e, ao mesmo tempo, fortalecer os vínculos, o pertencimento e as razões pelas quais as pessoas consideram que vale a pena viver?

“No Brasil, a média do índice foi de 7,63 em uma escala de zero a dez quando os indicadores financeiros ficaram de fora. Com a inclusão desses indicadores, passou a 7,02. A diferença evidencia quanto as preocupações materiais podem alterar o retrato do bem-estar.” – Comenta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Esses números precisam ser interpretados com cuidado. Idioma, cultura e formas de responder às perguntas influenciam as comparações entre países.

Os resultados entre os mais jovens merecem atenção

Ao reunir os dados dos 22 países, os pesquisadores observaram que o florescimento permaneceu relativamente estável dos 18 aos 49 anos e aumentou nas faixas etárias seguintes. No Brasil, também houve uma tendência de maior florescimento com a idade.

Esse resultado chama a atenção porque contrasta com a ideia de que a juventude seria, necessariamente, a fase de maior bem-estar.

Mas há uma distinção importante: comparar pessoas de idades diferentes em um mesmo momento não permite concluir que os jovens de hoje vão melhorar simplesmente porque envelhecerão. As próximas etapas do estudo poderão ajudar a separar os efeitos da idade das experiências particulares de cada geração.

Por enquanto, os dados reforçam a importância de compreender melhor as dificuldades enfrentadas pelos jovens.

A infância aparece na vida adulta

Pessoas que relataram boas relações com a mãe e com o pai durante a infância apresentaram, em média, maior florescimento na vida adulta. Experiências de abuso, dificuldades financeiras e a sensação de ser alguém excluído estiveram associadas a resultados menos favoráveis.

Como as lembranças da infância foram relatadas pelos próprios participantes, existem limitações relacionadas à memória e à possibilidade de outros fatores influenciarem essas associações.

Ainda assim, os achados dão peso à importância de proteger as crianças e criar condições para que cresçam com cuidado, segurança e pertencimento. São relações observadas em grupos, que não permitem prever o destino de uma pessoa.

Pertencer também faz parte de viver bem

A participação em celebrações religiosas esteve associada a maior florescimento em muitos dos países estudados. Pessoas empregadas e casadas também apresentaram, em média, resultados mais altos em comparação com determinados outros grupos, embora os padrões variassem entre países.

Esses resultados não oferecem uma receita individual de felicidade. As análises demográficas são descritivas e não demonstram que adotar uma dessas condições produzirá, por si só, maior bem-estar.

Elas convidam, porém, a investigar o papel das relações, das comunidades, das condições de trabalho e das fontes de sentido na experiência de viver bem.

Talvez a contribuição mais valiosa do estudo seja ampliar as perguntas que fazemos sobre a nossa vida e sobre a sociedade que estamos construindo.

Além de perguntar se estamos felizes, podemos perguntar: temos com quem contar? Encontramos sentido no cotidiano? Conseguimos cuidar da saúde? Vivemos com segurança material? Nossas comunidades oferecem condições para crescer?

Olhar para essas dimensões permite reconhecer necessidades que uma medida isolada deixaria passar. E ajuda a transformar o bem-estar em uma responsabilidade compartilhada entre pessoas, comunidades e instituições.

Texto baseado em VanderWeele, T. J. e colaboradores. “The Global Flourishing Study: Study Profile and Initial Results on Flourishing”. Nature Mental Health, 3, 636–653 (2025). Acesse o artigo original.

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Frutas

Alimentação e saúde mental na adolescência: o que frutas e bebidas açucaradas têm a ver com essa história?

Frutas

Quando pensamos em saúde mental na adolescência, costumamos lembrar das relações familiares, da escola, das amizades e das redes sociais. Mas a alimentação também merece espaço nessa conversa.

Um estudo publicado em 2026 na revista Child and Adolescent Mental Health acompanhou milhares de adolescentes australianos durante três anos. Os resultados apontam uma associação entre o consumo de frutas, a ingestão de bebidas açucaradas e o aparecimento de sintomas relevantes de depressão e ansiedade.

A pesquisa traz informações úteis, mas exige cuidado na interpretação: encontrar uma associação não significa provar que um alimento causa ou evita um transtorno mental.

Como o estudo foi realizado?

Os pesquisadores analisaram dados de 6.537 adolescentes, com idade média de 12,6 anos no início do acompanhamento. Durante três anos, os participantes responderam a questionários sobre alimentação e sintomas de saúde mental.

Foram avaliados três componentes da alimentação: frutas, verduras e legumes, e bebidas açucaradas, como refrigerantes, refrescos e bebidas esportivas.

Para investigar o aparecimento de sintomas, cada análise excluiu os participantes que já apresentavam, no início, pontuações acima do limite estabelecido para o desfecho estudado. Os resultados foram ajustados para fatores como idade, sexo, condição socioeconômica e atividade física.

É importante destacar que os questionários identificaram sintomas acima de determinados pontos de corte. Isso não equivale a um diagnóstico clínico de depressão ou de transtorno de ansiedade.

Mais frutas, menor risco observado

Na análise principal, cada porção diária adicional de frutas esteve associada a:

  • Risco relativo de 0,87 para sintomas depressivos: uma redução relativa de 13% no risco de atingir o ponto de corte, com intervalo de confiança de 95% entre 0,82 e 0,93.
  • Risco relativo de 0,93 para sintomas de ansiedade: uma redução relativa de 7%, com intervalo de confiança de 95% entre 0,87 e 0,99.

O risco relativo, ou RR, compara riscos: valores abaixo de 1 indicam menor risco; valores acima de 1 indicam maior risco, dentro da comparação analisada.

Esses resultados não significam que acrescentar uma fruta à alimentação garantirá determinada proteção individual. Além disso, a associação entre frutas e ansiedade foi menos consistente: deixou de ser estatisticamente significativa quando foram analisados apenas os participantes com dados completos.

Bebidas açucaradas: o que apareceu entre meninos e meninas?

A associação mais consistente do estudo foi entre maior consumo de bebidas açucaradas e maior risco de atingir os pontos de corte para sintomas de depressão e ansiedade.

As estimativas de risco relativo ajustado foram:

DesfechoMeninos — RR (IC 95%)Meninas — RR (IC 95%)
Depressão3,25 (2,02–5,23)3,10 (2,06–4,68)
Ansiedade5,50 (3,39–8,90)2,04 (1,23–3,37)

Para sintomas depressivos, as estimativas tiveram magnitude semelhante entre meninos e meninas. Para ansiedade, o RR foi numericamente maior entre os meninos. Essa comparação, isoladamente, porém, não comprova uma diferença entre os sexos.

Há um detalhe fundamental para compreender esses números: o consumo das bebidas foi analisado em escala logarítmica. Assim, os riscos relativos apresentados correspondem a um aumento de uma unidade nessa escala transformada. Eles não representam o risco a cada copo adicional nem uma comparação direta entre quem consome e quem não consome essas bebidas.

Por isso, seria incorreto afirmar, por exemplo, que “um copo de refrigerante aumenta em 5,5 vezes o risco de ansiedade nos meninos”.

O que os dados mostram é uma associação entre maior consumo e maior risco de sintomas ao longo do acompanhamento. Não demonstram que uma bebida isolada provoque depressão ou ansiedade.

E as verduras e os legumes?

Após os ajustes estatísticos, o estudo não encontrou associação significativa entre o consumo de verduras e legumes e os desfechos avaliados.

Isso não significa que esses alimentos sejam dispensáveis. Significa apenas que, com as medidas e análises utilizadas, a pesquisa não identificou uma associação suficientemente clara com os sintomas estudados.

O que ainda precisamos considerar?

Apesar do acompanhamento ao longo de três anos, essa análise foi observacional. Os pesquisadores não testaram se aumentar o consumo de frutas ou reduzir bebidas açucaradas evitaria o aparecimento de sintomas.

A alimentação foi informada pelos próprios adolescentes, o que pode gerar imprecisões. Também não foram avaliados todos os componentes da dieta ou fatores como histórico de saúde mental dos pais e padrões alimentares familiares.

Além disso, a amostra tinha maior representação de adolescentes de famílias com melhores condições socioeconômicas. Portanto, aplicar esses resultados a outras populações exige cuidado.

Como levar essa conversa para o cotidiano?

Os achados reforçam a importância de incluir a alimentação nas conversas sobre saúde mental na adolescência. Tornar frutas mais acessíveis e repensar a presença frequente de bebidas açucaradas são possibilidades para discutir em família, sem transformar as refeições em fonte de cobrança ou culpa.

A pesquisa não permite prometer que essas mudanças prevenirão depressão ou ansiedade. Ela indica que hábitos alimentares merecem atenção dentro de um cuidado mais amplo.

O sofrimento emocional de um adolescente não deve ser atribuído apenas ao que ele come ou bebe. Escuta, acolhimento e acesso a avaliação profissional continuam sendo essenciais quando há sintomas que preocupam ou prejudicam o cotidiano.

Referência: Davidson, L. e colaboradores. Longitudinal associations between dietary intake and common mental disorders among adolescents in Australia. Child and Adolescent Mental Health, 2026. DOI: 10.1111/camh.70129.

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Quando acreditamos que somos os heróis, podemos justificar coisas terríveis

Existe uma ideia desconfortável na psicologia moral:

as pessoas nem sempre fazem coisas ruins porque acreditam estar fazendo o mal. Muitas vezes, fazem justamente porque acreditam estar fazendo o bem.

Esse talvez seja um dos mecanismos mais perigosos do comportamento humano.

