
Receber o diagnóstico de lipedema pode trazer alívio, mas também deixa muitas pacientes vulneráveis a promessas de resultados rápidos.
A ciência ainda possui limitações importantes. Uma análise de 7.582 recomendações de diretrizes médicas mostrou que apenas 10% eram sustentadas por evidência forte. Outro estudo, avaliando diretrizes cirúrgicas, encontrou evidência de alta qualidade em somente 10,1% das recomendações.
Isso não significa que todas as recomendações sejam erradas. Significa que ainda existem incertezas — e que elas precisam ser apresentadas com honestidade.
O problema começa quando essa falta de respostas é preenchida por tratamentos vendidos como certezas.
Tirzepatida pode ser indicada para obesidade ou diabetes em pacientes selecionadas, mas não deve ser apresentada como um tratamento específico e comprovado para o lipedema. O mesmo cuidado vale para bloqueios hormonais com gestrinona, terapias endovenosas, “soros” e outros protocolos oferecidos sem evidência clínica adequada para essa finalidade.
Antes de aceitar um tratamento, pergunte:
• Qual é o objetivo real: tratar obesidade, controlar sintomas ou tratar o lipedema?
• Existe evidência específica para pessoas com lipedema?
• O tratamento é aprovado para essa finalidade ou está sendo utilizado fora da indicação prevista?
• Quais são os riscos, custos, alternativas e resultados esperados?
• Como a resposta será medida e quando a estratégia será reavaliada?
• Existe espaço para uma segunda opinião?
A experiência com a endometriose mostra por que isso é importante. Um programa que revisava as indicações cirúrgicas com critérios científicos e avaliação especializada aumentou a adequação das cirurgias de 75,7% para 97,9% e reduziu em 22,2% o número de operações para endometriose.
Mais tratamento nem sempre significa melhor tratamento.
Um bom profissional não promete cura, não oferece o mesmo pacote para todas as pacientes e não esconde as limitações da ciência. Ele investiga outros diagnósticos, explica o que sabemos e o que ainda não sabemos, define objetivos possíveis e acompanha os resultados.
O tratamento do lipedema costuma ser individualizado, progressivo e provavelmente longo. Pode envolver hábitos de vida, atividade física, controle do peso quando indicado, medidas para aliviar os sintomas e, em pacientes selecionadas, procedimentos específicos.
Sem milagres. Sem atalhos. Com ciência, acompanhamento e honestidade.
Referências:
Qureshi R et al. Level of Evidence and Strength of Recommendations in US Medical Society Clinical Practice Guidelines, 2019–2023. Journal of General Internal Medicine.
Abbasi AB et al. The Quality of Evidence Supporting Clinical Practice Guidelines in General Surgery: A Meta-Analysis. JAMA Surgery. 2025.
Conte de Oliveira G et al. Impact of a quality programme on overindication of surgeries for endometriosis and cholecystectomies. BMJ Open Quality. 2023.
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