Close-up, alarm clock on a blurred food background.

Comer em horários muito diferentes durante a semana pode aumentar o risco cardiovascular?

Durante muito tempo, quando falávamos em alimentação saudável, a maior parte da discussão girava em torno de duas perguntas:

o que comer?  e quanto comer?

 

Nos últimos anos, porém, uma terceira pergunta ganhou espaço:

quando comer?

Um estudo publicado em 2026 na Communications Medicine, utilizando dados da grande coorte francesa NutriNet-Santé, avaliou justamente isso. Os pesquisadores investigaram se a diferença entre os horários das refeições nos dias úteis e nos fins de semana — o chamado “eating jetlag” — poderia estar relacionada ao risco cardiovascular.

O que é eating jetlag?

O conceito é parecido com o conhecido social jetlag, que ocorre quando uma pessoa dorme e acorda em horários muito diferentes durante a semana e no fim de semana.

No eating jetlag, a diferença está nos horários da alimentação.

Imagine alguém que, de segunda a sexta, faz a primeira refeição às 7h e termina de comer por volta das 19h, mas aos sábados e domingos começa a comer às 10h e termina às 22h.

Mesmo que a qualidade da alimentação seja semelhante, o organismo está recebendo alimento em horários bastante diferentes.

Os pesquisadores calcularam o ponto médio da janela alimentar entre a primeira e a última ingestão do dia e compararam esse horário entre dias úteis e fins de semana. Quanto maior a diferença, maior o eating jetlag.

Mais de 100 mil pessoas acompanhadas

O estudo analisou 104.806 adultos, sendo 79% mulheres, com idade média de 42,7 anos.

Os participantes foram acompanhados por uma mediana de 8,1 anos, totalizando mais de 814 mil pessoas-ano de acompanhamento.

Durante esse período ocorreram:

  • 2.368 eventos cardiovasculares;
  • 1.270 eventos coronarianos;
  • 1.098 eventos cerebrovasculares.

A alimentação foi avaliada por registros de 24 horas repetidos, com informação detalhada sobre alimentos, quantidades e horários das refeições. Em média, cada participante forneceu 5,8 registros alimentares.

O principal resultado apareceu nos homens

Na população masculina, cada 1 hora adicional de eating jetlag esteve associada a aproximadamente:

14% maior risco de doença cardiovascular
e
21% maior risco de doença coronariana.

Essas associações permaneceram mesmo depois de ajustes para diversos fatores, incluindo IMC, ingestão energética, qualidade da dieta, atividade física, tabagismo, álcool e horários médios das refeições.

Quando os pesquisadores incluíram também informações sobre horário de dormir e duração do sono, o resultado continuou presente nos homens.

Nas mulheres, porém, não foi identificada associação estatisticamente significativa entre eating jetlag e eventos cardiovasculares.

Isso é importante: o estudo não demonstra que o fenômeno tenha o mesmo impacto em homens e mulheres.

Não foi apenas comer mais tarde

Um dos aspectos mais interessantes foi que o risco não pareceu depender apenas de atrasar as refeições no fim de semana.

Os participantes foram classificados em três grupos:

Maintenance: diferença de até 1 hora entre dias úteis e fins de semana;

Advance: refeições mais de 1 hora mais cedo no fim de semana;

Delay: refeições mais de 1 hora mais tarde.

Nos homens, em comparação com aqueles que mantinham horários relativamente constantes, o grupo que antecipava as refeições apresentou:

44% maior risco cardiovascular
e
68% maior risco de doença coronariana.

Entre os que atrasavam as refeições, também houve aumento do risco de doença coronariana, de aproximadamente 36%.

Esse resultado sugere que o ponto central talvez não seja simplesmente “comer cedo” ou “comer tarde”.

Pode ser a instabilidade do horário alimentar.

O corpo pode interpretar isso como um pequeno fuso horário semanal

A alimentação funciona como um importante sinalizador temporal para os relógios biológicos periféricos.

Fígado, tecido adiposo, pâncreas, músculo e outros órgãos apresentam ritmos circadianos próprios, que são influenciados pelo horário das refeições.

Quando o horário da alimentação muda repetidamente, pode ocorrer uma espécie de dessincronização entre:

  • sono;
  • luz;
  • atividade;
  • alimentação;
  • relógios periféricos.

O estudo não mediu diretamente esses mecanismos, mas essa é uma das principais hipóteses biológicas discutidas pelos autores.

O resultado não pareceu ser explicado apenas pela qualidade da dieta

Os modelos estatísticos consideraram:

  • padrão alimentar saudável;
  • padrão alimentar ocidental;
  • ingestão energética;
  • IMC;
  • número de refeições;
  • horário médio da primeira refeição;
  • horário médio da última refeição.

Mesmo após esses ajustes, a associação permaneceu nos homens.

Isso sugere que regularidade alimentar pode carregar informação adicional além da qualidade da dieta.

Mas isso não significa que o horário seja mais importante do que aquilo que se come.

O estudo não compara o impacto relativo de eating jetlag com fatores clássicos como:

  • LDL elevado;
  • hipertensão;
  • diabetes;
  • tabagismo;
  • sedentarismo.

Portanto, seria um erro transformar o horário da refeição no principal determinante do risco cardiovascular.

A primeira refeição também chamou atenção

Em uma análise adicional, os pesquisadores dividiram os participantes de acordo com o horário da primeira ingestão do dia.