Quando alguém passa a enxergar sua própria posição como moralmente correta, absoluta e inquestionável, fica mais fácil aceitar atitudes que, em outro contexto, pareceriam cruéis, injustas ou desproporcionais.

A pessoa deixa de pensar:

“Estou machucando alguém.”

E passa a pensar:

“Estou fazendo o que precisa ser feito.”

“Estou defendendo o lado certo.”

“Estou protegendo os bons.”

“Estou combatendo o mal.”

É justamente aí que mora o perigo.

Albert Bandura chamou esse processo de moral disengagement, ou desengajamento moral. Ele descreveu como pessoas comuns conseguem praticar ou apoiar comportamentos prejudiciais sem se perceberem como pessoas ruins. Um dos principais mecanismos é a justificação moral: transformar uma conduta agressiva em algo aparentemente nobre ou necessário. PubMed

Em outras palavras:

se eu acredito que minha causa é boa o suficiente, começo a encontrar maneiras de justificar os meios.

E isso pode ocorrer em política, religião, guerras, relações profissionais, redes sociais e até dentro das famílias.

A convicção moral tem um lado bom — e um lado perigoso

Ter convicções morais é importante.

Elas podem nos levar a defender pessoas vulneráveis, combater injustiças, ajudar desconhecidos e agir mesmo quando seria mais confortável permanecer em silêncio.

Mas pesquisas mostram que, quando uma opinião passa a ser percebida como uma verdade moral absoluta, ela também pode aumentar intolerância a opiniões diferentes, resistência ao diálogo e aceitação de meios extremos para alcançar um objetivo considerado moralmente correto. PubMed

Uma revisão recente chamou isso de “o lado sombrio da convicção moral”.

Os autores mostram que a certeza moral pode favorecer dogmatismo, intolerância, punição excessiva, vigilantismo e até violência quando a pessoa acredita que está defendendo uma causa justa. PubMed

Talvez por isso algumas das atitudes mais cruéis da história tenham sido praticadas por pessoas que não se enxergavam como vilãs.

Elas se enxergavam como protetoras, justiceiras ou defensoras de algo maior.

Quando o outro deixa de ser uma pessoa e vira “o inimigo”

Outro mecanismo importante é a desumanização.

Quando classificamos alguém apenas como:

“inimigo”
“traidor”
“verme”
“monstro”
“ameaça”

fica mais fácil ignorar sua individualidade, sua história, sua dor e sua dignidade.

A literatura mostra que a desumanização está associada a maior hostilidade entre grupos e pode facilitar determinados tipos de violência, especialmente quando o sofrimento do outro passa a ser visto apenas como um meio para atingir determinado objetivo. PubMed

Mas há uma nuance importante.

Nem toda violência exige que a vítima seja vista como “menos humana”. Alguns pesquisadores argumentam que atos violentos também podem ocorrer justamente porque o agressor vê a vítima como um agente moral que “merece punição”. Por isso, a desumanização é apenas parte da explicação, e não uma resposta universal para toda violência coletiva. PubMed

Isso torna o problema ainda mais interessante.

Às vezes, não precisamos deixar de enxergar o outro como humano.

Basta concluir que ele é moralmente culpado o suficiente para merecer sofrer.

“Eu estava apenas cumprindo ordens”

Outro caminho conhecido é transferir a responsabilidade.

Os experimentos clássicos de Stanley Milgram mostraram como pessoas comuns podiam obedecer a uma figura de autoridade mesmo acreditando estar provocando sofrimento significativo em outra pessoa.

Décadas depois, uma replicação parcial encontrou níveis de obediência apenas modestamente inferiores aos observados nos experimentos originais. PubMed

Pesquisas posteriores mostraram algo ainda mais interessante: quando as pessoas agem sob coerção, sua própria sensação subjetiva de autoria e responsabilidade pode diminuir. PubMed

O pensamento muda de:

“Eu fiz isso.”

para:

“Mandaram que eu fizesse.”

E Bandura descreveu exatamente esse mecanismo como deslocamento ou difusão de responsabilidade. PubMed

Quanto mais a responsabilidade parece pertencer ao grupo, ao líder, à instituição ou à causa, mais fácil pode se tornar participar de algo que individualmente pareceria errado.

O perigo começa quando deixamos de nos perguntar: “E se eu estiver errado?”

Talvez exista um sinal simples de alerta.

Quando uma pessoa começa a acreditar:

“somente nós somos os bons.”

“Quem discorda está do lado do mal.”

“Com essas pessoas não existe conversa.”

“Eles merecem o que está acontecendo.”

“Qualquer coisa é aceitável para derrotá-los.”

ela pode estar atravessando uma fronteira perigosa.

A história humana está cheia de pessoas convencidas de que estavam salvando sua religião, seu país, sua classe, sua ideologia, sua família ou sua sociedade.

Nem sempre eram psicopatas.

Nem sempre eram pessoas extraordinariamente cruéis.

Muitas eram pessoas comuns inseridas em contextos nos quais machucar alguém passou a parecer moralmente justificável.

Talvez uma das melhores proteções contra isso seja preservar uma pequena dúvida dentro de nós:

“E se eu estiver errado?”

Não para abandonar nossos princípios.

Mas para impedir que nossos princípios sejam usados como autorização para crueldade.

O verdadeiro teste moral não acontece quando tratamos bem quem concorda conosco

É fácil ser gentil com quem pertence ao nosso grupo.

É fácil defender liberdade para quem pensa como nós.

É fácil exigir respeito para quem compartilha nossos valores.

O verdadeiro teste talvez seja outro:

como tratamos quem consideramos errado?

Porque princípios que só existem para proteger “os nossos” não são exatamente princípios.

São alianças.

E talvez seja justamente quando estamos mais convencidos de sermos os heróis que deveríamos fazer algumas perguntas:

Estou tentando corrigir alguém ou destruí-lo?

Estou defendendo uma ideia ou justificando crueldade?

Estou combatendo uma injustiça ou apenas procurando uma justificativa moral para punir alguém de quem não gosto?

Ainda consigo enxergar a humanidade de quem está do outro lado?

E, principalmente:

eu aceitaria esse mesmo comportamento se fosse praticado contra alguém que amo?

Essa última pergunta talvez seja uma das mais importantes.

Porque o problema raramente começa quando alguém decide:

“Hoje vou ser cruel.”

Muitas vezes começa quando alguém diz:

“Eu estou fazendo isso porque é a coisa certa.”

E talvez seja justamente aí que pessoas comuns possam começar, pouco a pouco, a fazer coisas monstruosas.

Referências científicas

Bandura A. Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. Personality and Social Psychology Review. 1999;3(3):193-209. PMID: 15661671. PubMed

Skitka LJ, Hanson BE, Morgan GS, Wisneski DC. The Psychology of Moral Conviction. Annual Review of Psychology. 2021;72:347-366. PMID: 32886586. PubMed

Novak LM, Skitka LJ. Understanding the functional basis of moral conviction. PLoS One. 2025. PMID: 40608781. PubMed

The Dark Side of Moral Conviction—Integrating Political Psychology, Cognitive Science, and Neuroscience. Ann NY Acad Sci. 2025. PMID: 41081737. PubMed

Kteily N, Landry A. Dehumanization: trends, insights, and challenges. Current Opinion in Psychology. 2022. PMID: 35042655. PubMed

Rai TS, Valdesolo P, Graham J. Dehumanization increases instrumental violence, but not moral violence. PNAS. 2017. PMID: 28739935. PubMed

Burger JM. Replicating Milgram: Would people still obey today? American Psychologist. 2009;64(1):1-11. PMID: 19209958. PubMed

Caspar EA, et al. The obedient mind and the volitional brain: a neural basis for preserved sense of agency and sense of responsibility under coercion. PLoS One. 2021. PMID: 34710149.

 

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Qual é a melhor dieta para emagrecer? Novo posicionamento científico mostra que a resposta é mais simples — e mais difícil — do que parece

Todos os anos surgem novas dietas prometendo emagrecimento mais rápido, melhor metabolismo ou resultados superiores.

Jejum intermitente. Cetogênica. Low carb. Low fat. Dietas de 800 calorias. Alta proteína. Restrição contínua. Restrição em dias alternados.

Mas afinal, qual delas é a melhor?

Um novo posicionamento da International Society of Sports Nutrition (ISSN), publicado em outubro de 2026 no Journal of the International Society of Sports Nutrition, reuniu a literatura científica sobre estratégias alimentares para redução de peso e composição corporal e chegou a uma conclusão muito importante:

não existe uma dieta universalmente superior para todas as pessoas.

O melhor plano é aquele que produz déficit energético, preserva massa muscular, oferece nutrientes adequados e, principalmente, consegue ser mantido no longo prazo.

Emagrecer exige déficit energético

Existe um princípio do qual não conseguimos escapar:

para perder peso, é necessário consumir menos energia do que o organismo gasta ao longo do tempo.

Isso não significa que todas as calorias tenham exatamente o mesmo impacto sobre saciedade, saúde ou composição corporal.

Proteína, fibra, qualidade dos alimentos e densidade nutricional fazem enorme diferença.

Mas nenhuma estratégia alimentar consegue produzir perda sustentada de gordura sem que exista, direta ou indiretamente, um balanço energético negativo.

O documento da ISSN organiza as dietas justamente de acordo com três grandes fatores:

magnitude do déficit energético, forma como esse déficit é distribuído ao longo do tempo e composição de macronutrientes.

Perder mais rápido não significa necessariamente perder melhor

Dietas muito restritivas funcionam.

