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Medicamentos GLP-1 podem aumentar o risco de queda de cabelo 

Homens que já apresentam predisposição genética para a forma mais comum de queda de cabelo podem ter um risco adicional de aproximadamente 7% de perda capilar quando utilizam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, usados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.

O estudo, conduzido por pesquisadores da NYU Langone Health, investigou o gene GLP1R, responsável pela expressão dos receptores de GLP-1. Quanto maior a atividade desse gene, maior tende a ser a disponibilidade de receptores de GLP-1 no organismo.

Os pesquisadores compararam variantes relacionadas à maior atividade do GLP1R com variantes genéticas associadas à alopecia androgenética, forma hereditária de perda de cabelo que geralmente afeta a região frontal e o topo do couro cabeludo.

Como a alopecia androgenética masculina é muito mais bem estudada do ponto de vista genético do que a feminina, os pesquisadores conseguiram avaliar essa possível relação causal apenas nos homens.

Queda de cabelo já vinha sendo relatada por usuários de GLP-1

Tanto homens quanto mulheres em uso desses medicamentos já relataram afinamento e queda dos fios como possíveis efeitos adversos.

Até agora, grande parte desses casos vinha sendo atribuída à perda rápida de peso, que pode desencadear eflúvio telógeno, uma forma temporária de queda de cabelo.

Em muitos pacientes, os cabelos voltam a crescer alguns meses após a estabilização do peso.

Até então, porém, a possibilidade de uma relação genética direta entre a via do GLP-1 e a alopecia androgenética era apenas uma hipótese.

O estudo encontrou uma associação genética

O estudo mostrou que variantes genéticas associadas a níveis naturalmente mais elevados de receptores GLP-1 eram mais frequentes em homens com alopecia androgenética.

Os pesquisadores ajustaram a análise para outros fatores conhecidos por influenciar a perda de cabelo, incluindo hipertensão arterial, que pode comprometer a circulação do couro cabeludo e prejudicar o crescimento dos folículos.

Mesmo após esse ajuste, o aumento de risco permaneceu em aproximadamente 7%.

A equipe também avaliou outros possíveis fatores de confusão, como:

  • resistência à insulina;
  • diabetes tipo 2;
  • níveis mais baixos de testosterona.

Ainda assim, a associação genética permaneceu.

O que essa associação significa?

Como o estudo analisou genes envolvidos tanto na atividade do GLP-1 quanto na alopecia androgenética, a sobreposição encontrada sugere que pode existir uma ligação biológica entre essas duas vias.

Isso não significa que todo homem que utiliza um medicamento GLP-1 perderá cabelo.

Significa que indivíduos já geneticamente predispostos à alopecia androgenética podem apresentar maior vulnerabilidade.

“Se estudos futuros confirmarem esses achados, pode ser possível no futuro identificar previamente pacientes com maior risco de perda capilar antes da prescrição desses medicamentos.  Os pesquisadores sugerem que alguns pacientes poderiam eventualmente se beneficiar de estratégias preventivas associadas, como o uso de minoxidil ou outras terapias destinadas à preservação do crescimento capilar. Uma informação interessante é que na minha prática clínica as mulheres com lipedema tem pouca expressão deste gene.” – Comenta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Ainda não sabemos qual é o mecanismo

Os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários novos estudos para compreender de que maneira a ativação da via do GLP-1 poderia interferir diretamente na função do folículo piloso.

Também será necessário investigar se a mesma associação observada nos homens ocorre nas mulheres.

Para realizar a análise, os pesquisadores utilizaram grandes bancos de dados genéticos públicos, incluindo o eQTLGen, com 31.684 participantes, e o banco do Complex Traits Genetics Group, com mais de 205 mil indivíduos. As populações analisadas eram predominantemente brancas.

Alopecia androgenética é extremamente comum

A alopecia androgenética afeta aproximadamente metade dos homens brancos norte-americanos com mais de 50 anos.

Nas mulheres, a prevalência também é elevada nessa faixa etária, especialmente após a menopausa.

Ao mesmo tempo, o uso de medicamentos GLP-1 cresceu rapidamente nos últimos anos.

Pesquisas indicam que cerca de 12% dos americanos já utilizaram GLP-1 especificamente para perda de peso, incluindo aproximadamente uma em cada cinco mulheres entre 50 e 64 anos.

Desde a aprovação dos primeiros medicamentos dessa classe, as prescrições cresceram de forma expressiva.

O que muda na prática?

O estudo traz uma nova possibilidade para explicar a queda de cabelo observada em alguns usuários de GLP-1.

Até agora, o principal mecanismo considerado era a perda rápida de peso.

Os novos dados sugerem que, em algumas pessoas, pode existir também uma predisposição genética que torna o folículo piloso mais vulnerável à ativação da via do GLP-1.

Ainda é cedo para utilizar esse achado para modificar condutas ou indicar tratamentos preventivos de rotina.

Mas ele reforça algo importante:

quando um paciente apresenta queda de cabelo durante o uso de GLP-1, talvez não seja apenas consequência do emagrecimento. Em indivíduos geneticamente predispostos, pode existir também uma interação biológica com a própria via do GLP-1.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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Inteligência artificial ajuda a identificar sintomas pouco relatados em usuários de medicamentos GLP-1

A inteligência artificial está oferecendo uma nova forma de analisar o que os próprios pacientes relatam sobre medicamentos da classe dos GLP-1.Ao examinar mais de 400 mil publicações no Reddit, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia identificaram sintomas descritos por pessoas em uso de semaglutida — presente em medicamentos como Ozempic, Wegovy e Rybelsus — e tirzepatida — presente em Mounjaro e Zepbound — que podem não estar totalmente representados nos ensaios clínicos ou nas informações regulatórias atualmente disponíveis.

O estudo, publicado recentemente na revista Nature Health, analisou mais de cinco anos de publicações feitas por quase 70 mil usuários do Reddit.

Entre os achados que chamaram mais atenção estavam dois grupos de sintomas que, segundo os pesquisadores, merecem ser investigados de forma mais aprofundada:

  • alterações reprodutivas, incluindo mudanças no ciclo menstrual;
  • alterações relacionadas à temperatura corporal, como calafrios e ondas de calor.

É importante destacar que o estudo não demonstrou que esses medicamentos causam esses sintomas. O que os pesquisadores encontraram foram sinais espontaneamente relatados por usuários, que podem servir como pistas para pesquisas futuras.

O que os pacientes contam fora dos ensaios clínicos?

Os ensaios clínicos são fundamentais para avaliar eficácia e segurança dos medicamentos, mas não conseguem necessariamente capturar todos os sintomas relevantes quando uma medicação passa a ser utilizada por milhões de pessoas na vida real.

Alguns efeitos adversos mais conhecidos também apareceram com frequência na análise, como náuseas e sintomas gastrointestinais. Isso serviu como uma espécie de validação do método, mostrando que a análise estava conseguindo identificar sinais já conhecidos.

Por outro lado, sintomas menos discutidos em estudos clínicos também surgiram de forma repetida.

Segundo os pesquisadores, cerca de 4% dos usuários que relataram efeitos adversos mencionaram alterações reprodutivas, especialmente irregularidades menstruais.

Entre os relatos estavam:

  • sangramento entre as menstruações;
  • aumento do sangramento;
  • ciclos menstruais irregulares.