A mediana era 8h02.

A associação entre eating jetlag e eventos cardiovasculares apareceu principalmente entre aqueles que faziam a primeira refeição mais tarde.

Isso sugere que a combinação de:

alimentação mais tardia + horários irregulares

pode ser particularmente relevante.

Mas essa análise é exploratória. O estudo não permite afirmar que tomar café da manhã antes das 8h seja protetor.

E o sono?

Uma dúvida óbvia seria:

“essas pessoas não estão apenas dormindo em horários diferentes?”

Os pesquisadores tentaram separar os dois fenômenos.

Eles ajustaram os resultados para:

  • horário de dormir;
  • duração total do sono;
  • social jetlag.

As associações nos homens permaneceram.

Eating jetlag e social jetlag estavam relacionados, mas a correlação foi relativamente baixa, de aproximadamente 0,23.

Isso sugere que os dois fenômenos se sobrepõem apenas parcialmente.

Existe um limite de segurança?

A análise de dose-resposta mostrou um possível platô do risco a partir de aproximadamente 1,5 hora de eating jetlag.

Mas isso não deve ser interpretado como um corte clínico.

O estudo tinha poucos participantes com diferenças muito grandes de horário, e os próprios autores reconhecem que isso pode explicar o formato da curva.

Portanto, não existe base para dizer que:

“até 1 hora e 29 minutos é seguro.”

O conceito é muito mais simples:

quanto mais regular o padrão alimentar, menor tende a ser a dessincronização temporal.

secundários.

O que podemos levar para a prática?

“Este grande estudo prospectivo sugere que maior diferença no horário das refeições entre dias úteis e fins de semana está associada a maior risco cardiovascular e coronariano, principalmente em homens. Ainda não podemos afirmar que tornar os horários mais regulares previna infarto ou outras doenças cardiovasculares. Para isso, seriam necessários estudos de intervenção. Mas o artigo reforça um conceito cada vez mais relevante na medicina metabólica: não importa apenas o que você come. O organismo também percebe quando você come. E talvez exista uma terceira dimensão que estamos começando a compreender melhor: a previsibilidade com que você alimenta o seu relógio biológico.” – Analisa o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

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Câncer e demência assustam. Mas quase ninguém tem medo do estresse crônico.

Quando pensamos nas doenças que mais assustam as pessoas, duas aparecem com frequência: câncer e demência.

Tememos perder a saúde, a autonomia, a memória e a própria identidade.

Por isso fazemos exames, rastreamentos e buscamos conhecer nossos riscos genéticos.

Mas existe um fator presente diariamente na vida de milhões de pessoas e que raramente recebe a mesma atenção: o estresse crônico.

Não estou falando do estresse pontual, que faz parte da fisiologia normal. O problema é viver semanas, meses ou anos em estado permanente de alerta.

O cérebro sente essa sobrecarga

Um estudo do Framingham Heart Study, com mais de 2.200 adultos sem demência e idade média de 48,5 anos, encontrou que níveis mais altos de cortisol estavam associados a pior memória, pior percepção visual, menor volume cerebral e alterações na substância branca.

E houve um achado particularmente importante nas mulheres: cortisol mais elevado esteve associado a menor volume cerebral total no sexo feminino, associação que não apareceu nos homens.

Isso não significa que cortisol cause demência. O próprio estudo foi transversal e não permite estabelecer causalidade.

Além disso, outro estudo longitudinal de 10 anos mostrou que a relação entre cortisol e cognição é complexa: em determinadas análises, níveis mais altos de cortisol ao longo do dia se associaram a melhor desempenho cognitivo posterior, sugerindo que uma resposta dinâmica ao estresse pode ser fisiológica e adaptativa.

O problema, portanto, não é o cortisol em si. É a desregulação crônica do sistema de estresse.

E o câncer?

Também seria incorreto afirmar que “estresse causa câncer”.

Mas uma revisão publicada em 2026 mostrou que o estresse crônico pode participar de processos biologicamente relevantes para o desenvolvimento e progressão tumoral, incluindo:

  • inflamação persistente;
  • redução da vigilância imunológica;
  • ativação β-adrenérgica;
  • alterações celulares relacionadas ao dano e reparo do DNA.

A evidência epidemiológica ainda é heterogênea. Algumas análises mostram associação entre eventos de vida estressantes e câncer de mama, enquanto outras não encontram relação consistente.

Ou seja: existe plausibilidade biológica, mas não uma relação simples de causa e efeito.

Mulheres com BRCA merecem atenção especial

Um estudo publicado no British Journal of Cancer avaliou mulheres portadoras de mutações BRCA1/2.

Nos experimentos celulares, o cortisol aumentou dano ao DNA e pareceu interferir no processo de reparação. Em células com deficiência de BRCA, parte desse dano persistiu por mais tempo.

Na análise clínica, mulheres portadoras de BRCA1/2 com níveis persistentemente mais altos de cortisol apresentaram maior incidência de câncer de mama. Em uma das análises, o risco foi cerca de 2,4 vezes maior no grupo acima do limiar estudado.

Mas é importante ressaltar que a amostra era pequena, o estudo era retrospectivo e tinha limitações importantes. Portanto, esse resultado não pode ser extrapolado para todas as mulheres.