Esse ponto precisa ser reconhecido.

Dietas de muito baixa energia, geralmente abaixo de 800 kcal por dia, podem produzir perda de peso muito rápida. Dietas entre aproximadamente 800 e 1.200 kcal também podem gerar resultados importantes no curto prazo.

O problema é que essa vantagem inicial tende a diminuir com o tempo.

Segundo o posicionamento, dietas muito agressivas não apresentam uma superioridade consistente de longo prazo em comparação com restrições calóricas menos intensas. Além disso, quanto maior o déficit, maior pode ser o risco de perda de massa magra, deficiência de vitaminas e minerais e baixa ingestão de fibras.

Em estudos com dietas muito restritivas, aproximadamente 25% do peso perdido pode corresponder a massa magra, embora esse valor possa variar conforme proteína, exercício e características individuais.

Por isso, olhar apenas para quantos quilos alguém perdeu é uma forma muito pobre de avaliar um tratamento.

A melhor perda de peso é aquela que preserva músculo

Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes do artigo.

Os autores diferenciam simplesmente perder peso de realizar uma perda de peso de alta qualidade.

Uma boa estratégia deveria reduzir predominantemente gordura enquanto preserva o máximo possível de tecido magro.

Isso importa porque o músculo participa de:

  • força;
  • capacidade funcional;
  • metabolismo energético;
  • sensibilidade à insulina;
  • desempenho físico;
  • manutenção do peso perdido.

O documento destaca que perder tecido magro pode aumentar posteriormente a pressão biológica para recuperar peso, com aumento do apetite e maior risco de recuperar gordura corporal.

Por isso:

a balança não deveria ser o único marcador de sucesso.

Proteína e musculação são pilares

Nesse ponto, o posicionamento é bastante claro.

Treinamento de resistência e ingestão adequada de proteína são fundamentais para reduzir a perda de massa muscular durante o emagrecimento.

Para a população geral, os autores consideram uma ingestão de aproximadamente 1,2 a 1,6 g de proteína por kg de peso corporal por dia adequada para auxiliar perda de peso, prática de atividade física e saúde musculoesquelética e cardiometabólica.

Em pessoas que realizam musculação, valores entre 1,6 e 2,2 g/kg/dia podem favorecer ainda mais a manutenção ou ganho de massa muscular durante restrição energética.

Mas existe uma observação importante para pacientes com obesidade.

O próprio documento alerta que calcular proteína utilizando o peso corporal atual pode superestimar muito a necessidade. Nesses casos, pode ser mais apropriado utilizar peso-alvo ou peso de referência para individualizar a prescrição.

É preciso comer de três em três horas?

Não.

A frequência das refeições parece ter importância muito menor do que muita gente imagina.

O documento afirma que não existe um número universal de refeições por dia capaz de melhorar a perda de gordura.

Duas, três, quatro ou cinco refeições podem funcionar.

A escolha deve considerar:

preferência, rotina, fome, treinamento e capacidade de aderência.

Em pessoas fisicamente ativas, porém, distribuir proteína em pelo menos três refeições ou oportunidades alimentares ao longo do dia pode ser interessante para preservar massa muscular durante a perda de peso.

Jejum intermitente é melhor?

Provavelmente não.

O jejum intermitente pode funcionar muito bem para algumas pessoas, mas a evidência atual não mostra uma superioridade clinicamente relevante em relação à restrição calórica contínua quando o déficit energético é semelhante.

Isso vale para modalidades como:

  • jejum em dias alternados;
  • estratégia 5:2;
  • alimentação com janela restrita de horário.

Em estudos com mais de seis meses, as diferenças em peso, composição corporal, colesterol, pressão arterial e metabolismo da glicose tendem a desaparecer quando o jejum é comparado com restrição calórica contínua.

Portanto:

jejum é uma ferramenta, não uma vantagem metabólica obrigatória.

Se ajuda uma pessoa a controlar a alimentação, pode ser útil.

Se gera fome excessiva, compulsão ou piora da qualidade alimentar, provavelmente não é a melhor estratégia.

Low carb ou low fat?

As duas podem funcionar.

O documento conclui que a proporção entre carboidratos e gordura pode ser individualizada conforme preferência, tolerância e contexto clínico.

Quando energia e proteína são controladas, dietas que variam de low fat até low carb tendem a apresentar resultados semelhantes para perda de gordura no longo prazo.

Isso desmonta um dos maiores conflitos da nutrição moderna.

Não é necessário transformar carboidrato ou gordura em inimigos.

O mais importante é encontrar uma distribuição alimentar que permita boa adesão e mantenha qualidade nutricional.

E a dieta cetogênica?

“ A dieta cetogênica é capaz de produzir perda de peso e gordura. Ela também pode reduzir o apetite em algumas pessoas. Ela é um plano alimentar muito bom para as mulheres com lipedema. Além de melhorar a dor ela diminui inflamação pois naturalmente é livre de glúten.” – Comenta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

O corpo realmente “entra em modo de fome”?

O organismo se adapta ao emagrecimento.

Isso é real.

À medida que perdemos peso, gastamos menos energia simplesmente porque existe menos tecido corporal para manter e movimentar.

Também podem ocorrer:

  • aumento de fome;
  • redução de saciedade;
  • menor movimentação espontânea;
  • diminuição do gasto energético;
  • alterações hormonais.

A chamada termogênese adaptativa representa uma redução do gasto energético além daquela esperada simplesmente pela perda de peso.

Mas o artigo traz um detalhe importante:

essa adaptação parece ser, na maioria das pessoas, menor do que frequentemente se afirma e pode diminuir significativamente quando o peso se estabiliza.

Ou seja, não existe evidência sólida de um “metabolismo destruído” permanentemente que torne a manutenção do peso impossível. O que existe é um organismo tentando recuperar o equilíbrio energético.

E por que a fome aumenta depois de emagrecer?

Há mecanismos biológicos para isso.

A revisão cita estudos mostrando que após perda de peso podem ocorrer:

aumento de grelina, hormônio relacionado à fome;

e redução de hormônios relacionados à saciedade, incluindo:

PYY e GLP-1.

Quanto maior a perda de peso, maior pode ser a pressão fisiológica para aumentar novamente a ingestão energética.

Isso ajuda a explicar por que emagrecer pode ser mais fácil do que manter o peso perdido.

Não é simplesmente falta de força de vontade.

Mas isso também não significa que recuperar o peso seja inevitável.

O platô não significa que o tratamento parou de funcionar

Esse é outro ponto muito interessante do documento.

No início de uma dieta, a perda de peso costuma ser mais rápida.

Após aproximadamente 8 a 12 semanas, ela frequentemente começa a desacelerar.

Em estudos com obesidade, é comum que a maior perda ocorra ao redor de seis meses e depois aconteça estabilização ou algum reganho.

Mas nem toda semana sem redução na balança representa um verdadeiro platô.

O peso corporal pode oscilar por:

  • retenção de líquidos;
  • ingestão de sal;
  • consumo de carboidrato;
  • glicogênio;
  • conteúdo intestinal;
  • ciclo menstrual;
  • viagens;
  • inflamação causada por treino;
  • alterações de hidratação.

Por isso, avaliar peso isoladamente pode ser enganoso.

A ISSN recomenda observar tendências de 7 a 14 dias e utilizar outros marcadores, como circunferências, desempenho físico, fotografias ou composição corporal.

Isso é particularmente importante quando a pessoa começou musculação.

Ela pode estar ganhando músculo e perdendo gordura ao mesmo tempo.

Nesse cenário, a balança pode praticamente não mudar — enquanto a composição corporal está melhorando.

Platôs podem ser úteis

Gostei particularmente desta ideia do artigo.

Normalmente pensamos no platô como algo que precisa ser imediatamente combatido.

Mas os autores propõem outra interpretação.

Um período de estabilidade pode ser uma oportunidade de aprender a manter aquilo que já foi conquistado.

Afinal, o objetivo final de um tratamento de obesidade não é continuar emagrecendo indefinidamente.

É atingir um peso mais saudável e conseguir mantê-lo.

A própria ISSN afirma que o objetivo final não é perpetuar a redução de peso, mas desenvolver capacidade de sustentar o resultado alcançado.

Emagrecer pouco já pode trazer benefício

Outro erro comum é acreditar que apenas perdas enormes de peso têm valor.

Segundo o posicionamento:

2% a 5% de redução do peso corporal já podem melhorar glicemia e triglicérides.

Com perdas entre 5% e 10%, podem ocorrer melhora da pressão arterial, mobilidade, dor articular, diversidade da microbiota e outros parâmetros de saúde.

Perdas maiores podem produzir benefícios adicionais em determinados pacientes.

Portanto, alguém que perdeu 4% do peso corporal não “fracassou” porque ainda não perdeu 15%.

O organismo já pode estar colhendo benefícios.

Cozinhar pode ser uma ferramenta terapêutica

Em meio a discussões sobre jejum, cetose, macronutrientes e termogênese, o documento termina com uma recomendação quase simples demais:

aprender a preparar a própria comida.

Quem organiza refeições e cozinha em casa tende a ter maior controle sobre:

  • quantidade de proteína;
  • qualidade dos carboidratos;
  • gorduras;
  • fibras;
  • calorias;
  • densidade nutricional.

O planejamento alimentar também reduz a necessidade de tomar decisões quando já estamos com fome e cansados.

É uma estratégia simples, mas potencialmente decisiva para manutenção de longo prazo.