Como a amostra incluía homens e mulheres, os próprios autores destacam que essa proporção poderia ser ainda maior se fossem analisadas apenas mulheres.

Alterações na temperatura corporal também chamaram atenção

Outro grupo de sintomas recorrentes envolvia a regulação da temperatura.

Usuários relataram:

  • sensação excessiva de frio;
  • calafrios;
  • ondas de calor;
  • sensação semelhante a febre.

Esses relatos despertaram interesse porque o hipotálamo, região do cérebro envolvida na ação dos medicamentos GLP-1, participa de diversas funções importantes, incluindo:

controle da fome, regulação hormonal, reprodução e temperatura corporal.

Isso, porém, não significa que exista relação causal comprovada.

A possível conexão biológica apenas reforça a necessidade de investigar esses relatos de maneira mais sistemática.

Fadiga foi um dos sintomas mais relatados

Outro achado interessante foi a fadiga.

Ela apareceu como a segunda queixa mais frequentemente relatada nas publicações analisadas.

Entretanto, segundo os autores, relativamente poucos ensaios clínicos apresentaram fadiga em frequência suficiente para atingir os limites tradicionais utilizados para divulgação de eventos adversos.

Esse contraste mostra uma das vantagens potenciais de observar dados do chamado “mundo real”.

Um sintoma pode não ser considerado particularmente relevante em um ensaio clínico, mas ainda assim ter grande importância para os pacientes no cotidiano.

Redes sociais podem funcionar como um sistema de alerta precoce

“A proposta dos pesquisadores é utilizar o que chamam de escuta social computacional. Estamos fazendo isso com o Lipedema. Na prática, trata-se de usar ferramentas computacionais para analisar grandes volumes de conversas espontâneas sobre saúde. Muitas vezes, um paciente comenta uma experiência em um fórum online, mas nunca chega a relatá-la formalmente ao médico, ao fabricante do medicamento ou a uma agência reguladora. Essas comunidades acabam funcionando como grandes espaços de troca de experiências em tempo real. Por isso, quando milhares de pessoas começam a relatar fenômenos semelhantes, esses dados podem servir como um sinal inicial de algo que merece investigação.” – Explica o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Mas existem limitações importantes

Os próprios pesquisadores ressaltam que usuários do Reddit não representam necessariamente todas as pessoas que utilizam medicamentos GLP-1.

A população da plataforma tende a ser:

  • mais jovem;
  • predominantemente masculina;
  • fortemente concentrada nos Estados Unidos.

Além disso, os relatos são espontâneos e não passam necessariamente por confirmação médica.

Portanto, encontrar uma associação entre o uso do medicamento e determinado sintoma não significa que o medicamento seja a causa.

Pode haver diversos fatores envolvidos, como:

perda de peso, mudanças alimentares, outras medicações, alterações hormonais prévias, doenças associadas ou simplesmente coincidência temporal.

O objetivo não é substituir os ensaios clínicos

Os pesquisadores deixam isso muito claro.

Ensaios clínicos continuam sendo o padrão mais importante para avaliar segurança e eficácia.

A vantagem desse tipo de análise é outra:

velocidade.

Quando uma medicação passa rapidamente de um uso relativamente restrito para milhões de usuários, pode levar anos até que determinados efeitos sejam caracterizados em estudos convencionais.

Enquanto isso, as pessoas já estão conversando sobre suas experiências todos os dias.

A inteligência artificial pode ajudar a transformar essas conversas em hipóteses científicas.

O que esse estudo realmente mostra?

O principal recado não é que semaglutida ou tirzepatida causam alterações menstruais, calafrios ou ondas de calor.

O estudo não permite afirmar isso.

O que ele mostra é que esses sintomas aparecem repetidamente nos relatos de usuários e, por isso, merecem ser investigados de forma mais cuidadosa.

Essa diferença é fundamental.

Relatos de pacientes podem indicar onde devemos procurar.

Mas são os estudos prospectivos, controlados e bem desenhados que precisam confirmar se existe ou não uma relação causal.

A inteligência artificial, nesse cenário, pode funcionar como uma grande ferramenta de vigilância:

escutando milhões de pacientes ao mesmo tempo e ajudando a ciência a identificar perguntas que talvez ainda não tenham sido feitas.

 

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Deficiência de ferro sem anemia: o que a nova diretriz muda e por que isso importa para mulheres com lipedema

Seu hemograma está normal, mas você continua sentindo cansaço, dificuldade de concentração ou queda de cabelo? Esses sintomas podem ter diferentes causas, e uma delas merece atenção: a deficiência de ferro, que pode existir mesmo sem anemia.

A nova diretriz da Sociedade Americana de Hematologia (ASH), publicada em 2026, reforça a importância de reconhecer essa deficiência mais cedo. O documento atualiza os critérios de diagnóstico e destaca uma mensagem essencial: não é preciso esperar a hemoglobina cair para investigar a falta de ferro.

Ferro baixo e anemia não são a mesma coisa

O ferro participa do transporte de oxigênio, da produção de energia e do funcionamento de diversos tecidos. A anemia por deficiência de ferro aparece quando a falta desse mineral compromete a produção de hemoglobina, a proteína dos glóbulos vermelhos que transporta oxigênio.

Entretanto, as reservas de ferro podem diminuir antes que o hemograma apresente alterações. Nessa fase, chamada de deficiência de ferro sem anemia, algumas pessoas já apresentam sintomas.

Por isso, um hemograma normal não exclui deficiência de ferro. A ferritina, exame utilizado para avaliar as reservas desse mineral, tem papel importante nessa investigação.

O que muda com a nova diretriz?

A ASH propõe limites de ferritina que permitem reconhecer mais casos de deficiência de ferro. Para adultos e pessoas que menstruam, a diretriz sugere ferritina igual ou inferior a 30 ng/mL, em vez de limitar o diagnóstico a valores iguais ou inferiores a 15 ng/mL.

Em pessoas que menstruam e apresentam sangramento excessivo, sintomas sugestivos, outros fatores de risco, cirurgia programada ou planejamento de gravidez, ferritina igual ou inferior a 50 ng/mL pode ser um critério apropriado para diagnosticar deficiência e orientar a conduta. Esse limite também pode ser aplicado a outros adultos com sintomas ou fatores de risco.

Nas gestantes, o limite sugerido é de 30 ng/mL; quando há anemia, pode ser apropriado considerar 50 ng/mL.

Isso significa que um resultado classificado como “normal” pelo laboratório pode precisar de outra interpretação conforme os sintomas, as perdas menstruais e o contexto clínico.

Esses números são critérios de diagnóstico, não metas universais de tratamento. A maioria das recomendações é condicional e se apoia em evidências de baixa certeza, o que torna a avaliação individual indispensável.

Por que essa mudança é especialmente relevante para mulheres com lipedema?

O estudo Prevalência e fatores de risco para lipedema no Brasil, publicado em 2022, trouxe um achado que merece atenção: 41,9% das mulheres com rastreamento sugestivo de lipedema relataram anemia, contra 17,5% das demais participantes.

Essa frequência foi aproximadamente 2,4 vezes maior no grupo com sintomas sugestivos de lipedema. O levantamento incluiu 253 mulheres, das quais 31 apresentaram alta probabilidade de diagnóstico pelo questionário utilizado.

