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Alimentação e saúde mental na adolescência: o que frutas e bebidas açucaradas têm a ver com essa história?

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Quando pensamos em saúde mental na adolescência, costumamos lembrar das relações familiares, da escola, das amizades e das redes sociais. Mas a alimentação também merece espaço nessa conversa.

Um estudo publicado em 2026 na revista Child and Adolescent Mental Health acompanhou milhares de adolescentes australianos durante três anos. Os resultados apontam uma associação entre o consumo de frutas, a ingestão de bebidas açucaradas e o aparecimento de sintomas relevantes de depressão e ansiedade.

A pesquisa traz informações úteis, mas exige cuidado na interpretação: encontrar uma associação não significa provar que um alimento causa ou evita um transtorno mental.

Como o estudo foi realizado?

Os pesquisadores analisaram dados de 6.537 adolescentes, com idade média de 12,6 anos no início do acompanhamento. Durante três anos, os participantes responderam a questionários sobre alimentação e sintomas de saúde mental.

Foram avaliados três componentes da alimentação: frutas, verduras e legumes, e bebidas açucaradas, como refrigerantes, refrescos e bebidas esportivas.

Para investigar o aparecimento de sintomas, cada análise excluiu os participantes que já apresentavam, no início, pontuações acima do limite estabelecido para o desfecho estudado. Os resultados foram ajustados para fatores como idade, sexo, condição socioeconômica e atividade física.

É importante destacar que os questionários identificaram sintomas acima de determinados pontos de corte. Isso não equivale a um diagnóstico clínico de depressão ou de transtorno de ansiedade.

Mais frutas, menor risco observado

Na análise principal, cada porção diária adicional de frutas esteve associada a:

  • Risco relativo de 0,87 para sintomas depressivos: uma redução relativa de 13% no risco de atingir o ponto de corte, com intervalo de confiança de 95% entre 0,82 e 0,93.
  • Risco relativo de 0,93 para sintomas de ansiedade: uma redução relativa de 7%, com intervalo de confiança de 95% entre 0,87 e 0,99.

O risco relativo, ou RR, compara riscos: valores abaixo de 1 indicam menor risco; valores acima de 1 indicam maior risco, dentro da comparação analisada.

Esses resultados não significam que acrescentar uma fruta à alimentação garantirá determinada proteção individual. Além disso, a associação entre frutas e ansiedade foi menos consistente: deixou de ser estatisticamente significativa quando foram analisados apenas os participantes com dados completos.

Bebidas açucaradas: o que apareceu entre meninos e meninas?

A associação mais consistente do estudo foi entre maior consumo de bebidas açucaradas e maior risco de atingir os pontos de corte para sintomas de depressão e ansiedade.

As estimativas de risco relativo ajustado foram:

DesfechoMeninos — RR (IC 95%)Meninas — RR (IC 95%)
Depressão3,25 (2,02–5,23)3,10 (2,06–4,68)
Ansiedade5,50 (3,39–8,90)2,04 (1,23–3,37)

Para sintomas depressivos, as estimativas tiveram magnitude semelhante entre meninos e meninas. Para ansiedade, o RR foi numericamente maior entre os meninos. Essa comparação, isoladamente, porém, não comprova uma diferença entre os sexos.

Há um detalhe fundamental para compreender esses números: o consumo das bebidas foi analisado em escala logarítmica. Assim, os riscos relativos apresentados correspondem a um aumento de uma unidade nessa escala transformada. Eles não representam o risco a cada copo adicional nem uma comparação direta entre quem consome e quem não consome essas bebidas.

Por isso, seria incorreto afirmar, por exemplo, que “um copo de refrigerante aumenta em 5,5 vezes o risco de ansiedade nos meninos”.

O que os dados mostram é uma associação entre maior consumo e maior risco de sintomas ao longo do acompanhamento. Não demonstram que uma bebida isolada provoque depressão ou ansiedade.

E as verduras e os legumes?

Após os ajustes estatísticos, o estudo não encontrou associação significativa entre o consumo de verduras e legumes e os desfechos avaliados.

Isso não significa que esses alimentos sejam dispensáveis. Significa apenas que, com as medidas e análises utilizadas, a pesquisa não identificou uma associação suficientemente clara com os sintomas estudados.

O que ainda precisamos considerar?

Apesar do acompanhamento ao longo de três anos, essa análise foi observacional. Os pesquisadores não testaram se aumentar o consumo de frutas ou reduzir bebidas açucaradas evitaria o aparecimento de sintomas.

A alimentação foi informada pelos próprios adolescentes, o que pode gerar imprecisões. Também não foram avaliados todos os componentes da dieta ou fatores como histórico de saúde mental dos pais e padrões alimentares familiares.

Além disso, a amostra tinha maior representação de adolescentes de famílias com melhores condições socioeconômicas. Portanto, aplicar esses resultados a outras populações exige cuidado.

Como levar essa conversa para o cotidiano?

Os achados reforçam a importância de incluir a alimentação nas conversas sobre saúde mental na adolescência. Tornar frutas mais acessíveis e repensar a presença frequente de bebidas açucaradas são possibilidades para discutir em família, sem transformar as refeições em fonte de cobrança ou culpa.

A pesquisa não permite prometer que essas mudanças prevenirão depressão ou ansiedade. Ela indica que hábitos alimentares merecem atenção dentro de um cuidado mais amplo.

O sofrimento emocional de um adolescente não deve ser atribuído apenas ao que ele come ou bebe. Escuta, acolhimento e acesso a avaliação profissional continuam sendo essenciais quando há sintomas que preocupam ou prejudicam o cotidiano.

Referência: Davidson, L. e colaboradores. Longitudinal associations between dietary intake and common mental disorders among adolescents in Australia. Child and Adolescent Mental Health, 2026. DOI: 10.1111/camh.70129.

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