A principal mensagem do artigo

Talvez possamos resumir todo o posicionamento em uma frase:

A melhor dieta não é aquela que faz você perder mais peso no primeiro mês. É aquela que permite perder gordura, preservar músculo e sustentar o resultado.

Não existe necessidade de escolher um “time”:

low carb contra low fat;

jejum contra refeições frequentes;

cetogênica contra dieta mediterrânea.

Todas podem funcionar dentro de contextos adequados.

O que realmente importa é:

déficit energético sustentável + proteína adequada + treinamento de força + alimentos de boa qualidade + atividade física + adesão.

E existe algo ainda mais importante:

preservar músculo durante o emagrecimento talvez seja tão importante quanto perder gordura.

Porque o verdadeiro sucesso não está no menor número que aparece na balança.

Está na capacidade de chegar a um corpo metabolicamente mais saudável e conseguir permanecer nele.

Um cuidado importante

Este posicionamento é especificamente sobre estratégias alimentares para redução de peso. Os próprios autores deixam claro que o documento não avalia farmacoterapia para obesidade, incluindo agonistas de GLP-1, nem cirurgia bariátrica. Portanto, suas conclusões não devem ser utilizadas isoladamente para determinar alimentação em pacientes usando semaglutida ou tirzepatida, embora princípios como preservação de massa magra, proteína adequada e treinamento de resistência continuem sendo biologicamente relevantes.

Referência

Aragon AA, Campbell BI, Schoenfeld BJ, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: diets for body weight reduction. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2026;23(1):2740266. doi:10.1080/15502783.2026.2740266.

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Tirzepatida e oxandrolona no lipedema: quando a busca por um “atalho” pode criar um problema maior

O tratamento do lipedema evoluiu muito nos últimos anos. Hoje entendemos melhor que a doença não deve ser avaliada apenas pelo tamanho das pernas ou pelo número da balança, mas por sintomas como dor, edema, peso nas pernas, sensibilidade, equimoses, limitação funcional e impacto na qualidade de vida.

Ao mesmo tempo, surgiram novas possibilidades farmacológicas, principalmente com os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP, como a tirzepatida.

Na prática clínica, algumas mulheres com lipedema relatam melhora importante durante o uso dessas medicações. Isso torna tentadora a ideia de utilizá-las como tratamento específico da doença.

Mas precisamos ser cautelosos.

Da mesma forma, existe uma tendência ainda mais preocupante: o uso de esteroides anabolizantes, como a oxandrolona, com a justificativa de aumentar força ou massa muscular em mulheres com lipedema.

São situações muito diferentes, mas que compartilham uma mesma pergunta:

até onde vale correr riscos para tentar acelerar um tratamento que naturalmente exige tempo?

Tirzepatida pode melhorar sintomas do lipedema?

Existe um sinal interessante.

Em 2026, Srinivasan e colaboradores publicaram um estudo com 2.719 pessoas com lipedema, praticamente todas mulheres, avaliando o uso de agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP. Aproximadamente 55% estavam utilizando essas medicações, sendo a tirzepatida o medicamento mais frequente.

As usuárias atuais relataram melhor saúde física e mental e menor intensidade de sintomas como:

  • dor;
  • edema;
  • limitação funcional.

Além disso, 65,7% relataram satisfação com a melhora dos sintomas do lipedema.

Esses resultados são interessantes e compatíveis com o que alguns médicos observam na prática.

Mas existe uma diferença enorme entre dizer:

“pacientes com lipedema relatam melhora usando tirzepatida”

e afirmar:

“tirzepatida é um tratamento comprovado para lipedema”.

Ainda não podemos fazer a segunda afirmação.

Por que precisamos ter cautela?

O estudo foi observacional, transversal e baseado em relatos das próprias pacientes.

Não houve randomização.

Não houve grupo placebo.

Não foram realizadas medidas objetivas capazes de separar:

  • redução de peso;
  • redução de gordura visceral;
  • redução de gordura subcutânea;
  • alteração específica do tecido do lipedema;
  • redução objetiva de edema;
  • alterações inflamatórias;
  • melhora diretamente relacionada ao medicamento.

Portanto, é possível que parte da melhora percebida decorra simplesmente da redução de peso corporal, melhora metabólica e aumento da mobilidade.

Isso não diminui a importância do achado.

Mas significa que ainda não sabemos se a tirzepatida modifica diretamente a fisiopatologia do lipedema.

Tirzepatida pode ser indicada para algumas mulheres com lipedema?

Sim, mas por outro motivo.

Se uma mulher com lipedema apresenta obesidade ou outra indicação clínica reconhecida para o medicamento, tratar essa condição pode ter enorme benefício.

Reduzir obesidade pode melhorar:

  • mobilidade;
  • sobrecarga articular;
  • resistência à insulina;
  • inflamação metabólica;
  • qualidade de vida;
  • capacidade de realizar atividade física.

O erro está em transformar isso automaticamente em:

“tirzepatida trata lipedema”.

Ainda não temos evidência suficiente para essa afirmação.

E o que acontece quando a medicação é retirada?

Esse ponto é particularmente importante.

O estudo SURMOUNT-4 avaliou pessoas com obesidade que perderam peso utilizando tirzepatida. Após 36 semanas, parte dos participantes continuou o medicamento e outra parte foi transferida para placebo.

Quem interrompeu a tirzepatida apresentou reganho significativo de peso, enquanto aqueles que continuaram o tratamento mantiveram e ampliaram a perda ponderal.

Uma análise posterior mostrou que a maioria das pessoas que retirou a medicação recuperou pelo menos 25% do peso que havia perdido ao longo do ano seguinte, acompanhada de piora progressiva de vários parâmetros cardiometabólicos.

Isso reforça um conceito importante:

medicamentos antiobesidade não deveriam ser utilizados como um “projeto de três meses”.

A obesidade é uma doença crônica.

Se a paciente precisa da medicação, é necessário discutir desde o início estratégia de longo prazo, manutenção do peso, atividade física, alimentação e preservação de massa muscular.

O cenário que mais me preocupa: oxandrolona

Se ainda existem dúvidas sobre o papel específico da tirzepatida no lipedema, no caso da oxandrolona e de outros esteroides anabolizantes a preocupação é diferente.

Não existe evidência clínica adequada demonstrando que oxandrolona trate lipedema.

Ainda assim, algumas mulheres têm recebido esses medicamentos com o argumento de que apresentam fraqueza muscular e precisam “ganhar músculo rapidamente”.

O problema é que essa lógica simplifica excessivamente uma questão muito mais complexa.

Mulheres com lipedema podem realmente apresentar menor força muscular

Um estudo caso-controle publicado recentemente comparou mulheres com lipedema a mulheres sem a doença, de idade e IMC semelhantes.

As mulheres com lipedema apresentaram pior:

  • força muscular de membros inferiores;
  • resistência muscular;
  • função;
  • capacidade de exercício;
  • tolerância à pressão dolorosa.

Isso é clinicamente relevante.

Mas a conclusão não é que essas mulheres estejam deficientes de andrógenos ou precisem de esteroides anabolizantes.

O próprio contexto do lipedema envolve dor, inflamação, limitação funcional, redução de mobilidade e alterações do tecido adiposo que podem contribuir para pior desempenho muscular.

A estratégia lógica é melhorar o ambiente que permite ao músculo funcionar:

reduzir sintomas, tratar inflamação, corrigir deficiências, garantir proteína adequada e realizar treinamento de força progressivo.

Não simplesmente oferecer um anabolizante.

Anabolizante não é sinônimo de tratamento muscular

Esse é um erro frequente.

Aumentar a sinalização androgênica pode aumentar massa muscular.

Mas isso não significa que esteja tratando a causa da perda de função.

Existe uma enorme diferença entre:

construir músculo fisiologicamente

e

induzir anabolismo farmacologicamente em uma mulher que não tem indicação médica para isso.

Além disso, mulheres podem apresentar efeitos adversos importantes, entre eles:

  • acne;
  • queda de cabelo;
  • aumento de pelos;
  • alterações menstruais;
  • alteração da voz;
  • hipertrofia clitoriana;
  • alterações hepáticas;
  • piora do perfil lipídico;
  • redução do HDL;
  • alterações cardiovasculares.

Alguns desses efeitos podem ser irreversíveis.

O risco cardiovascular merece atenção especial

Um grande estudo publicado em Circulation em 2025 encontrou associação entre uso de esteroides anabolizantes e maior ocorrência de diferentes eventos cardiovasculares, incluindo infarto do miocárdio, tromboembolismo, arritmias, cardiomiopatia e insuficiência cardíaca.

Além disso, um estudo publicado no JAMA Network Open em 2025 avaliou homens e mulheres usuários de esteroides anabolizantes.

Quanto maior a exposição acumulada aos esteroides, maior foi a associação com:

  • calcificação coronariana;
  • placas coronarianas não calcificadas;
  • pior função ventricular.

Os resultados foram observados em ambos os sexos.

Esses dados precisam ser considerados com seriedade.

Embora estudos históricos associem uso de esteroides anabolizantes a mortalidade prematura, grande parte dessa literatura é composta predominantemente por homens. Portanto, é mais correto afirmar que há associação entre AAS, mortalidade prematura e doença cardiovascular, mas a quantificação específica desse risco em mulheres ainda é limitada.

Lipedema prejudica a qualidade de vida, mas o tratamento não pode ser mais perigoso que a doença

Esse talvez seja o ponto mais importante.

O lipedema pode provocar:

  • dor;
  • limitação;
  • edema;
  • sofrimento psicológico;
  • prejuízo funcional;
  • redução importante da qualidade de vida.