O achado reforça a importância de investigar o problema. Como a deficiência de ferro pode existir antes da anemia, é plausível que outras mulheres com lipedema tenham reservas reduzidas de ferro sem que isso apareça no hemograma.

Ainda não sabemos quantas são. A hipótese de que exista uma parcela adicional de mulheres com deficiência de ferro sem anemia é relevante, mas precisa ser confirmada por estudos com avaliação laboratorial.

A importância do ferro para o cabelo e a tireoide

As consequências da deficiência de ferro podem ir além do cansaço.

Na saúde capilar, alguns estudos encontraram associação entre reservas reduzidas de ferro e queda difusa de cabelo. Entretanto, os resultados não são uniformes: queda capilar tem diversas causas, e repor ferro não garante melhora quando a deficiência não é o fator responsável. A investigação deve considerar o conjunto da história clínica.

O estado do ferro também se relaciona à função tireoidiana. Um estudo com mulheres em idade reprodutiva, incluindo gestantes e não gestantes, encontrou níveis menores de T4 livre nas participantes com deficiência de ferro. Essa associação merece atenção, mas não permite concluir que toda alteração da tireoide seja causada por falta de ferro ou que a reposição substitua o tratamento de uma doença tireoidiana.

Para mulheres com lipedema, isso significa que queixas como fadiga e queda de cabelo merecem investigação própria, sem serem automaticamente atribuídas ao lipedema.

E quando existe inflamação?

“A ferritina pode aumentar em situações inflamatórias e, por isso, um resultado aparentemente adequado nem sempre exclui deficiência de ferro. Para adultos com anemia da inflamação, a diretriz recomenda avaliar a ferritina junto com a saturação de transferrina, um indicador da disponibilidade de ferro no sangue. Nesse contexto, saturação abaixo de 20% ou ferritina abaixo de 100 ng/mL podem indicar deficiência, dependendo da avaliação clínica. Esses critérios não devem ser aplicados automaticamente a toda mulher com lipedema. É necessário avaliar se existe inflamação relevante, anemia e outras condições associadas.” – Ressalta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

O que isso muda no cuidado?

A nova diretriz reforça uma abordagem mais atenta aos sintomas e aos fatores de risco. Menstruação intensa, alimentação restritiva, dificuldades de absorção e histórico de cirurgia bariátrica, por exemplo, devem fazer parte da investigação.

Quando a deficiência é identificada, o cuidado envolve tanto a reposição quanto a busca de sua causa. A escolha do tratamento depende dos exames, dos sintomas, da tolerância e das condições de cada paciente.

Para mulheres com lipedema, a mensagem é particularmente importante: um hemograma normal não encerra a investigação de deficiência de ferro. Avaliar adequadamente as reservas desse mineral pode ajudar a reconhecer uma condição tratável que interfere no bem-estar e que pode passar despercebida quando se procura apenas anemia.

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Um capítulo por dia pode ajudar você a viver mais?

Pesquisa associa o hábito de ler livros à longevidade e à preservação das funções cognitivas

Ler um bom livro pode nos transportar para outras épocas, apresentar personagens inesquecíveis e mudar a maneira como enxergamos o mundo. Mas os benefícios da leitura talvez não terminem na última página. Segundo um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Yale, o hábito de ler livros está associado a uma vida mais longa.

A pesquisa acompanhou 3.635 adultos com mais de 50 anos nos Estados Unidos por um período de até 12 anos. Os participantes informaram quanto tempo dedicavam semanalmente à leitura de livros, jornais e revistas. Durante o acompanhamento, os pesquisadores compararam esses hábitos com os registros de mortalidade.

A pesquisa acompanhou 3.635 adultos com mais de 50 anos nos Estados Unidos por um período de até 12 anos. Os participantes informaram quanto tempo dedicavam semanalmente à leitura de livros, jornais e revistas. Durante o acompanhamento, os pesquisadores compararam esses hábitos com os registros de mortalidade.

O resultado chamou a atenção: as pessoas que liam livros apresentaram um risco de morte aproximadamente 20% menor durante o período estudado do que aquelas que não liam.

Quanto tempo de leitura é necessário?

Os pesquisadores dividiram os participantes em três grupos:

  • pessoas que não liam livros;
  • pessoas que liam até três horas e meia por semana;
  • pessoas que liam três horas e meia ou mais por semana.

A vantagem apareceu tanto entre os leitores moderados quanto entre aqueles que dedicavam mais tempo aos livros. Em outras palavras, não é preciso passar o dia inteiro lendo. Cerca de 30 minutos por dia — algo próximo de um capítulo — já foi associado a melhores resultados.

Depois de considerar fatores como idade, sexo, escolaridade, renda, estado de saúde, depressão, visão, situação profissional e estado civil, a associação permaneceu. No ponto em que 80% de cada grupo ainda estava vivo, os leitores de livros apresentaram uma vantagem ajustada de aproximadamente quatro meses de sobrevivência.

Isso não significa que cada pessoa que começar a ler ganhará exatamente quatro meses de vida. O número representa uma diferença estatística observada entre grupos, e não uma previsão individual.

Livros parecem oferecer algo diferente

Um dos aspectos mais interessantes do estudo foi a comparação entre livros e periódicos. Ler jornais e revistas também apresentou algum benefício entre os leitores mais assíduos, mas a associação com a longevidade foi mais consistente e mais forte no caso dos livros.

Uma possível explicação é o tipo de esforço mental envolvido. A leitura de um livro normalmente exige que o leitor acompanhe personagens, argumentos e acontecimentos por um período prolongado. Também é necessário guardar informações, estabelecer conexões entre capítulos e interpretar ideias que nem sempre estão apresentadas de forma direta.

Os autores chamam esse processo de “leitura profunda”: uma experiência lenta e imersiva que estimula a concentração, o raciocínio e o pensamento crítico. Dependendo da obra, a leitura também pode favorecer a empatia, a percepção social e a inteligência emocional.

Um artigo curto pode informar ou provocar uma reflexão importante. Um livro, porém, costuma oferecer mais espaço para desenvolver temas, construir relações e envolver o leitor durante várias horas ou dias. Essa continuidade pode representar uma espécie de exercício para o cérebro.

A cognição pode ser o elo entre leitura e longevidade

A pesquisa avaliou capacidades como memória imediata e tardia, atenção, orientação temporal, contagem regressiva e reconhecimento de informações. Os resultados indicaram que a preservação dessas capacidades cognitivas mediava a relação entre a leitura de livros e a sobrevivência.

Em termos simples, os dados sugerem o seguinte caminho: ler livros estaria associado a uma melhor manutenção da atividade cognitiva, e uma cognição mais preservada, por sua vez, estaria relacionada a uma maior longevidade.

Os pesquisadores também testaram a hipótese inversa: talvez pessoas com melhor capacidade cognitiva simplesmente lessem mais. Essa explicação não encontrou apoio na análise realizada. Ainda assim, como o estudo foi observacional, não é possível demonstrar definitivamente que a leitura foi a causa direta da vida mais longa.