A mensagem mais importante

“ Talvez o erro seja tratar o estresse crônico apenas como um problema emocional. Ele conversa com cérebro, imunidade, inflamação, metabolismo, sistema cardiovascular e mecanismos de dano celular. Os estudos não permitem afirmar que estresse cause câncer ou demência. Mas também não parece correto considerá-lo biologicamente irrelevante. Por isso, sono adequado, atividade física, vínculos sociais, tempo de recuperação e cuidado com a saúde mental não deveriam ser vistos como luxo. As pessoas fazem check-ups mas esquecem de se perguntar o que estão fazendo para que o seu organismo não viva permanentemente em estado de ameaça?” – Finaliza o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

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Depois dos 65 anos, sua capacidade física pode dizer mais sobre sua saúde do que os exames de sangue

Quando pensamos em longevidade, geralmente olhamos para exames laboratoriais, diagnósticos, medicamentos e histórico familiar. Todos esses fatores são importantes, mas uma nova pesquisa sugere que também deveríamos fazer perguntas muito mais simples:

Você consegue levantar-se de uma cadeira sem usar os braços?
Por quanto tempo consegue permanecer apoiado em apenas uma perna?
Com que agilidade consegue levantar, caminhar alguns metros e sentar novamente?

As respostas podem revelar algo essencial: a sua reserva funcional, ou seja, a capacidade que o organismo possui para enfrentar doenças, quedas, internações e os desafios naturais do envelhecimento.

Um estudo publicado no JAMA Network Open acompanhou 13.423 adultos com 65 anos ou mais e mostrou que melhor equilíbrio, agilidade, força muscular e condicionamento cardiorrespiratório estavam associados a uma menor mortalidade ao longo de sete anos.

Não basta ser ativo: é preciso observar o que o corpo consegue fazer

Atividade física e aptidão física não são exatamente a mesma coisa.

A atividade física representa o comportamento: caminhar, treinar, subir escadas, trabalhar no jardim ou praticar algum esporte.

A aptidão física representa a capacidade construída por esses hábitos ao longo da vida: força, equilíbrio, mobilidade, flexibilidade e resistência cardiorrespiratória.

Uma pessoa pode afirmar que se mantém ativa, mas ainda apresentar dificuldade para levantar-se de uma cadeira, caminhar rapidamente ou sustentar o equilíbrio. Por outro lado, testes físicos objetivos mostram o que o organismo realmente consegue executar naquele momento.

Por isso, os pesquisadores quiseram saber se a aptidão física medida de forma objetiva poderia acrescentar informações sobre o risco de morte, mesmo depois de considerar a atividade física relatada, o peso corporal, as condições socioeconômicas e diferentes doenças.

Como o estudo foi realizado?

A pesquisa incluiu 13.423 idosos residentes na comunidade em Taiwan:

  • idade média de 72,9 anos;
  • 62,5% eram mulheres;
  • 32,8% relatavam pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada;
  • acompanhamento mediano de sete anos;
  • 1.631 mortes durante o período, correspondendo a 12,2% dos participantes.

Todos realizaram uma bateria padronizada de sete testes, distribuídos em quatro áreas da aptidão física.

Condicionamento cardiorrespiratório

Foi utilizado o teste de marcha estacionária por dois minutos. O participante elevava alternadamente os joelhos até uma altura individualizada, e o número de movimentos válidos era registrado.

Força muscular

A força dos braços foi avaliada pela quantidade de flexões de cotovelo realizadas em 30 segundos com um peso padronizado.

A força dos membros inferiores foi medida pelo teste de sentar e levantar da cadeira durante 30 segundos, sem apoio dos braços.

Equilíbrio e agilidade

O equilíbrio foi avaliado pelo tempo que o participante conseguia permanecer apoiado em uma perna, com os olhos abertos, até o limite de 30 segundos.

A mobilidade foi medida pelo teste de levantar da cadeira, caminhar 2,44 metros, contornar um cone, voltar e sentar novamente. Quanto menor o tempo, melhor o desempenho.

Flexibilidade

Foram avaliadas a mobilidade dos ombros e a flexibilidade da parte posterior das pernas.

Os pesquisadores também criaram um índice geral de aptidão física combinando o desempenho nos sete testes.

Os resultados mais importantes

Os participantes foram divididos em cinco grupos, do pior ao melhor desempenho. Mesmo após ajustes para idade, sexo, IMC, atividade física, condições socioeconômicas e doenças preexistentes, os indivíduos com melhor aptidão apresentaram menor mortalidade.

Na comparação entre o grupo de melhor desempenho e o de pior desempenho:

  • melhor resultado no teste de agilidade esteve associado a uma mortalidade 59% menor;
  • melhor equilíbrio em uma perna esteve associado a uma mortalidade 50% menor;
  • maior força para levantar da cadeira esteve associada a uma mortalidade 45% menor;
  • melhor condicionamento no teste de dois minutos esteve associado a uma mortalidade 42% menor;
  • o melhor índice geral de aptidão física esteve associado a uma mortalidade 61% menor.

O índice que reuniu todos os componentes apresentou a associação mais forte. Isso indica que o envelhecimento saudável não depende de uma única capacidade isolada, mas da combinação entre força, equilíbrio, agilidade, mobilidade, flexibilidade e resistência.

Também foi observada uma relação gradual: à medida que o desempenho melhorava, a mortalidade diminuía. Não era apenas uma diferença entre pessoas completamente frágeis e atletas. Melhorias ao longo de diferentes níveis de aptidão já estavam relacionadas a resultados mais favoráveis.