Mas isso não justifica qualquer intervenção.

O tratamento deve sempre respeitar uma relação básica:

benefício esperado versus risco criado.

Não faz sentido utilizar uma substância potencialmente prejudicial ao coração, fígado, sistema hormonal e metabolismo lipídico para tratar uma doença que, embora possa produzir grande morbidade, não exige esse tipo de risco terapêutico.

Não existe atalho no tratamento do lipedema

Um estudo publicado em 2026 avaliou 1.300 pacientes com lipedema submetidas a tratamento conservador.

Os 13 sintomas avaliados melhoraram ao longo do acompanhamento, mas não melhoraram todos juntos nem na mesma velocidade.

Alguns sintomas responderam mais rapidamente.

Outros foram muito mais persistentes.

Equimoses, edema, sensibilidade ao toque, peso nas pernas e fadiga estiveram entre os sintomas de resolução mais lenta.

Isso é fundamental para alinhar expectativa.

A melhora pode levar muitos meses

O mesmo estudo mostrou que o tempo mediano necessário para alcançar pelo menos 50% de redução dos sintomas variou muito.

Para equimoses, foram aproximadamente 546 dias.

Para edema, cerca de 368 dias.

Para calor ou queimação, aproximadamente 203 dias.

Portanto, sintomas mais estruturais parecem necessitar de muito mais tempo para melhorar do que sintomas relacionados a processos inflamatórios mais dinâmicos.

Isso significa que uma paciente pode estar respondendo muito bem ao tratamento e ainda apresentar edema ou equimoses.

E haverá períodos de piora

Outra descoberta importante foi que algumas pacientes apresentaram períodos de melhora seguidos de piora.

Quando isso ocorria, os primeiros sintomas a reaparecer eram frequentemente edema e pressão/tensão.

Isso mostra que o tratamento de uma doença crônica raramente é uma linha reta.

Existem períodos melhores.

Existem períodos piores.

Existem mudanças hormonais, estresse, viagens, redução de atividade física, alterações alimentares e inúmeros outros fatores capazes de modificar os sintomas.

A paciente precisa compreender isso antes de iniciar o tratamento.

O problema das promessas rápidas

Quando alguém promete:

“vou eliminar seu lipedema rapidamente”,

“vamos acelerar seu metabolismo”,

“vamos colocar músculo em poucas semanas”,

“vamos resolver sua inflamação com uma medicação”,

é importante desconfiar.

Biologia não funciona dessa forma.

O estudo com 1.300 pacientes mostrou exatamente o contrário: a melhora ocorre, mas possui uma trajetória própria e diferentes sintomas respondem em tempos diferentes.

O que devemos buscar no tratamento?

Uma estratégia segura para o lipedema deveria priorizar:

  • diagnóstico correto;
  • atividade física;
  • treinamento de força;
  • melhora da composição corporal;
  • alimentação adequada;
  • sono;
  • controle metabólico;
  • correção de deficiências nutricionais;
  • manejo do edema quando necessário;
  • controle da dor;
  • suporte psicológico;
  • tratamento de obesidade quando presente.

Medicamentos podem fazer parte do tratamento de determinadas comorbidades.

Mas não devem substituir esses fundamentos.

Tirzepatida e oxandrolona não devem ser colocadas no mesmo nível

Também é importante deixar isso claro.

A tirzepatida é um medicamento aprovado, extensamente estudado para obesidade e diabetes, com benefícios metabólicos importantes quando corretamente indicado.

A questão é que lipedema ainda não é uma indicação específica suficientemente comprovada para essa medicação.

Já a oxandrolona é um esteroide anabolizante e não possui evidência adequada para tratamento do lipedema, além de carregar riscos relevantes quando utilizada sem indicação apropriada.

Portanto, são discussões completamente diferentes.

O tratamento precisa ser sustentável

O melhor tratamento não é aquele que produz a transformação mais rápida.

É aquele que a paciente consegue sustentar por anos sem sacrificar sua saúde.

No lipedema, talvez uma das coisas mais importantes seja ensinar que:

a melhora não é instantânea, não é linear e não precisa depender de atalhos.

Existem momentos de grande resposta.

Existem platôs.

Existem períodos de piora.

Mas existe possibilidade real de melhora com uma abordagem individualizada, progressiva e baseada em ciência.

Referências

  1. Amato ACM, Amato JLS, Benitti DA. Order of resolution and recurrence of inflammatory symptoms in lipedema: a longitudinal study of 1,300 patients. J Vasc Bras. 2026;25. doi:10.1590/1677-5449.202600562.
  2. Srinivasan A, Kartt J, Daftuar F, et al. GLP-1 and GLP-1/GIP receptor agonist medication use and self-reported outcomes in individuals with lipedema: Results from a large online survey. Obesity Pillars.2026;19:100316. doi:10.1016/j.obpill.2026.100316.
  3. Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(1):38-48. doi:10.1001/jama.2023.24945.
  4. Cardiometabolic Parameter Change by Weight Regain on Tirzepatide Withdrawal in Adults With Obesity: A Post Hoc Analysis of the SURMOUNT-4 Trial. 2025.
  5. Effects of lipedema on lower limb muscle strength, muscle endurance, functionality, functional exercise capacity, pressure pain threshold and edema: A case-control study. Physiother Theory Pract. 2025. doi:10.1080/09593985.2025.2592718.
  6. Windfeld-Mathiasen J, Heerfordt IM, Dalhoff KP, et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation. 2025;151(12):828-834. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071117.
  7. Buhl LFF, Christensen LL, Hjortebjerg R, et al. Illicit Anabolic Steroid Use and Cardiovascular Status in Men and Women. JAMA Network Open. 2025;8(8). doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.26636.

 

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Menopausa e envelhecimento saudável: o que a ciência revela sobre a terapia hormonal

Uma revisão publicada na revista Science propõe um cuidado mais individualizado, que considere os sintomas, a história de saúde e as diferentes opções de tratamento.

O sono muda. A concentração oscila. Surgem ondas de calor, alterações de humor e mudanças na composição corporal. Para muitas mulheres, esses sinais aparecem antes mesmo da última menstruação e interferem no trabalho, nos relacionamentos e na qualidade de vida.

Uma revisão publicada em outubro de 2026 na revista Science destaca a importância de olhar para essa fase de forma abrangente. Segundo os autores, a menopausa representa uma oportunidade para avaliar a saúde da mulher e planejar cuidados para as décadas seguintes.

O artigo reúne pesquisas sobre menopausa, envelhecimento e terapia hormonal. Sua principal mensagem é que a experiência da menopausa e a resposta ao tratamento variam de uma mulher para outra. Essas diferenças precisam orientar tanto a pesquisa quanto o atendimento.

Uma transição que envolve o corpo inteiro

Os efeitos das mudanças hormonais alcançam vários órgãos. Existem receptores para estrogênios e progesterona em tecidos como cérebro, ossos, músculos, pele e sistema cardiovascular.

Isso ajuda a compreender a diversidade de manifestações durante a transição menopausal. Além dos conhecidos calorões e suores noturnos, podem ocorrer:

  • Dificuldade para dormir.
  • Irritabilidade e alterações de humor.
  • Queixas de memória e concentração.
  • Ressecamento vaginal e desconforto nas relações.
  • Dores musculares e articulares.
  • Mudanças na distribuição de gordura corporal.

Essas manifestações variam em intensidade e duração. Algumas mulheres atravessam a fase com pouco desconforto; outras apresentam sintomas que comprometem significativamente sua rotina.

Reconhecer essa diversidade permite acolher melhor as queixas. Ao mesmo tempo, sintomas como cansaço, alterações de memória e dores também podem ter outras causas, que precisam ser consideradas na avaliação.

A história de cada mulher faz diferença

A menopausa espontânea é reconhecida após 12 meses consecutivos sem menstruar, quando não há outra causa para a ausência dos ciclos. A transição que a antecede, chamada perimenopausa, pode durar anos.

O artigo ressalta que a idade e a forma como a menopausa acontece têm implicações para a saúde. Uma menopausa espontânea por volta dos 50 anos e uma menopausa provocada pela retirada dos dois ovários aos 38 anos, por exemplo, envolvem contextos biológicos distintos.

Estudos associam a menopausa em idades mais jovens a maiores riscos de perda óssea, doenças cardiovasculares e alguns desfechos neurológicos. Essas associações ajudam a identificar quem pode precisar de acompanhamento mais atento, mas não determinam o que acontecerá com cada mulher.

Também merecem atenção as experiências anteriores: alterações intensas de humor no período pré-menstrual, complicações da gestação, cirurgias ginecológicas e uso de hormônios ao longo da vida podem fornecer informações relevantes para o cuidado.

Terapia hormonal: os detalhes importam

Conhecida popularmente como terapia de reposição hormonal, ou TRH, a terapia hormonal da menopausa reúne diferentes medicamentos e formas de uso.

A revisão destaca mais de 200 possibilidades, considerando variações de hormônios, doses, combinações, vias de administração e esquemas de tratamento. Por isso, falar apenas em “usar hormônio” oferece pouca informação sobre os benefícios e riscos de uma prescrição.

Entre os fatores que precisam ser avaliados estão:

  • Qual hormônio será utilizado e em que dose.
  • Se a administração será oral, pela pele ou vaginal.
  • A necessidade de proteção do endométrio, o revestimento interno do útero.
  • A idade e o tempo desde a menopausa.
  • Os sintomas, antecedentes e preferências da mulher.