O benefício apareceu em diferentes grupos

“A associação não ficou restrita às pessoas com maior renda ou escolaridade. A vantagem relacionada à leitura apareceu entre homens e mulheres, participantes mais e menos escolarizados, pessoas de diferentes níveis de riqueza e indivíduos com condições de saúde distintas. Esse resultado é especialmente interessante porque o livro é uma forma de lazer relativamente acessível. Bibliotecas, sebos, empréstimos e acervos digitais permitem incorporar a leitura à rotina sem grandes gastos. Trocar uma pequena parte do tempo diante da televisão ou das redes sociais por um livro pode ser um começo possível. O mais importante talvez seja criar regularidade: escolher um assunto que desperte interesse, deixar o livro ao alcance das mãos e reservar alguns minutos do dia para ler sem interrupções.” – Analisa o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

O que o estudo ainda não responde

Os resultados são promissores, mas precisam ser interpretados com cautela. Os hábitos de leitura foram informados pelos próprios participantes e medidos no início do acompanhamento. Além disso, mesmo com os ajustes estatísticos, outros aspectos do estilo de vida podem diferenciar leitores e não leitores.

A pesquisa também não determinou se romances, biografias, ensaios ou livros de não ficção produzem efeitos diferentes. Tampouco permitiu concluir se audiolivros e livros digitais oferecem exatamente os mesmos benefícios.

Portanto, a mensagem não é que a leitura substitua exercícios físicos, sono adequado, alimentação equilibrada, acompanhamento médico ou convivência social. Ela pode ser vista como mais um hábito potencialmente favorável dentro de uma rotina saudável.

Ler para preencher os anos — e talvez ganhar mais alguns

A ciência ainda precisa investigar melhor por que os leitores apresentaram maior longevidade. Mesmo assim, o estudo reforça algo que apaixonados por livros já conhecem: ler mantém a mente ativa, amplia perspectivas e oferece uma forma rica de ocupar o tempo.

Talvez um capítulo por dia não seja uma fórmula mágica. Mas é um hábito simples, prazeroso e capaz de tornar a vida intelectualmente mais longa — e que, de acordo com os dados, também pode estar associado a mais tempo para continuar lendo.

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O tratamento do lipedema melhora os sintomas — mas eles não melhoram todos ao mesmo tempo

Uma das maiores dificuldades no tratamento do lipedema é alinhar expectativa e realidade.

Muitas pacientes começam o tratamento esperando que dor, edema, sensibilidade, peso nas pernas, equimoses, cansaço e dificuldade para caminhar melhorem juntos e rapidamente.

Mas um recente estudo, com 1.300 pacientes com diagnóstico clínico de lipedema, mostrou que isso não acontece dessa forma.

Os sintomas parecem seguir uma ordem relativamente consistente de melhora. Alguns respondem mais rápido. Outros precisam de meses — e, em alguns casos, mais de um ano — para apresentar melhora importante.

O que o estudo avaliou?

As pacientes foram acompanhadas com o QuASiL, questionário validado que avalia 13 sintomas relacionados ao lipedema, entre eles:

  • dor;
  • sensibilidade ao toque;
  • facilidade para formar equimoses;
  • sensação de pressão ou tensão;
  • calor/queimação;
  • frio;
  • cãibras;
  • peso nas pernas;
  • fadiga;
  • edema;
  • irritação da pele;
  • prurido;
  • dificuldade para caminhar.

O acompanhamento mediano foi de aproximadamente 181 dias, mas algumas pacientes foram acompanhadas por quase cinco anos. O tratamento foi conservador e individualizado, incluindo diferentes combinações de compressão, drenagem linfática, exercício e orientação alimentar.

É importante destacar que este não foi um ensaio clínico com um protocolo único. Portanto, o estudo não permite dizer qual intervenção específica foi responsável pela melhora. O objetivo foi entender como os sintomas evoluem ao longo do tratamento conservador.

Todos os sintomas melhoraram, mas em velocidades diferentes

Esse foi o principal achado.

Os 13 sintomas avaliados apresentaram melhora ao longo do acompanhamento, mas a melhora não ocorreu simultaneamente. Seis métodos estatísticos diferentes apontaram para praticamente a mesma hierarquia.

Isso ajuda a responder uma pergunta muito frequente no consultório:

“Estou tratando, mas ainda tenho alguns sintomas. Isso significa que o tratamento não está funcionando?”

Nem sempre.

Alguns sintomas são naturalmente mais lentos para responder.

Os sintomas que tendem a melhorar mais rápido

Entre os sintomas mais responsivos estavam:

irritação da pele — redução média de 66,4%
dificuldade para caminhar — 62,6%
prurido — 62,0%
calor/queimação — 64,4%.

Esses sintomas podem refletir fenômenos mais dinâmicos, relacionados a mediadores inflamatórios, vasomotricidade e impacto funcional.

Por isso, muitas pacientes podem perceber primeiro melhora de:

  • ardência;
  • coceira;
  • desconforto cutâneo;
  • mobilidade.

Isso pode acontecer antes de alterações mais estruturais do tecido.

Os sintomas mais persistentes

O estudo identificou um grupo de sintomas que tende a melhorar mais lentamente:

equimoses
edema
sensibilidade ao toque
peso nas pernas
fadiga
dor
pressão/tensão.

Esse grupo foi chamado de “núcleo persistente”.

As equimoses foram o sintoma mais resistente.

Mesmo assim, elas melhoraram.

Entre as pacientes que apresentaram resposta global significativa, a redução média das equimoses foi de 39,1%. Portanto, “mais resistente” não significa “sem resposta”.

Por que as equimoses demoram tanto para melhorar?

Provavelmente porque representam uma alteração mais estrutural.

A tendência a formar equimoses no lipedema está relacionada à fragilidade capilar e alterações da microvasculatura. Estruturas vasculares não se modificam na mesma velocidade que sintomas associados a mediadores inflamatórios ou vasomotores.

Por isso, é plausível que ardência ou prurido melhorem antes que a fragilidade vascular seja modificada. O próprio estudo propõe que o remodelamento vascular tende a ocorrer em uma escala temporal mais lenta.

Isso tem uma implicação prática importante:

continuar apresentando equimoses após semanas ou meses de tratamento não significa necessariamente que o tratamento falhou.

E o edema?

O edema foi outro sintoma particularmente persistente.

Entre as pacientes com resposta mais intensa ao tratamento, 67,2% ainda apresentavam edema ativo no melhor momento observado, apesar da melhora global importante.

Isso mostra como é inadequado julgar todo o tratamento com base em apenas um sintoma.

Uma paciente pode estar:

  • com menos dor;
  • caminhando melhor;
  • dormindo melhor;
  • com menos sensação de peso;
  • com menor irritação da pele;

e ainda apresentar edema residual.

Isso não significa ausência de resposta.

Quanto tempo pode levar?

Talvez esse seja o resultado mais importante para alinhar expectativas.

Na análise de tempo para atingir pelo menos 50% de melhora, houve diferenças enormes entre os sintomas.

A mediana foi aproximadamente:

546 dias para equimoses — cerca de 18 meses
381 dias para sensibilidade ao toque
368 dias para edema
203 dias para calor/queimação
205 dias para sensação de frio.

Isso significa que avaliar um tratamento após poucas semanas pode ser cedo demais para determinados sintomas.

A melhora do lipedema precisa ser pensada em meses e, para algumas manifestações, possivelmente anos, e não em uma expectativa imediata.

Mas esses tempos não devem ser interpretados como promessa individual ou cronograma rígido. O estudo é retrospectivo, os tratamentos foram diferentes entre as pacientes e existe grande variação individual.