Equilíbrio e agilidade foram os grandes destaques

Entre os testes individuais, o melhor resultado foi observado naquele que exigia levantar da cadeira, caminhar, contornar um obstáculo e sentar novamente.

Esse movimento aparentemente simples reúne diversas funções:

  • força nas pernas;
  • coordenação;
  • equilíbrio;
  • velocidade;
  • capacidade de mudar de direção;
  • confiança para caminhar;
  • integração entre os sistemas muscular, nervoso e cardiovascular.

Um desempenho ruim pode indicar uma redução da reserva fisiológica antes mesmo que apareça uma incapacidade evidente.

O equilíbrio em uma perna também se destacou. A capacidade de sustentar o corpo sobre uma base reduzida depende de visão, sistema vestibular, sensibilidade, força muscular e controle neuromotor. Quando um desses componentes se deteriora, aumentam as chances de instabilidade e quedas.

Quedas podem iniciar uma sequência perigosa: fratura, internação, imobilidade, perda adicional de músculo, dependência e maior mortalidade. Portanto, equilíbrio e agilidade não são apenas habilidades esportivas. São componentes fundamentais da autonomia.

A força das pernas pode ser mais importante do que parece

“ Levantar-se de uma cadeira é uma das tarefas mais relevantes da vida cotidiana. Precisamos dessa capacidade para usar o banheiro, sair da cama, entrar em um carro e preservar a independência.No estudo, melhor desempenho no teste de sentar e levantar esteve associado a uma mortalidade 45% menor. A análise sugeriu que, especialmente entre os homens, os benefícios eram mais acentuados nos níveis inferiores de desempenho. A mortalidade diminuía de forma importante até aproximadamente 15 repetições em 30 segundos, com uma tendência de estabilização depois desse ponto. Isso não significa que 15 repetições sejam um limite universal ou uma meta aplicável a todas as pessoas. Idade, sexo, doenças, dor, altura da cadeira e técnica influenciam o resultado. O dado mostra, principalmente, que retirar uma pessoa da faixa de pior desempenho pode trazer um ganho proporcionalmente maior do que tentar transformar alguém já funcional em um atleta.” – Explica o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Homens e mulheres apresentaram algumas diferenças

Nos homens, equilíbrio, agilidade e condicionamento cardiorrespiratório foram os componentes mais fortemente associados à menor mortalidade.

Nas mulheres, a força dos membros inferiores apresentou importância semelhante à do equilíbrio e da agilidade.

Os autores destacam que a preservação da força nas pernas pode ter relevância especial nas mulheres mais velhas, considerando a maior frequência de osteoporose e, dependendo dos critérios utilizados, de sarcopenia. A combinação de fraqueza muscular, instabilidade e fragilidade óssea eleva as consequências de uma queda.

Essas diferenças não significam que homens não precisem treinar força ou que mulheres devam negligenciar o condicionamento aeróbico. A mensagem é que uma avaliação individual pode ajudar a identificar qual capacidade necessita de maior atenção.

A aptidão física funciona como um sinal vital do envelhecimento

Uma lista de diagnósticos mostra as doenças acumuladas por uma pessoa. Os testes funcionais revelam quanto de capacidade ela preservou apesar dessas doenças.

Duas pessoas da mesma idade, com diabetes e hipertensão semelhantes, podem apresentar reservas completamente diferentes. Uma consegue caminhar rapidamente, equilibrar-se e levantar-se com facilidade; a outra já demonstra lentidão, fraqueza e instabilidade.

Essa diferença pode não aparecer em um exame de sangue, mas pode influenciar profundamente a resposta a uma infecção, cirurgia, hospitalização ou queda.

A aptidão física não substitui a avaliação de doenças, fragilidade ou sarcopenia. Ela complementa essas informações com uma medida objetiva e modificável da capacidade funcional.

O que esse estudo ensina para a prática?

A principal mensagem não é que todas as pessoas com mais de 65 anos devam alcançar um desempenho específico. O mais importante é avaliar diferentes capacidades, identificar deficiências e acompanhar a evolução.

Um programa completo para o envelhecimento deve contemplar:

  • exercícios de força, principalmente para os membros inferiores;
  • estímulos de equilíbrio e controle corporal;
  • atividades que preservem agilidade e mobilidade;
  • condicionamento cardiorrespiratório;
  • flexibilidade suficiente para as tarefas cotidianas.

O treinamento precisa ser individualizado de acordo com doenças, histórico de quedas, dor, medicamentos e nível funcional. Testes de equilíbrio e mobilidade também exigem supervisão e medidas de segurança, especialmente em pessoas frágeis.

O estudo sugere que os maiores benefícios podem ocorrer justamente entre aqueles com pior aptidão inicial. Nunca ter treinado ou estar há muito tempo parado não significa que seja tarde demais. Pessoas idosas, inclusive aquelas com algum grau de fragilidade, podem melhorar força, equilíbrio e capacidade aeróbica com intervenções adequadas.

A mensagem final

Depois dos 65 anos, saúde não é apenas a ausência de doenças. É também ter força para levantar, equilíbrio para permanecer em pé, agilidade para caminhar com segurança e resistência para realizar as atividades do dia a dia.