A via de administração, por exemplo, pode modificar o perfil de risco. O estrogênio oral passa inicialmente pelo fígado e pode influenciar fatores de coagulação. O uso pela pele evita essa primeira passagem e pode apresentar vantagens em determinadas situações clínicas.

Já o estrogênio vaginal em baixa dose é utilizado principalmente para sintomas locais, como ressecamento e desconforto. Sua finalidade e exposição sistêmica diferem das terapias usadas para tratar calorões.

A escolha do tratamento depende dessas características e de uma avaliação individual.

Quais benefícios já estão bem estabelecidos?

A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para ondas de calor e suores noturnos. Também previne a perda óssea e reduz o risco de fraturas durante o uso.

Para mulheres saudáveis com sintomas incômodos, com menos de 60 anos ou dentro dos primeiros dez anos após a menopausa, a relação entre benefícios e riscos costuma ser favorável, desde que não existam contraindicações. O tratamento exige reavaliações periódicas. Essa orientação está descrita no posicionamento da The Menopause Society sobre terapia hormonal.

A decisão também precisa considerar riscos como trombose, acidente vascular cerebral e câncer de mama, cuja relevância varia conforme o esquema utilizado e o perfil de saúde da mulher.

Existem ainda opções não hormonais para o controle de sintomas, inclusive para quem tem contraindicações ou prefere outra abordagem.

E quanto à memória e à prevenção de Alzheimer?

Esse é um dos temas mais discutidos na revisão — e um dos que exigem maior cuidado na interpretação.

Queixas de “névoa mental”, como dificuldade para encontrar palavras ou manter a concentração, são frequentes durante a transição menopausal. Sono fragmentado, alterações de humor e mudanças hormonais podem participar desse quadro. Os estudos revisados descrevem alterações cognitivas geralmente discretas, que tendem a se estabilizar após a perimenopausa.

Os autores também discutem pesquisas sobre diferentes formulações hormonais e saúde cerebral. Há resultados promissores, mas os estudos ainda apresentam diferenças importantes de população, tratamento e método.

Não há evidência suficiente para prescrever terapia hormonal com o objetivo de prevenir Alzheimer ou outras demências. A The Menopause Society também ressalta que a prevenção de demência e de doenças cardiovasculares não constitui indicação para iniciar terapia hormonal em mulheres que tiveram menopausa na idade habitual. Veja o esclarecimento da sociedade sobre as indicações do tratamento.

Melhorar sintomas e qualidade de vida é um benefício concreto. Prometer proteção contra doenças neurodegenerativas ultrapassa o que a evidência permite afirmar.

O acompanhamento deve continuar ao longo dos anos

Os sintomas podem persistir por bastante tempo após a última menstruação. Por isso, o cuidado precisa acompanhar as mudanças nas necessidades e na saúde da mulher.

A revisão destaca uma distinção relevante: continuar um tratamento iniciado anteriormente e começar a usar hormônios em idade mais avançada são situações diferentes.

A duração do tratamento deve ser discutida ao longo do acompanhamento, considerando resposta, riscos e objetivos. A decisão envolve mais informações do que a idade isoladamente.

Esse cuidado também deve abranger saúde óssea, composição corporal, fatores de risco cardiovascular, sono, saúde mental e sexualidade.

Uma oportunidade para cuidar melhor

“ A revisão da Science reforça a necessidade de escutar as mulheres e estudar suas diferenças. Parte das hipóteses sobre genética, resposta hormonal e proteção cerebral ainda depende de pesquisas mais robustas antes de se transformar em rotina clínica. O conhecimento atual já permite melhorar o atendimento: reconhecer os sintomas, investigar outras causas quando necessário e escolher tratamentos com benefícios e riscos adequados a cada pessoa. Envelhecer com saúde passa por ter acesso a informação confiável, decisões compartilhadas e acompanhamento ao longo do tempo. A menopausa é um momento importante para colocar esse cuidado em prática.”  – Reforça o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Artigo de referência: Gravelsins LL e colaboradores. Reframing menopause and menopause hormone therapy as opportunities for healthy aging. Science, 2026. DOI: 10.1126/science.aeg5004.

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Saúde da mulher ao longo da vida: por que genética, microbiota e estresse oxidativo precisam ser avaliados em conjunto

Durante muito tempo, a saúde da mulher foi analisada de forma fragmentada: hormônios de um lado, metabolismo de outro, intestino em outro capítulo e genética quase sempre separada de tudo isso.

Uma revisão publicada em 2026 na revista Food and Humanity propõe uma visão mais integrada. Os autores discutem como variantes genéticas, microbiota intestinal e estresse oxidativo interagem ao longo da vida feminina, desde a puberdade até a pós-menopausa, influenciando metabolismo, imunidade, risco cardiovascular e equilíbrio hormonal.

A mensagem central do artigo é simples: a mulher não permanece biologicamente igual ao longo da vida.

Puberdade, vida reprodutiva, gravidez, perimenopausa e pós-menopausa são fases com demandas hormonais, metabólicas, inflamatórias e oxidativas diferentes. E a forma como cada mulher atravessa essas fases depende não apenas dos hormônios, mas também de sua genética, de sua microbiota e do ambiente em que vive.

A perimenopausa merece atenção especial

A revisão chama atenção principalmente para a perimenopausa, uma fase ainda pouco estudada apesar de sua enorme importância clínica.

Nesse período, a produção ovariana se torna mais irregular e o estrogênio passa a oscilar e, progressivamente, diminuir. Segundo o artigo, essa transição pode estar associada a:

  • aumento de gordura visceral;
  • piora da função mitocondrial;
  • disfunção endotelial;
  • maior sinalização inflamatória;
  • maior vulnerabilidade ao estresse oxidativo;
  • alterações na microbiota intestinal.

Isso ajuda a entender por que muitas mulheres percebem mudanças importantes justamente nessa fase, mesmo antes da menopausa propriamente dita.

O corpo começa a responder de forma diferente à alimentação, ao exercício, ao sono, ao estresse e ao ganho de peso.

O estrogênio não atua apenas no sistema reprodutivo

O estradiol exerce efeitos em vários tecidos.

Ele participa da regulação da sensibilidade à insulina, distribuição de gordura, função vascular, metabolismo energético e imunidade. Na vida reprodutiva, favorece uma distribuição mais periférica da gordura e ajuda a limitar o acúmulo visceral.

Com a queda hormonal da transição menopausal, o cenário muda.

A revisão descreve aumento de gordura visceral, resistência à insulina, dislipidemia e piora do perfil cardiometabólico. Também discute a perda de parte dos efeitos antioxidantes e vasculares associados ao estrogênio.

Por isso, climatério e menopausa não devem ser vistos apenas como uma questão de fogachos ou irregularidade menstrual.

São também fases de reorganização metabólica.

A microbiota também muda com os hormônios

Outro ponto central da revisão é a relação entre hormônios e microbiota intestinal.

Os autores destacam o chamado estroboloma, conjunto de bactérias, genes e enzimas intestinais envolvidos no metabolismo e na recirculação de estrogênios.

Enzimas bacterianas como β-glucuronidases e sulfatases podem influenciar quanto estrogênio é desconjugado no intestino e recircula pelo organismo.

Essa relação é bidirecional.

Os hormônios modificam a microbiota, enquanto a microbiota também pode interferir no metabolismo hormonal.

Na pós-menopausa, estudos citados na revisão encontraram menor diversidade bacteriana, redução de algumas bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta e alterações em vias relacionadas ao estroboloma. Essas mudanças foram associadas a inflamação, adiposidade central e alterações metabólicas.

Isso não significa que exista um “microbioma ideal” que possa ser corrigido com um probiótico específico.

O próprio artigo mostra que esse campo ainda está em desenvolvimento.

Genética pode modificar a resposta de cada mulher

Nem todas as mulheres apresentam a mesma capacidade de lidar com estresse oxidativo.

A revisão discute variantes em genes envolvidos em defesa antioxidante, detoxificação, função mitocondrial e inflamação, incluindo:

SOD2, GSTM1, GSTT1, GPX1, CAT e NQO1.

Essas variantes podem modificar a susceptibilidade individual ao dano oxidativo e influenciar respostas metabólicas e inflamatórias.

O artigo também discute genes como SIRT1, SIRT3, SIRT6, STAT3, NOD2, BDNF e PCSK9, que podem participar da interação entre metabolismo, microbiota, barreira intestinal e sinalização inflamatória.

Mas há um ponto fundamental:

ter uma variante genética não significa ter uma doença.

Esses polimorfismos modificam susceptibilidade e resposta biológica, mas seus efeitos dependem de dieta, atividade física, peso, sono, exposição ambiental, hormônios e microbiota.

Alguns polimorfismos merecem atenção

Entre os exemplos discutidos pelo artigo estão:

SOD2 rs4880
Pode modificar a eficiência da enzima mitocondrial superóxido dismutase e, em determinados contextos, aumentar vulnerabilidade ao estresse oxidativo.

GPX1 rs1050450
Pode influenciar a capacidade da glutationa peroxidase de neutralizar peróxidos.

NRF2 rs6721961
Foi associado em alguns estudos a maior peroxidação lipídica e menor atividade de enzimas antioxidantes em situações de estresse metabólico.

A revisão, porém, reforça que a evidência ainda é heterogênea e que muitos achados vêm de populações específicas ou modelos experimentais.

Portanto, genética deve ser usada para contextualizar, e não para criar protocolos automáticos.

Estresse oxidativo: o que realmente significa?

Estresse oxidativo ocorre quando a produção de espécies reativas supera a capacidade dos sistemas antioxidantes de neutralizá-las.