A evolução não é linear

Outro ponto muito importante é que o tratamento do lipedema não segue necessariamente uma linha reta.

Pacientes podem:

  • melhorar;
  • estabilizar;
  • apresentar períodos de piora;
  • voltar a melhorar.

O estudo analisou também pacientes que tiveram uma fase de piora depois de um período de controle.

Os primeiros sintomas a reaparecer foram:

edema
e
sensação de pressão/tensão.

O edema reapareceu em 81,6% das pacientes elegíveis para essa análise, e a pressão/tensão em 72,7%.

Isso levanta uma hipótese interessante: edema e pressão podem funcionar como sinais precoces de perda de controle dos sintomas.

Ainda é necessário confirmar isso prospectivamente, mas pode ser útil ensinar a paciente a reconhecer mudanças precoces em seu próprio corpo.

Piora não significa que tudo voltou ao início

Esse conceito é importante.

Assim como os sintomas não desaparecem todos juntos, eles também não reaparecem todos juntos.

Edema e pressão podem aumentar enquanto outros sintomas continuam relativamente controlados.

Portanto, uma piora pontual não deve automaticamente ser interpretada como “o tratamento deixou de funcionar”.

O mais adequado é compreender:

qual sintoma voltou, por que voltou e o que mudou naquele período.

O tratamento não deve ser avaliado apenas pelo tamanho das pernas

O estudo analisou sintomas, não redução de volume ou emagrecimento.

Isso reforça uma ideia fundamental no lipedema:

resultado clínico não é sinônimo de perda de peso.

Uma mulher pode ter melhora importante de:

  • dor;
  • função;
  • mobilidade;
  • peso nas pernas;
  • sintomas cutâneos;

mesmo sem uma transformação imediata na aparência corporal.

Da mesma forma, perder peso não garante necessariamente resolução de todos os sintomas do lipedema.

O tratamento precisa avaliar a mulher como um todo.

O que é razoável esperar do tratamento?

O dado mais importante desse trabalho é que existe possibilidade real de melhora clínica com tratamento conservador.

Mas a expectativa precisa ser adequada.

Não devemos prometer:

“em três meses todos os sintomas vão desaparecer”.

Os dados não sustentam isso.

O que o estudo sugere é:

alguns sintomas melhoram mais rapidamente, enquanto alterações relacionadas a edema, fragilidade capilar, sensibilidade, dor e remodelamento estrutural exigem mais tempo.

O tratamento deve ser visto como uma construção progressiva.

Primeiro podem melhorar sintomas mais dinâmicos.

Depois, com continuidade, podem ocorrer mudanças mais lentas nos sintomas persistentes.

O objetivo não é zerar todos os sintomas imediatamente

Na prática, o tratamento do lipedema deveria buscar:

  • reduzir dor e desconforto;
  • melhorar função e mobilidade;
  • controlar edema;
  • preservar massa muscular;
  • melhorar condicionamento físico;
  • tratar obesidade quando presente;
  • melhorar qualidade alimentar;
  • reduzir fatores que agravam sintomas;
  • manter a paciente funcional e metabolicamente saudável.

A resposta deve ser individualizada.

Uma paciente pode ter como principal problema a dor. Outra, edema. Outra, fadiga. Outra, limitação funcional.

Por isso, não existe um único marcador que defina sucesso terapêutico.

Persistência de um sintoma não significa fracasso

Talvez essa seja a principal mensagem para as pacientes.

Uma mulher pode melhorar muito e continuar tendo equimoses.

Pode melhorar da dor e ainda perceber algum edema.

Pode caminhar melhor antes de notar grande alteração visual nas pernas.

Pode ter períodos de oscilação.

Tudo isso pode fazer parte da evolução.

No estudo, mesmo os sintomas mais resistentes apresentaram melhora relevante, mas em ritmo mais lento.

Conclusão

“ O tratamento do lipedema exige uma palavra que muitas vezes é difícil de aceitar: tempo. A melhora existe, mas não acontece da mesma maneira para todos os sintomas. Irritação, prurido, calor/queimação e dificuldade para caminhar podem responder relativamente mais rápido. Equimoses, edema, sensibilidade, peso nas pernas, fadiga e dor tendem a ser mais persistentes. E durante períodos de piora, edema e pressão/tensão podem ser os primeiros sinais a retornar. A mensagem mais importante é: tratamento do lipedema não deve ser avaliado por uma única consulta, um único sintoma ou pelo número da balança. Ele deve ser acompanhado ao longo do tempo, avaliando tendência, função, sintomas e qualidade de vida.”  – Aponta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

No lipedema, melhorar não significa necessariamente que tudo desapareça ao mesmo tempo. Muitas vezes, significa perceber que o corpo está melhorando em uma ordem própria — e respeitar o tempo biológico dessa recuperação.

Referência: Amato ACM, Amato JLS, Benitti DA. Order of resolution and recurrence of inflammatory symptoms in lipedema: a longitudinal study of 1,300 patients. J Vasc Bras. 2026;25.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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Inimigo dos seus músculos

Uma alimentação rica em alimentos ultraprocessados pode estar associada a alterações pouco saudáveis dentro dos músculos da coxa, segundo um estudo realizado com pessoas em risco para osteoartrite do joelho.

Os pesquisadores observaram que participantes que consumiam mais ultraprocessados apresentavam maior quantidade de gordura infiltrada nos músculos das coxas, mesmo após considerar fatores como ingestão total de calorias e gorduras, atividade física e características sociodemográficas.

O estudo foi publicado na revista Radiology, da Radiological Society of North America (RSNA). Esse maior acúmulo de gordura intramuscular pode estar relacionado a um risco aumentado de desenvolver osteoartrite do joelho.

Os alimentos ultraprocessados costumam ser produzidos para serem práticos, altamente palatáveis e duráveis. Em geral, combinam açúcar, gordura, sal e carboidratos de forma capaz de estimular intensamente os sistemas cerebrais de recompensa, o que pode favorecer consumo excessivo.

Entre os exemplos estão cereais matinais industrializados, margarinas e cremes vegetais, salgadinhos de pacote, salsichas e outros embutidos, refrigerantes e energéticos, doces, sobremesas, pizzas congeladas, refeições prontas, pães e produtos de panificação produzidos em larga escala. Esses alimentos também costumam conter diversos ingredientes sintetizados e aditivos industriais.

Segundo Zehra Akkaya, médica e pesquisadora da Universidade da Califórnia em São Francisco e autora principal do estudo, nas últimas décadas o aumento da obesidade e da osteoartrite do joelho ocorreu paralelamente à redução do consumo de ingredientes naturais e ao crescimento da presença de produtos industrializados, artificialmente aromatizados, coloridos e quimicamente modificados na alimentação.

O objetivo dos pesquisadores foi justamente avaliar se o maior consumo de ultraprocessados estaria relacionado a maior quantidade de gordura armazenada dentro dos músculos da coxa.

Avaliando pessoas em risco para osteoartrite do joelho

Foram analisados dados de 615 participantes do Osteoarthritis Initiative, um grande programa de pesquisa financiado pelos National Institutes of Health dos Estados Unidos.

Todos os participantes incluídos não apresentavam sinais de osteoartrite nos exames de imagem no momento da análise.

A amostra era composta por 275 homens e 340 mulheres, com idade média de 60 anos. O IMC médio era 27 kg/m², valor compatível com sobrepeso.