O estudo reforça que a aptidão física pode funcionar como um retrato da reserva fisiológica — e talvez como um verdadeiro sinal vital do envelhecimento.

A boa notícia é que essa reserva não é completamente determinada pela idade. Ela pode ser avaliada, estimulada e acompanhada.

Em vez de perguntar apenas “quais doenças essa pessoa tem?”, talvez também devêssemos perguntar:

O que o corpo dela ainda consegue fazer — e o que podemos ajudá-la a recuperar?

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Quanto você pesa? Será que isso é importante?

Um recente estudo investigou se a quantidade e a distribuição da massa muscular e da gordura corporal, medidas por absorciometria de raios X de dupla energia (DXA), estavam associadas ao risco de morte em idosos brasileiros.

A conclusão central foi que:

  • A baixa massa muscular apendicular esteve fortemente associada à mortalidade em homens e mulheres.
  • Nos homens, maior quantidade de gordura visceral aumentou o risco de morte.
  • Ainda nos homens, maior massa de gordura corporal total apresentou associação inversa com a mortalidade, sugerindo um possível efeito protetor.
  • Nas mulheres, depois dos ajustes estatísticos, as medidas de gordura não foram preditores independentes de mortalidade; a baixa massa muscular foi o componente corporal predominante.
  • A associação entre massa muscular e mortalidade foi particularmente forte quando a massa muscular foi ajustada pela quantidade de gordura corporal, utilizando o método de Newman.

Em termos clínicos, o artigo mostra que o peso corporal ou o IMC isoladamente não descrevem adequadamente o risco associado à composição corporal do idoso. Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter riscos muito diferentes dependendo da quantidade de músculo e da localização da gordura.

Contexto e justificativa

O envelhecimento costuma produzir uma combinação de:

  • redução progressiva da massa muscular;
  • aumento proporcional da gordura corporal;
  • redistribuição da gordura para a região abdominal;
  • redução da água corporal;
  • perda de força e capacidade funcional.

Essas alterações são difíceis de identificar apenas pelo peso, IMC, circunferências corporais ou pregas cutâneas. Uma pessoa idosa pode, por exemplo, manter o mesmo peso enquanto perde músculo e acumula gordura visceral.

Os autores destacam que os estudos anteriores apresentavam resultados contraditórios. Algumas pesquisas associavam baixa massa muscular à mortalidade, enquanto outras não encontravam relação independente. Da mesma forma, a gordura corporal foi descrita tanto como fator de risco quanto como possível fator protetor em idosos.

Parte dessas divergências poderia decorrer de:

  • diferentes métodos de avaliação corporal;
  • definições distintas de baixa massa muscular;
  • combinação de participantes jovens e idosos na mesma análise;
  • uso de medidas imprecisas, como antropometria ou bioimpedância;
  • ausência de distinção entre gordura visceral e gordura subcutânea.

A DXA foi escolhida porque permite estimar, com boa precisão e baixa exposição à radiação, a massa magra apendicular, a gordura corporal total e a gordura visceral.

Objetivo

O objetivo foi verificar a associação entre parâmetros de composição corporal medidos por DXA e:

  1. mortalidade por todas as causas;
  2. mortalidade cardiovascular.

Os pesquisadores avaliaram especialmente:

  • massa magra apendicular;
  • diferentes definições de baixa massa muscular;
  • índice de massa de gordura;
  • gordura visceral medida como massa, área e volume.

Desenho e população do estudo

Trata-se de uma análise prospectiva da coorte São Paulo Ageing & Health Study — SPAH.

A coorte original incluiu 1.025 pessoas com 65 anos ou mais, recrutadas entre 2005 e 2007 no distrito do Butantã, em São Paulo. Foram sorteados 66 setores censitários, e os pesquisadores identificaram os idosos residentes nessas áreas.

Foram incluídos idosos residentes na comunidade considerados funcionalmente independentes, isto é, capazes de comparecer ao centro de pesquisa e realizar atividades básicas da vida diária.

Para a análise final:

  • foram avaliados 839 participantes;
  • 516 eram mulheres;
  • 323 eram homens;
  • a idade mínima era de 65 anos;
  • 132 participantes morreram durante o acompanhamento;
  • 707 permaneceram vivos;
  • 168 integrantes da coorte original não puderam ser localizados;
  • 18 foram excluídos por ausência de dados laboratoriais ou de DXA no início do estudo.

O tempo médio de acompanhamento foi de 4,06 ± 1,07 anos, com variação aproximada de 0,2 a 6,5 anos.

Avaliação da composição corporal

A composição corporal foi medida no início do estudo com equipamento DXA Hologic QDR 4500A. Todas as avaliações foram realizadas pelo mesmo técnico experiente.

Massa muscular

A massa magra apendicular correspondia à soma da massa magra dos braços e das pernas. Foram utilizados três indicadores:

  1. Índice de massa magra apendicular — ALMI
    Calculado como:
    \[ ALMI = \frac{\text{massa magra apendicular em kg}}{\text{altura em m}^2} \]
  2. Baixa massa muscular segundo o EWGSOP2
    Classificação baseada nos pontos de corte recomendados pelo consenso europeu sobre sarcopenia.
  3. Baixa massa muscular pelo método de Newman
    Esse método estima quanto de massa muscular seria esperado para uma pessoa considerando simultaneamente sua altura e sua massa de gordura.
    A diferença entre a massa magra apendicular real e a esperada é chamada de resíduo:
    \[ resíduo = ALM_{\text{real}} – ALM_{\text{esperada}} \]Um resíduo muito negativo indica que a pessoa possui menos músculo do que seria esperado para sua estatura e quantidade de gordura.