Quando esse desequilíbrio persiste, pode ocorrer dano a:

  • DNA;
  • proteínas;
  • membranas celulares;
  • mitocôndrias.

A revisão destaca biomarcadores como:

8-OHdG — relacionado a dano oxidativo ao DNA;
MDA — marcador de peroxidação lipídica;
isoprostanos — também relacionados à oxidação de lipídios;
5-oxoprolina — relacionada ao metabolismo da glutationa.

Esses marcadores são interessantes principalmente em pesquisa e metabolômica.

E aqui existe uma ressalva muito importante.

Os autores afirmam que eles ainda não possuem faixas clínicas padronizadas suficientemente validadas para previsão de risco individual em mulheres e, portanto, não devem ser utilizados isoladamente para tomar decisões clínicas.

Microbiota e estresse oxidativo também se influenciam

A relação entre intestino e estresse oxidativo também é bidirecional.

Disbiose pode aumentar inflamação e prejudicar a barreira intestinal.

Por outro lado, excesso de espécies reativas pode comprometer as junções entre células intestinais e favorecer maior permeabilidade.

A revisão discute ainda metabólitos bacterianos com efeitos diferentes.

Bactérias produtoras de butirato, como algumas espécies de Faecalibacterium, Roseburia e Bifidobacterium, podem contribuir para integridade intestinal, modulação inflamatória e função mitocondrial.

Em contraste, vias que aumentam a produção de TMAO têm sido associadas a maior risco metabólico e cardiovascular em diferentes estudos.

Novamente, isso não significa que devamos perseguir uma bactéria específica.

A microbiota deve ser entendida como um ecossistema.

Por que a mulher pode “mudar” depois dos 40?

Essa talvez seja uma das aplicações clínicas mais interessantes do artigo.

Uma mulher pode manter praticamente o mesmo estilo de vida e, mesmo assim, começar a perceber:

  • maior facilidade para acumular gordura abdominal;
  • pior tolerância aos carboidratos;
  • alteração do colesterol;
  • maior dificuldade para manter massa muscular;
  • maior inflamação;
  • alterações intestinais;
  • fadiga;
  • pior recuperação.

Isso não acontece porque “o metabolismo simplesmente parou”.

O que muda é o contexto biológico.

Hormônios, composição corporal, mitocôndrias, microbiota, sistema imune e mecanismos antioxidantes começam a interagir de maneira diferente.

Nutrição de precisão não significa suplementar cada SNP

Esse é outro ponto importante.

Falar em nutrição de precisão não significa olhar um exame genético e prescrever um suplemento para cada variante encontrada.

A proposta é muito mais ampla.

O artigo sugere integrar:

genética + microbiota + metabolômica + alimentação + estilo de vida + fase hormonal.

Isso permite compreender melhor por que duas mulheres podem responder de maneira diferente à mesma dieta ou intervenção.

Mas ainda estamos longe de transformar essa abordagem em protocolos clínicos completamente validados.

O básico continua sendo muito poderoso

Apesar de toda a discussão sobre genética e multiômica, a revisão reforça a importância de intervenções clássicas.

Alimentação de qualidade e atividade física continuam sendo fundamentais.

Dietas como Mediterrânea e DASH e diferentes formas de exercício foram associadas em estudos citados pelo artigo a melhora de marcadores inflamatórios e oxidativos.

Ou seja:

genética não substitui estilo de vida.

Ela pode ajudar a explicar diferenças individuais, mas não elimina a importância dos pilares fundamentais de saúde.

Ainda existem muitas perguntas sem resposta

É essencial não transformar essa revisão em mais certeza do que ela realmente oferece.

Trata-se de uma revisão narrativa, e não de uma revisão sistemática ou meta-análise. Os autores pesquisaram estudos publicados entre 2015 e 2025, mas não realizaram avaliação formal de qualidade ou risco de viés.

Além disso, grande parte da literatura ainda é transversal.

Existem poucos estudos acompanhando as mesmas mulheres ao longo de diferentes fases hormonais.

Ainda não sabemos com clareza, por exemplo, se determinadas alterações da microbiota precedem mudanças hormonais ou se são consequência delas.

O mesmo vale para estresse oxidativo e inflamação.

A principal mensagem

A saúde da mulher não pode ser compreendida olhando apenas para hormônios.

Também não pode ser explicada apenas pela genética.

Nem pela microbiota.

Nem por um único biomarcador.

O que essa revisão propõe é uma visão de sistema:

hormônios, metabolismo, genética, microbiota, inflamação e estresse oxidativo conversam entre si durante toda a vida feminina.

Essa interação pode ajudar a explicar por que duas mulheres da mesma idade, com peso semelhante e hábitos aparentemente parecidos, apresentam respostas metabólicas completamente diferentes.

E talvez seja justamente aí que esteja o futuro da medicina e da nutrição de precisão:

não criar mais protocolos iguais para todas, mas compreender melhor a biologia individual de cada mulher.

Referência

Marum ABRF, Santamarina AB, Lobão AVG, et al. Women’s health across lifespan: A review of genetic variants, gut microbiota, and oxidative stress. Food and Humanity. 2026;7:101516. doi:10.1016/j.foohum.2026.101516.

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Cuidado com o que você toma

Um suplemento amplamente utilizado para aliviar dores nas articulações pode estar associado à progressão mais rápida da doença de Alzheimer, segundo uma nova pesquisa da Universidade da Flórida.

Um recente estudo constatou que pessoas com comprometimento cognitivo leve que relataram usar glucosamina apresentaram maior probabilidade de desenvolver demência do que aquelas que não utilizavam o suplemento. Os pesquisadores também encontraram indícios de que a substância pode interferir em processos biológicos cerebrais que já estão alterados na doença de Alzheimer.

Publicados na revista Nature Metabolism, os resultados combinam uma ampla análise de prontuários médicos com estudos avançados de imagem de tecido cerebral humano e experimentos em modelos de Alzheimer em camundongos.

Os dados não demonstram que a glucosamina cause demência e ainda precisam ser confirmados em ensaios clínicos. Entretanto, segundo os autores, reforçam as evidências de que alterações no metabolismo desempenham um papel importante nas doenças neurodegenerativas.

Milhares de pessoas vivem com Alzheimer. Milhões de outras têm demências relacionadas, como a demência com corpos de Lewy e a frontotemporal. Muitas dessas pessoas utilizam um suplemento vendido sem receita que, possivelmente, pode agravar a progressão da doença.

Uso de glucosamina e risco de demência

Como a glucosamina é amplamente disponível e frequentemente utilizada por idosos para cuidar da saúde das articulações, os pesquisadores decidiram investigar sua possível influência sobre o Alzheimer e outras demências relacionadas.

A equipe utilizou inteligência artificial para analisar prontuários da UF Health coletados entre 2012 e 2024, sem informações que permitissem identificar os pacientes. A análise se concentrou em pessoas diagnosticadas com Alzheimer e demências relacionadas ou com comprometimento cognitivo leve.

O uso de glucosamina foi relatado por 1.896 pacientes com Alzheimer ou demências relacionadas e por 2.750 com comprometimento cognitivo leve, correspondendo a aproximadamente 8% de cada grupo.

Após considerar fatores como idade, sexo e características demográficas, os pesquisadores verificaram que o uso do suplemento estava associado a uma probabilidade 25% maior de pessoas com comprometimento cognitivo leve desenvolverem demência posteriormente.

Entre os pacientes já diagnosticados com Alzheimer ou demências relacionadas, o uso de glucosamina também foi associado a um aumento de 25% no risco de morte. Esse aumento não foi observado no grupo com comprometimento cognitivo leve, o que sugere que os possíveis efeitos do suplemento podem variar conforme o estágio da doença.

Uma via metabólica que pode ajudar a explicar a associação

O estudo identificou um processo biológico que pode estar envolvido nessa relação: uma via responsável pela adição de estruturas de açúcar às proteínas parece apresentar atividade excessiva na doença de Alzheimer. Segundo os pesquisadores, esse mecanismo pode se tornar um alvo para novos tratamentos.

Os resultados sugerem que as alterações metabólicas contribuem de forma significativa para a progressão do Alzheimer. Corrigir essas alterações poderia complementar as abordagens voltadas às placas e aos emaranhados característicos da doença.

A descoberta foi possível graças a uma tecnologia avançada de análise espacial desenvolvida em laboratório. Essa ferramenta permite examinar milhares de moléculas produzidas durante a decomposição de alimentos ou medicamentos pelo organismo e identificar vias complexas que, de outra forma, permaneceriam ocultas.

Como a glucosamina pode atuar no cérebro

Os pesquisadores concentraram a investigação na glucosamina por ser uma molécula relacionada aos açúcares, presente naturalmente no organismo e capaz de atravessar a barreira hematoencefálica. No cérebro, ela pode participar de vias bioquímicas envolvidas na formação de estruturas complexas de açúcar ligadas às proteínas. Os suplementos comerciais costumam ser produzidos a partir de matérias-primas como cascas de crustáceos ou milho.

Os resultados indicam que os efeitos da glucosamina podem depender fortemente do ambiente biológico em que ela atua.

Embora revelem uma associação e não comprovem causalidade, levantam uma questão clínica importante que merece investigação mais aprofundada.

O cérebro de pessoas com Alzheimer pode ser particularmente vulnerável a alterações nessa via, em comparação com o tecido cerebral saudável.

Resultados em camundongos e tecido cerebral humano

Experimentos com camundongos geneticamente modificados forneceram evidências adicionais para a hipótese.