Com base em questionários alimentares referentes ao ano anterior, aproximadamente 41% dos alimentos consumidos pelos participantes eram classificados como ultraprocessados.

Quanto mais ultraprocessados, mais gordura dentro do músculo

Os pesquisadores encontraram uma associação clara entre o consumo de ultraprocessados e a quantidade de gordura presente nos músculos da coxa.

Quanto maior o consumo relatado desses alimentos, maior a infiltração de gordura intramuscular observada nos exames de ressonância magnética, independentemente da quantidade total de calorias ingeridas.

Na ressonância, essa alteração aparece como uma degeneração gordurosa do músculo. Em vez de o tecido ser predominantemente formado por fibras musculares, surgem faixas e áreas de gordura entre essas fibras.

Um ponto interessante é que os exames utilizados eram ressonâncias magnéticas convencionais, sem necessidade de contraste ou de tecnologia sofisticada. Isso torna a avaliação relativamente acessível e potencialmente aplicável em pesquisas futuras e na prática clínica.

Esses achados reforçam a ideia de que a qualidade da alimentação pode modificar a composição corporal de maneiras que não aparecem apenas na balança ou na contagem de calorias.

Qualidade da dieta importa além das calorias

A principal mensagem do estudo é que não basta olhar apenas para peso corporal e ingestão energética.

A qualidade da dieta também parece influenciar diretamente a qualidade muscular.

Isso é especialmente relevante no contexto da osteoartrite do joelho, condição fortemente relacionada à obesidade e ao estilo de vida.

A perda de peso continua sendo uma estratégia fundamental no tratamento e prevenção da osteoartrite, mas os autores destacam que programas de emagrecimento não deveriam considerar apenas restrição calórica e exercício.

Também importa de onde vêm essas calorias.

“Uma pessoa pode até manter a mesma ingestão calórica, mas consumir grande parte dela por meio de alimentos ultraprocessados e, ainda assim, apresentar pior qualidade muscular. Por isso, além de controlar o peso, reduzir ultraprocessados e priorizar alimentos minimamente processados pode ajudar a preservar a saúde muscular e, potencialmente, diminuir parte do risco relacionado à osteoartrite do joelho. Seu músculo não responde apenas à quantidade de comida que você consome. Ele também responde à qualidade dessa comida.”  – Aconselha o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

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Dormir com luz acesa pode fazer mal ao coração?

A exposição à luz durante a noite tornou-se praticamente inevitável. Televisores, celulares, luminárias, relógios digitais e iluminação externa podem manter o quarto parcialmente iluminado mesmo enquanto dormimos. Um novo estudo sugere que esse hábito pode estar relacionado a alterações na estrutura do coração e ao aumento do risco cardiovascular.

Publicado em 2026 no European Heart Journal, o trabalho avaliou participantes do UK Biobank que utilizaram no pulso, durante sete dias, um sensor capaz de medir individualmente a exposição à luz. Os pesquisadores consideraram como exposição noturna a presença de luminosidade acima de 3 lux durante o período de cinco horas de menor atividade de cada participante.

Três lux representam uma luminosidade relativamente baixa. Portanto, não é necessário dormir com uma lâmpada forte acesa para que o organismo perceba a presença de luz no ambiente.

O que aconteceu com o coração?

A análise principal incluiu aproximadamente 11 mil pessoas que, cerca de três anos depois da avaliação da luminosidade, realizaram uma ressonância magnética cardíaca.

Quando comparadas às pessoas sem exposição noturna acima de 3 lux, aquelas com maior exposição apresentaram sinais de remodelamento cardíaco desfavorável, como:

  • aumento da massa e da espessura das paredes do ventrículo esquerdo;
  • redução da capacidade de contração do músculo cardíaco;
  • piora de parâmetros sensíveis da deformação do miocárdio;
  • dilatação do ventrículo direito;
  • aumento do átrio esquerdo e redução de sua função.

As diferenças individuais foram relativamente pequenas, mas apresentaram uma relação linear: quanto maior a exposição à luz durante a noite, mais desfavoráveis eram alguns dos parâmetros cardíacos.

Essas alterações eram subclínicas, ou seja, não significavam necessariamente a presença imediata de uma doença ou de sintomas. Entretanto, podem representar mudanças precoces associadas ao desenvolvimento futuro de problemas cardiovasculares.

Maior risco de doenças cardiovasculares

Em uma análise com mais de 73 mil participantes acompanhados por aproximadamente oito a dez anos, a maior exposição noturna à luz esteve associada a:

  • risco 29% maior de insuficiência cardíaca;
  • risco 15% maior de fibrilação atrial;
  • risco 24% maior de infarto;
  • risco 33% maior de acidente vascular cerebral;
  • risco 26% maior de morte cardiovascular.

Essas associações permaneceram presentes mesmo depois de ajustes para idade, sexo, índice de massa corporal, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, alimentação, hipertensão, diabetes, colesterol, doenças renais, poluição e outros fatores.

Qual seria a explicação?

A luz é um dos principais reguladores do relógio biológico. A exposição noturna pode reduzir a produção de melatonina, atrasar o início do sono e provocar desalinhamento do ritmo circadiano.

No estudo, as pessoas com maior exposição à luz dormiam, em média, menos. A menor duração do sono explicou estatisticamente entre 24% e 49% de várias associações encontradas entre luminosidade e alterações cardíacas.

No entanto, dormir menos provavelmente não é o único mecanismo. A desorganização do ritmo circadiano também pode aumentar a atividade do sistema nervoso simpático, alterar o controle da pressão arterial, favorecer inflamação, estresse oxidativo e disfunção dos vasos sanguíneos.

O estudo prova que a luz causa doenças cardíacas?

Não. Este foi um estudo observacional e, por isso, consegue identificar associações, mas não comprovar uma relação direta de causa e efeito.

A exposição à luz foi medida durante apenas uma semana e os sensores não registraram o comprimento de onda da iluminação. Além disso, a maioria dos participantes era branca e apresentava condições de saúde melhores do que a população geral. Trabalhadores noturnos também foram excluídos.

Embora os pesquisadores tenham realizado diversos ajustes estatísticos, ainda podem existir fatores não medidos que expliquem parte dos resultados.

Portanto, não devemos interpretar que qualquer luz durante uma única noite provocará uma doença cardiovascular. O estudo avalia padrões habituais de exposição e seus possíveis efeitos acumulados.

Como proteger o sono e o coração?

“Reduzir a luminosidade noturna é uma atitude simples, de baixo custo e potencialmente benéfica. Algumas medidas podem ajudar: desligar televisão e luzes antes de dormir; diminuir o brilho e evitar o uso do celular próximo ao horário de sono; utilizar cortinas que bloqueiem a iluminação externa; retirar ou cobrir aparelhos com LEDs intensos; manter o quarto o mais escuro possível; utilizar luz fraca e direcionada caso seja necessário levantar durante a noite; procurar manter horários regulares e duração adequada do sono. Esse efeito provavelmente é maior nas mulheres por isso o cuidado deve ser ainda maior, principalmente nas mulheres com lipedema.” – Alerta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Ainda não sabemos se escurecer o quarto, isoladamente, reduz diretamente o número de infartos ou casos de insuficiência cardíaca. Entretanto, os resultados reforçam que a escuridão noturna e o sono adequado fazem parte de um estilo de vida favorável à saúde cardiovascular.