Gordura corporal

Foram analisados:

  • massa de gordura total em quilogramas;
  • percentual de gordura corporal;
  • índice de massa de gordura, ou FMI;
  • massa de gordura visceral;
  • área de gordura visceral;
  • volume de gordura visceral.

Resultados gerais

Durante o acompanhamento ocorreram:

  • 132 mortes entre 839 participantes, correspondendo a 15,7%;
  • 57 mortes cardiovasculares, equivalentes a 43,2% de todos os óbitos;
  • 75 mortes por causas não cardiovasculares.

As causas não cardiovasculares não foram analisadas separadamente, como câncer ou infecção, porque o número de eventos em cada categoria seria pequeno.

Resultados nos homens

Entre os 323 homens:

  • 65 morreram;
  • 258 permaneceram vivos.

Na comparação inicial, os homens que morreram eram, em média:

  • mais velhos;
  • menos ativos fisicamente;
  • mais frequentemente diabéticos;
  • mais propensos a quedas recorrentes;
  • mais propensos a eventos cardiovasculares prévios;
  • portadores de menor densidade mineral óssea no fêmur;
  • portadores de menores concentrações de albumina, cálcio e vitamina D;
  • portadores de maior concentração de fósforo.

Em relação à composição corporal, os homens que morreram apresentavam:

  • frequência muito maior de baixa massa muscular pelo método de Newman: 58,5% versus 18,6%;
  • menor índice de massa de gordura;
  • tendência a maior quantidade de gordura visceral;
  • ausência de diferença significativa no ALMI médio;
  • ausência de diferença significativa na baixa massa muscular definida pelo EWGSOP2.

Essa diferença é importante: a simples divisão da massa muscular pela altura não discriminou adequadamente os homens que morreram. A classificação que também considerava a gordura corporal teve desempenho muito melhor.

Mortalidade por todas as causas nos homens

Depois do ajuste para fatores clínicos, laboratoriais e densidade óssea:

  • A baixa massa muscular pelo método de Newman aumentou o risco de morte por qualquer causa em aproximadamente 11 vezes:
    OR 11,36; IC95% 2,21–58,37; p = 0,004.
  • Cada aumento de 100 g de gordura visceral foi associado a aproximadamente o dobro do risco:
    OR 1,99; IC95% 1,38–2,87; p < 0,001.
  • Cada aumento de 1 kg/m² no índice de massa de gordura foi associado a aproximadamente 52% menos risco:
    OR 0,48; IC95% 0,33–0,71; p < 0,001.

A associação da gordura visceral permaneceu presente quando ela foi expressa como massa, área ou volume.

Mortalidade cardiovascular nos homens

Os resultados foram semelhantes:

  • baixa massa muscular: aproximadamente 14 vezes mais risco de morte cardiovascular, segundo a descrição principal dos autores;
  • gordura visceral: aumento significativo do risco, com OR 1,66 por 100 g;
  • FMI: redução do risco, com OR 0,57 por aumento de 1 kg/m².

Em alguns modelos apresentados na tabela, o diabetes também permaneceu associado à mortalidade cardiovascular, com OR próximo de 3,8.

Resultados nas mulheres

Entre as 516 mulheres:

  • 67 morreram;
  • 449 permaneceram vivas.

As mulheres que morreram eram:

  • mais velhas;
  • menos ativas fisicamente;
  • mais frequentemente diabéticas;
  • mais propensas a eventos cardiovasculares prévios;
  • portadoras de menor IMC;
  • portadoras de pior função renal;
  • portadoras de menor densidade mineral óssea no fêmur;
  • portadoras de maior concentração de paratormônio.

Quanto à composição corporal, as mulheres que morreram apresentavam:

  • ALMI significativamente menor: 6,76 versus 7,71 kg/m²;
  • baixa massa muscular pelo método de Newman em 86,6% versus 11,8%;
  • baixa massa muscular pelo EWGSOP2 em aproximadamente 31,2% versus 7,1%;
  • menor gordura visceral nas análises não ajustadas;
  • FMI praticamente idêntico entre os grupos.

O achado de menor gordura visceral entre as mulheres que morreram desapareceu depois do controle dos demais fatores. Portanto, não foi considerado uma associação independente.

Mortalidade por todas as causas nas mulheres

No modelo multivariável, o principal parâmetro corporal foi a baixa massa muscular pelo método de Newman:

  • OR 62,88; IC95% 22,59–175,0; p < 0,001.

Também permaneceram associados:

  • idade: OR 1,07 por ano;
  • paratormônio: OR 1,02 por pg/mL;
  • baixo nível de atividade física: OR 4,86.

O intervalo de confiança muito amplo da baixa massa muscular — de aproximadamente 23 a 175 — mostra que a associação foi muito forte, mas sua magnitude exata é imprecisa, provavelmente pelo número relativamente pequeno de óbitos.

Mortalidade cardiovascular nas mulheres

A baixa massa muscular pelo método de Newman também esteve fortemente associada à mortalidade cardiovascular:

  • OR 74,54; IC95% 9,72–571,46; p < 0,001.

A idade também permaneceu no modelo:

  • OR 1,11 por ano.