Os pesquisadores observaram que a glucosamina aumentou significativamente a ligação de moléculas de açúcar às proteínas dentro das células. Os animais que receberam a substância também apresentaram piora nos déficits de memória social, capacidade de reconhecer e lembrar outros indivíduos.

Quando essa atividade de adição de açúcares foi reduzida por meios químicos, o desempenho da memória melhorou.

Em colaboração com Stefan Prokop, a equipe também examinou amostras de tecido cerebral humano do Banco de Cérebros e Tecidos de Neuromedicina da Universidade da Flórida. Em comparação com amostras de pessoas saudáveis, os tecidos de pessoas com Alzheimer apresentaram níveis consideravelmente mais altos de açúcares ligados às proteínas.

Em conjunto, os achados sugerem que essa alteração metabólica pode contribuir ativamente para a doença, em vez de ser apenas uma consequência dela.

“As proteínas funcionam como máquinas moleculares das células. Muitas precisam receber estruturas de açúcar na medida adequada para adquirir a forma correta, chegar ao local apropriado e desempenhar suas funções. No Alzheimer, esse sistema parece estar excessivamente ativo: o cérebro adiciona estruturas de açúcar em excesso, o que pode contribuir para a doença em vez de oferecer proteção.” – Finaliza o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

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O médico mais difícil de lidar

 

Talvez o médico mais difícil de lidar seja aquele que não precisa vender nada para você.

Não porque dinheiro seja errado. Não porque um médico não deva ganhar bem. E muito menos porque ter dívidas torne alguém um profissional ruim.

A questão é outra.

Quanto menor a pressão financeira sobre uma decisão médica, maior tende a ser a liberdade para fazer algo extremamente difícil na medicina moderna:

dizer ao paciente que ele não precisa fazer nada.

Esse médico talvez não tenha o consultório mais luxuoso da cidade.

Talvez não troque de carro todos os anos.

Talvez não esteja preocupado em transmitir sucesso por meio de roupas, relógios, viagens ou pelas tecnologias que possui dentro do consultório.

Porque ele aprendeu que existe uma diferença enorme entre parecer bem-sucedido e ter independência suficiente para exercer a medicina com liberdade.

E isso importa mais do que parece.

Quando a medicina encontra o incentivo financeiro

Existe um conceito bastante estudado em economia da saúde: os incentivos modificam comportamentos.

Isso não significa que médicos tomem conscientemente decisões erradas por dinheiro. Seria simplista e injusto afirmar isso.

O problema é muito mais sutil.

Quando o profissional ganha mais se fizer mais exames, procedimentos ou tratamentos, cria-se um conflito potencial entre duas forças:

“O que meu paciente realmente precisa?”

e

“O que mantém minha estrutura funcionando?”

A literatura científica mostra que os modelos de remuneração podem modificar o comportamento médico.

Um estudo publicado no American Economic Review encontrou que um aumento de aproximadamente 2% na remuneração médica esteve associado a aumento de cerca de 3% na quantidade de cuidados oferecidos. Procedimentos eletivos — justamente aqueles em que há maior margem de decisão — responderam ainda mais intensamente às mudanças de remuneração.

Revisões sobre conflitos financeiros também concluíram que relações e incentivos econômicos podem influenciar decisões clínicas, incluindo indicação de exames, tratamentos e utilização de tecnologias.

Isso não transforma médicos em vilões.

Mostra apenas algo que vale para qualquer ser humano:

ninguém é completamente imune aos incentivos do ambiente em que trabalha.

Quanto mais você precisa faturar, mais difícil fica dizer “não faça”

Imagine duas situações.

Um médico compra um equipamento de alto custo. Assume parcelas importantes durante vários anos. Contrata funcionários para operá-lo. Cria uma estrutura dependente daquele equipamento.

Outro médico não possui a tecnologia e não tem nenhuma obrigação financeira relacionada a ela.

Se surgir um paciente no limite da indicação, os dois podem ser profissionais éticos e competentes.

Mas somente um deles está completamente livre daquele incentivo financeiro específico.

Esse é o ponto.

O conflito de interesse não significa necessariamente corrupção ou má-fé.

Significa simplesmente existir um segundo interesse capaz de competir com o interesse primário do paciente.

A própria discussão sobre profissionalismo médico reconhece que a essência da profissão está justamente em colocar o bem-estar do paciente acima dos interesses financeiros ou proprietários do médico.

Tecnologia não é sinônimo de medicina melhor

A medicina moderna criou uma associação perigosa:

novo = melhor.

Nem sempre.

Uma tecnologia pode ser extraordinária quando corretamente indicada.

Mas o fato de existir uma máquina nova não significa que todo paciente precise utilizá-la.

O mesmo vale para medicamentos, suplementos, procedimentos estéticos e cirurgias.

Existe uma diferença fundamental entre:

ter uma tecnologia disponível

e

precisar utilizá-la.

Um bom médico não precisa provar que seu equipamento foi um bom investimento.

Ele precisa decidir se aquele equipamento será um bom investimento para a saúde do paciente.

São coisas completamente diferentes.

O médico independente pode dar uma resposta frustrante

Você pode chegar esperando sair da consulta com:

um procedimento,

um medicamento,

uma cirurgia,

dez suplementos,

um “protocolo”,

ou algum tratamento inovador.

E ouvir:

“Você não precisa disso.”

Talvez essa seja uma das consultas mais valiosas que existem.

Porque fazer alguma coisa é psicologicamente muito mais atraente do que não fazer nada.

Para o paciente e, muitas vezes, também para o médico.

Intervir transmite sensação de ação.

Prescrever transmite sensação de controle.

Operar transmite sensação de resolução.

Mas medicina não deveria ser medida pela quantidade de coisas que foram feitas.

Deveria ser medida pela quantidade de coisas necessárias que foram feitas e também pelas desnecessárias que foram evitadas.

Cirurgia exige ainda mais cuidado

Na cirurgia, isso fica particularmente evidente.

Uma cirurgia corretamente indicada pode transformar uma vida.

Uma cirurgia desnecessária expõe uma pessoa saudável ou relativamente saudável a anestesia, sangramento, infecção, trombose, cicatrizes, complicações e eventualmente novos procedimentos.

Por isso, uma das características mais importantes de um cirurgião não é apenas saber operar.

É saber quando não operar.

Existe uma frase que ensino há muito tempo:

a parte mais difícil de uma cirurgia pode acontecer antes de entrar no centro cirúrgico: decidir se ela realmente deveria ser realizada.

Formação custa caro — mas ignorância custa mais

Existe outra diferença importante.

O médico financeiramente independente talvez não tenha interesse em comprar uma máquina nova todos os anos.

Mas costuma existir um investimento do qual nenhum médico deveria economizar:

formação.

Graduação.

Residência.

Especialização.

Congressos.

Cursos sérios.

Leitura científica.

Atualização constante.

Discussão de casos.

Anos observando pacientes.

Porque uma tecnologia pode se tornar obsoleta rapidamente.

O conhecimento construído ao longo de décadas modifica a maneira como o médico pensa.

E é justamente esse conhecimento que permite reconhecer quando uma tecnologia nova realmente acrescenta alguma coisa e quando ela é apenas marketing vestido de inovação.

Dívida e pressão financeira também têm consequências

É importante não transformar isso em julgamento moral sobre médicos endividados.

A própria literatura mostra que endividamento e estresse financeiro podem influenciar escolhas profissionais e bem-estar dos médicos.

Uma revisão sistemática encontrou associação entre dívida educacional, estresse financeiro e determinadas escolhas de carreira entre médicos em formação, embora os resultados não sejam idênticos em todos os estudos.

Ou seja:

o problema não é ter dívida.

O problema é construir uma vida profissional tão dependente de faturamento crescente que se torne difícil separar necessidade financeira de necessidade médica.

Talvez luxo seja poder dizer a verdade

Para mim, existe uma forma diferente de pensar sobre sucesso na medicina.

Sucesso talvez não seja ter o consultório mais caro.

Nem o carro mais novo.

Nem a máquina recém-lançada.

Nem oferecer o tratamento que está viralizando naquele momento.

Talvez um dos maiores luxos que um médico possa conquistar seja a possibilidade de olhar para o paciente e dizer:

“Você não precisa gastar dinheiro com isso.”

Ou:

“Ainda não é hora de operar.”

Ou:

“Esse tratamento parece interessante, mas ainda não temos evidência suficiente para recomendar.”

Ou simplesmente:

“Não faça.”

Esse médico pode ser difícil para algumas empresas.

Difícil para vendedores.

Difícil para determinados modelos de negócio.

Talvez até difícil para o próprio paciente, quando ele chega querendo uma solução rápida e recebe em troca uma explicação que não gostaria de ouvir.

Mas existe uma enorme diferença entre oferecer aquilo que alguém deseja comprar e indicar aquilo de que uma pessoa realmente precisa.

Referências:

Clemens J, Gottlieb JD. Do Physicians’ Financial Incentives Affect Medical Treatment and Patient Health?American Economic Review. 2014.
PubMed – PMID 25170174

Robertson C, Rose S, Kesselheim AS. Effect of financial relationships on the behaviors of health care professionals: a review of the evidence. J Law Med Ethics. 2012.
PubMed – PMID 23061573

Bernat JL. Restoring medical professionalism. Neurology. 2012.
PubMed – PMID 22915177

Pisaniello MS et al. Effect of medical student debt on mental health, academic performance and specialty choice: a systematic review. BMJ Open. 2019.
PubMed – PMID 31270123