Cuidar do coração não envolve apenas alimentação, exercício, pressão arterial e colesterol. A qualidade do ambiente em que dormimos também pode ser importante.

Referência: Dai J, Dai W, Heianza Y, Qi L. Nighttime light exposure and cardiac structure and function. European Heart Journal. 2026. doi:10.1093/eurheartj/ehag563.

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 🚨 LIPEDEMA: CUIDADO COM OS ATALHOS

Receber o diagnóstico de lipedema pode trazer alívio, mas também deixa muitas pacientes vulneráveis a promessas de resultados rápidos.

A ciência ainda possui limitações importantes. Uma análise de 7.582 recomendações de diretrizes médicas mostrou que apenas 10% eram sustentadas por evidência forte. Outro estudo, avaliando diretrizes cirúrgicas, encontrou evidência de alta qualidade em somente 10,1% das recomendações.

Isso não significa que todas as recomendações sejam erradas. Significa que ainda existem incertezas — e que elas precisam ser apresentadas com honestidade.

O problema começa quando essa falta de respostas é preenchida por tratamentos vendidos como certezas.

Tirzepatida pode ser indicada para obesidade ou diabetes em pacientes selecionadas, mas não deve ser apresentada como um tratamento específico e comprovado para o lipedema. O mesmo cuidado vale para bloqueios hormonais com gestrinona, terapias endovenosas, “soros” e outros protocolos oferecidos sem evidência clínica adequada para essa finalidade.

Antes de aceitar um tratamento, pergunte:

• Qual é o objetivo real: tratar obesidade, controlar sintomas ou tratar o lipedema?

• Existe evidência específica para pessoas com lipedema?

• O tratamento é aprovado para essa finalidade ou está sendo utilizado fora da indicação prevista?

• Quais são os riscos, custos, alternativas e resultados esperados?

• Como a resposta será medida e quando a estratégia será reavaliada?

• Existe espaço para uma segunda opinião?

A experiência com a endometriose mostra por que isso é importante. Um programa que revisava as indicações cirúrgicas com critérios científicos e avaliação especializada aumentou a adequação das cirurgias de 75,7% para 97,9% e reduziu em 22,2% o número de operações para endometriose.

Mais tratamento nem sempre significa melhor tratamento.

Um bom profissional não promete cura, não oferece o mesmo pacote para todas as pacientes e não esconde as limitações da ciência. Ele investiga outros diagnósticos, explica o que sabemos e o que ainda não sabemos, define objetivos possíveis e acompanha os resultados.

O tratamento do lipedema costuma ser individualizado, progressivo e provavelmente longo. Pode envolver hábitos de vida, atividade física, controle do peso quando indicado, medidas para aliviar os sintomas e, em pacientes selecionadas, procedimentos específicos.

Sem milagres. Sem atalhos. Com ciência, acompanhamento e honestidade.

📚 Referências:

Qureshi R et al. Level of Evidence and Strength of Recommendations in US Medical Society Clinical Practice Guidelines, 2019–2023. Journal of General Internal Medicine.

Abbasi AB et al. The Quality of Evidence Supporting Clinical Practice Guidelines in General Surgery: A Meta-Analysis. JAMA Surgery. 2025.

Conte de Oliveira G et al. Impact of a quality programme on overindication of surgeries for endometriosis and cholecystectomies. BMJ Open Quality. 2023.

 

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Exercício não serve apenas para gastar calorias

Um estudo publicado em 2026 na Cell Reports Medicine mostrou que a intensidade do exercício modifica profundamente a comunicação entre os órgãos.

Os pesquisadores compararam exercício moderado com sprint intervalado de alta intensidade e analisaram proteínas, metabólitos e respostas de diferentes tecidos.

No protocolo de sprint, formado por 6 tiros de 30 segundos, cerca de 714 proteínas mudaram imediatamente após o exercício. Isso correspondeu a aproximadamente 25% das proteínas avaliadas. No exercício moderado, apenas 7 proteínas mudaram de forma imediata.

O metaboloma também respondeu de maneira diferente. Após o exercício intenso, 203 metabólitos se modificaram logo após a sessão, incluindo lactato, piruvato, malato e Lac-Phe. No exercício moderado, a resposta foi menor inicialmente e mais tardia.

O músculo funciona como um órgão endócrino

Uma das principais mensagens do estudo é que o músculo não serve apenas para gerar força e movimento.

Durante o exercício, ele libera proteínas e outros sinais que podem conversar com:

  • tecido adiposo;
  • fígado;
  • cérebro;
  • sistema imune;
  • vasos sanguíneos.

E a intensidade do exercício muda essa comunicação.

O tecido adiposo também responde

“ Os pesquisadores colocaram plasma coletado após o exercício em contato com adipócitos humanos. O plasma pós-sprint provocou uma grande mudança na expressão genética dessas células: 1.128 genes aumentaram e 549 diminuíram. Já o plasma após exercício moderado produziu alterações muito menores. Isso mostra que o exercício pode alterar temporariamente o funcionamento do tecido adiposo, e não apenas aumentar o gasto calórico. Podemos pensar no exercício intenso como uma forma de ajudar no tratamento do lipedema.”  – Informa o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Relação com saúde metabólica

Os autores também cruzaram as proteínas modificadas pelo exercício com dados de 53.026 pessoas do UK Biobank.

Foram identificadas 143 proteínas associadas a menor risco de diferentes grupos de doenças, e a maioria delas havia sido estimulada pelo exercício intenso.

Quando analisaram especificamente obesidade, diabetes tipo 2 e doenças metabólicas, 32 de 33 proteínas associadas a menor risco foram modificadas pelo protocolo de sprint.

Mas isso não significa que essas proteínas sejam necessariamente responsáveis pela proteção, nem que exercício intenso seja superior para todas as pessoas.

A principal mensagem

O estudo foi pequeno e predominantemente masculino, portanto seus resultados precisam ser confirmados em populações maiores.

Mesmo assim, ele reforça um conceito importante:

exercício não é apenas uma forma de gastar calorias. É um estímulo molecular capaz de mudar, em poucos minutos, a maneira como diferentes órgãos se comunicam.

E a intensidade parece modificar profundamente essa mensagem.

Por isso, talvez seja mais adequado pensar em exercício não apenas como “queima de energia”, mas como uma verdadeira intervenção metabólica sistêmica.

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As 3 piores escolhas de 2026

Nem toda escolha ruim parece ruim no começo. Algumas chegam disfarçadas de oportunidade, praticidade ou prazer imediato. O problema aparece depois, quando percebemos que investimos dinheiro, saúde ou tempo em algo que oferece um retorno negativo.

Em 2026, três escolhas merecem atenção especial: apostar dinheiro nas chamadas bets, emagrecer sem praticar atividade física e passar mais de duas horas por dia no celular para fins recreativos.

1. Apostar nas bets como forma de ganhar dinheiro

As apostas esportivas são apresentadas como diversão, desafio ou oportunidade de lucro. Entretanto, apostar não é investir: não existe aquisição de um ativo produtivo, geração de renda ou construção de patrimônio. Existe apenas a tentativa de prever um resultado dentro de um sistema matematicamente organizado para favorecer a casa de apostas no conjunto das operações.