Novamente, o intervalo de confiança extremamente amplo recomenda cautela na interpretação da magnitude.

Outras definições de massa muscular

Quando o método de Newman foi substituído por outros indicadores:

  • Cada aumento de 1 kg/m² no ALMI foi associado a menor mortalidade por todas as causas:
    OR 0,50; IC95% 0,37–0,67; p < 0,001.
  • Para mortalidade cardiovascular, o ALMI também foi protetor:
    OR 0,54; IC95% 0,35–0,84; p = 0,007.
  • A baixa massa muscular pelo EWGSOP2 esteve associada à mortalidade por todas as causas:
    OR 4,21; IC95% 1,80–9,87; p < 0,001.
  • Entretanto, essa definição não foi um preditor estatisticamente significativo de mortalidade cardiovascular:
    OR 2,25; IC95% 0,69–7,30; p = 0,17.

Assim, todas as abordagens apontaram na direção de maior risco com menor massa muscular nas mulheres, mas o método ajustado pela gordura apresentou a associação mais forte e consistente.

Conclusão

“ Ajustar a massa magra apendicular apenas pela altura pode não ser suficiente. Uma pessoa com obesidade pode apresentar uma massa muscular absoluta aparentemente normal, mas ainda ter pouco músculo para sustentar sua massa corporal. O método de Newman procura identificar essa “deficiência muscular relativa”. Isso explicaria por que ele foi mais sensível na identificação de idosos com risco elevado. A baixa massa muscular pode se relacionar à mortalidade por diversos mecanismos:menor reserva metabólica; pior resposta a doenças agudas; menor mobilidade; resistência à insulina; maior rigidez arterial; maior risco de quedas e incapacidade; associação com inflamação e doenças crônicas. Já a gordura visceral está associada a inflamação sistêmica; resistência à insulina; diabetes; dislipidemia; aterosclerose; maior risco cardiovascular.” – Concluio Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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Obesidade não é falta de força de vontade: nosso corpo ainda tenta sobreviver a um mundo que já não existe

Durante décadas, a perda de peso foi resumida a uma orientação aparentemente simples: “coma menos e se movimente mais”. Quando alguém não conseguia emagrecer ou recuperava o peso perdido, a explicação costumava ser atribuída à falta de disciplina.

Hoje, a ciência mostra que essa interpretação é incompleta e injusta. A obesidade não é uma falha de caráter, mas uma condição complexa, influenciada pelo cérebro, pelos hormônios, pela genética, pelo ambiente e pela própria história evolutiva da humanidade.

Um corpo antigo vivendo em um mundo novo

A evolução humana acontece lentamente. Os primeiros representantes do Homo habilis surgiram há aproximadamente 2,5 milhões de anos. Durante quase todo esse período, nossos antepassados viveram em ambientes marcados pela escassez, pela incerteza alimentar e pela necessidade de grande esforço físico para conseguir comida.

Nesse contexto, armazenar gordura representava uma vantagem para a sobrevivência. Ter pouca reserva energética poderia significar não resistir a períodos de fome, doenças, invernos rigorosos ou longos deslocamentos. Ao longo de milhares de gerações, o organismo humano desenvolveu mecanismos extremamente eficientes para economizar energia, estimular a fome e proteger seus estoques de gordura.

O problema é que o ambiente mudou muito mais rapidamente do que a nossa biologia.

Nos últimos 200 anos, especialmente a partir da Revolução Industrial, ocorreram transformações profundas na produção, no transporte e na oferta de alimentos. A agricultura tornou-se mais produtiva, a comida passou a ser encontrada em abundância e surgiram produtos industrializados altamente palatáveis, ricos em açúcar, gordura, sal e calorias.

Ao mesmo tempo, nossa alimentação passou a incluir uma grande variedade de aditivos químicos, enquanto máquinas, automóveis, elevadores, telas e novas formas de trabalho reduziram drasticamente a necessidade de movimento.

Em apenas algumas gerações, saímos de um ambiente em que era preciso gastar energia para obter alimento para outro em que alimentos baratos, concentrados em calorias e intensamente estimulantes estão disponíveis praticamente o tempo todo.

Nosso corpo e nosso cérebro não tiveram tempo evolutivo suficiente para acompanhar tamanha transformação. Carregamos uma biologia preparada para enfrentar a escassez, mas vivemos cercados pela abundância. Esse desencontro ajuda a explicar a atual pandemia de obesidade.

Por que o corpo resiste à perda de peso?

Quando uma pessoa emagrece, o organismo nem sempre interpreta essa mudança como algo positivo. Para os mecanismos mais antigos do cérebro, perder peso pode representar uma ameaça à sobrevivência.

Como resposta, o corpo inicia uma série de adaptações:

  • a fome aumenta;
  • os desejos por alimentos mais calóricos tornam-se mais intensos;
  • a sensação de saciedade pode diminuir;
  • o gasto energético é reduzido;
  • o organismo passa a utilizar as calorias com maior eficiência.

Essas respostas não surgiram para nos prejudicar. Elas foram fundamentais para que nossos antepassados sobrevivessem quando o alimento era escasso. No ambiente atual, porém, os mesmos mecanismos dificultam tanto a perda quanto a manutenção do peso.

É por isso que dietas muito restritivas frequentemente produzem emagrecimento inicial, mas são seguidas pela recuperação parcial ou total do peso. Não se trata simplesmente de “perder o controle”. O organismo está reagindo como aprendeu ao longo de milhões de anos: tentando recuperar suas reservas energéticas.