Uma revisão sistemática sobre apostas esportivas, que reuniu 54 estudos, identificou associação entre essa prática e problemas relacionados ao jogo, impulsividade e coexistência de outros comportamentos aditivos. Os próprios autores ressaltam que boa parte das pesquisas disponíveis é transversal, o que exige cautela ao estabelecer causalidade, mas o conjunto das evidências aponta para riscos relevantes em grupos vulneráveis.[1]

O prejuízo também não se limita ao dinheiro perdido. Uma revisão sobre os danos relacionados ao jogo aponta consequências financeiras, psicológicas, profissionais, educacionais e familiares. A literatura sugere que o aumento do consumo de apostas — considerando frequência, despesas e perdas — está relacionado ao crescimento dos problemas associados ao jogo.[2]

Quando a situação se agrava, endividamento e vergonha podem dificultar a procura por ajuda. Uma revisão sistemática de estudos qualitativos identificou esses dois fatores como importantes mecanismos na relação entre problemas com apostas e comportamento suicida.[3] Outra metanálise, envolvendo 107 estudos e mais de 4,6 milhões de participantes, encontrou maiores chances de ideação e tentativa de suicídio entre pessoas com problemas relacionados ao jogo. Como os estudos são predominantemente observacionais, a associação não deve ser interpretada isoladamente como prova de causalidade.[4]

Se a intenção é construir patrimônio, investimentos diversificados e compatíveis com o perfil de risco fazem sentido. Apostar para “recuperar” perdas ou gerar renda recorrente não é estratégia financeira: é exposição a um risco que pode crescer rapidamente.

2. Emagrecer sem atividade física

A segunda escolha ruim é buscar apenas a redução do número na balança, sem se preocupar com a composição corporal.

Quando uma pessoa emagrece, ela não perde somente gordura. Parte da redução pode ocorrer à custa de massa livre de gordura, cuja principal parcela é o músculo esquelético. Uma revisão publicada em 2026 concluiu que perdas expressivas de peso obtidas por dieta ou medicamentos, sem exercício estruturado, estão associadas a uma proporção de perda de massa livre de gordura maior do que a esperada. Nos estudos com medicamentos baseados em incretinas, aproximadamente 33% a 38% do peso total perdido correspondeu à massa livre de gordura.[5]

Uma revisão sistemática com metanálise de 34 estudos randomizados e 1.455 participantes comparou restrição calórica isolada com restrição calórica acompanhada de exercícios. A inclusão de atividade física preservou, em média, 0,87 kg adicionais de massa livre de gordura e evitou aproximadamente 46% da perda desse tecido. Os melhores resultados apareceram nas intervenções que incluíram treinamento de força ou a combinação de força e atividade aeróbica.[6]

O objetivo, portanto, não deve ser simplesmente “pesar menos”. Deve ser reduzir gordura preservando músculos, força, autonomia e capacidade funcional. Isso exige alimentação adequada, ingestão proteica individualizada e treinamento resistido, respeitando as condições clínicas de cada pessoa.

Medicamentos para obesidade podem ser excelentes ferramentas quando corretamente indicados, mas não substituem o movimento. A balança mostra quanto o corpo pesa; ela não revela, sozinha, o que foi perdido.

3. Passar mais de duas horas por dia no celular

O celular é uma ferramenta extraordinária. O problema começa quando deixa de servir ao usuário e passa a consumir automaticamente seu tempo, sua atenção e seu sono.

Duas horas não representam uma fronteira biológica universal entre uso saudável e prejudicial. O impacto depende da finalidade, do conteúdo, do horário e da pessoa. Ainda assim, esse limite funciona como uma referência prática para o uso recreativo. Em um ensaio clínico randomizado com 111 estudantes, reduzir o uso do smartphone para no máximo duas horas diárias durante três semanas produziu melhoras pequenas a moderadas no bem-estar, nos sintomas depressivos, no estresse e na qualidade do sono. Após o término da intervenção, porém, o tempo de tela voltou a crescer rapidamente, mostrando como é difícil sustentar a mudança.[7]

Uma metanálise de 21 estudos de coorte, com 548.338 participantes, encontrou associação entre maior tempo de tela e piores desfechos do sono. Cada hora adicional esteve relacionada a uma redução aproximada de três a cinco minutos na duração total do sono, além de maior risco de sono curto, sintomas de insônia e dificuldade para iniciar o sono. Por serem predominantemente dados observacionais, os resultados indicam associação, não que o celular seja necessariamente a única causa desses problemas.[8]

Outra metanálise de estudos de coorte, reunindo 241.398 participantes, identificou uma associação modesta entre maior tempo de tela e risco posterior de sintomas depressivos. O efeito variou conforme idade, sexo, localização e duração da exposição.[9]

A solução não precisa ser abandonar o celular. Pode começar com medidas simples: retirar notificações desnecessárias, evitar o aparelho durante refeições, estabelecer horários sem tela, não levá-lo para a cama e substituir parte do consumo passivo por exercício, leitura, conversas e sono.

A escolha que realmente vale a pena

As três piores escolhas de 2026 têm algo em comum: oferecem recompensa imediata e cobram a conta depois.

A aposta promete dinheiro rápido. O emagrecimento sem exercício promete um corpo mais leve sem preservar necessariamente sua força. O celular promete entretenimento infinito enquanto fragmenta tempo e atenção.

A alternativa é menos espetacular, mas oferece retorno real: construir patrimônio com planejamento, emagrecer preservando músculos e usar a tecnologia de maneira intencional.

Em 2026, talvez o melhor investimento não seja descobrir uma fórmula nova. Talvez seja proteger três recursos que continuam insubstituíveis: seu dinheiro, seu corpo e seu tempo.

Referências

  1. López-González H. et al. Clinical Correlates of Sports Betting: A Systematic Review. Journal of Gambling Studies, 2023. PubMed PMID: 37004597
  2. Kesaite V, Wardle H, Rossow I. Gambling consumption and harm: a systematic review of the evidence. Addiction Research & Theory, 2024. PubMed PMID: 38774110
  3. Marionneau V, Nikkinen J. Gambling-related suicides and suicidality: A systematic review of qualitative evidence. Frontiers in Psychiatry, 2022. PubMed PMID: 36387006
  4. Kristensen JH et al. Suicidality among individuals with gambling problems: A meta-analytic literature review. Psychological Bulletin, 2024. PubMed PMID: 38095933
  5. Bosy-Westphal A. et al. Defining Healthy Weight Loss and Target Weight in the Era of Highly Effective Treatment of Patients With Obesity. Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle, 2026. PubMed PMID: 42455525
  6. Deller M, Weiershaus J, Held S, Brinkmann C. Effects of Calorie Restriction With and Without Strength, Endurance or Mixed Training on Fat-Free and Skeletal Muscle Mass in Overweight or Obese Individuals: A Systematic Review With Pairwise Meta-Analysis and Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Studies. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026. PubMed PMID: 42144246
  7. Pieh C. et al. Smartphone screen time reduction improves mental health: a randomized controlled trial. BMC Medicine, 2025. PubMed PMID: 39985031
  8. He Q. et al. The association of screen time and the risk of sleep outcomes: a systematic review and meta-analysis. 2025. PubMed PMID: 41480345
  9. Wang X. et al. Screen time and depression risk: A meta-analysis of cohort studies. Frontiers in Psychiatry, 2022. PubMed PMID: 36620668
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