O cérebro pode “memorizar” o peso anterior

Pesquisas recentes indicam que o cérebro possui mecanismos capazes de defender o peso corporal e, de certa forma, “lembrar” quanto o corpo pesava anteriormente.

Para nossos antepassados, essa memória era útil. Se alguém perdesse peso durante um período de fome, o organismo tentaria recuperar sua reserva assim que os alimentos voltassem a estar disponíveis.

No mundo moderno, esse mecanismo pode se transformar em um obstáculo. Depois que uma pessoa permanece com um peso mais elevado, o cérebro pode passar a interpretar esse novo peso como o padrão que precisa ser protegido.

Assim, quando ocorre o emagrecimento, a biologia trabalha para levar o corpo de volta ao nível anterior. Isso ajuda a compreender por que tantas pessoas recuperam o peso depois de uma dieta, mesmo quando estão genuinamente comprometidas com o tratamento.

A recuperação do peso não significa necessariamente falta de disciplina. Muitas vezes, significa que o corpo está executando com eficiência exatamente aquilo para o qual evoluiu: defender-se da perda de reservas energéticas.

O papel dos medicamentos

Medicamentos como Wegovy e Mounjaro trouxeram novas possibilidades para o tratamento da obesidade. Eles reproduzem ou potencializam a ação de hormônios envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro, reduzindo o apetite e aumentando a saciedade.

Esses medicamentos ajudam a enfrentar parte da resposta biológica que dificulta o emagrecimento. Entretanto, não funcionam da mesma maneira para todas as pessoas. Alguns pacientes apresentam efeitos adversos, outros perdem pouco peso e há aqueles que recuperam parte do peso após a interrupção do tratamento.

Isso acontece porque, quando o medicamento é suspenso, os mecanismos biológicos de defesa podem voltar a agir.

“O avanço das pesquisas em obesidade e metabolismo poderá permitir o desenvolvimento de tratamentos capazes de modificar esses sinais de maneira mais duradoura. Ainda assim, os medicamentos devem ser entendidos como parte de uma estratégia individualizada, acompanhada por profissionais de saúde, e não como uma solução isolada.” – Analisa o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

A obesidade não é apenas um problema individual

Não podemos responsabilizar exclusivamente o indivíduo por uma condição profundamente influenciada pelo ambiente.

Vivemos expostos a uma oferta constante de produtos ultraprocessados, porções excessivas, publicidade direcionada, jornadas cansativas, privação de sono, estresse e cidades que frequentemente dificultam caminhar ou andar de bicicleta.

Por isso, enfrentar a obesidade exige uma resposta de toda a sociedade. Algumas medidas importantes incluem:

  • melhorar a qualidade das refeições escolares;
  • reduzir a publicidade de alimentos não saudáveis direcionada às crianças;
  • facilitar o acesso a alimentos frescos;
  • criar espaços seguros para caminhar, brincar e andar de bicicleta;
  • promover educação alimentar para toda a família;
  • estabelecer porções mais adequadas em restaurantes;
  • ampliar o acesso ao acompanhamento multiprofissional;
  • combater o preconceito contra pessoas com obesidade.

Orientar escolhas individuais é importante, mas essas escolhas precisam ser possíveis dentro do ambiente em que as pessoas vivem.

A mudança deve começar na infância

Se desejamos modificar o futuro dessa pandemia, precisamos começar pela infância — e, quando possível, ainda durante a gestação.

Os primeiros anos de vida são um período em que os sistemas responsáveis pelo apetite, pela saciedade, pelo metabolismo e pelo armazenamento de gordura ainda estão em formação. Da gestação até aproximadamente os sete anos, o organismo apresenta grande capacidade de adaptação.

Diversos fatores podem influenciar esse desenvolvimento:

  • a alimentação materna durante a gestação;
  • a saúde metabólica dos pais;
  • a forma como o bebê é alimentado;
  • os alimentos oferecidos nos primeiros anos;
  • a qualidade do sono;
  • o tempo de exposição às telas;
  • a prática de atividades físicas;
  • o exemplo dos adultos;
  • a maneira como a família utiliza a comida;
  • o ambiente escolar e comunitário.

Isso não significa colocar crianças em dietas restritivas ou criar uma preocupação excessiva com o peso. Pelo contrário: o objetivo deve ser construir um ambiente saudável, no qual alimentos nutritivos, movimento, sono e equilíbrio emocional façam parte da rotina de maneira natural.

A criança não é a única responsável por suas escolhas. São os adultos, as escolas, os serviços de saúde, a indústria e o poder público que estruturam o ambiente no qual essas escolhas acontecem.

Prevenir a obesidade infantil também não deve significar vigiar corpos ou reforçar estigmas. O foco deve estar na saúde, no desenvolvimento e na criação de hábitos sustentáveis para toda a família.

O que podemos fazer hoje?

Para quem deseja emagrecer, dietas radicais raramente são a melhor estratégia. Mudanças sustentáveis costumam produzir resultados mais seguros e duradouros.

Alguns pontos importantes são:

  • manter horários de sono adequados;
  • praticar atividade física regularmente, mesmo que seja uma caminhada;
  • priorizar alimentos frescos e minimamente processados;
  • reduzir o consumo de produtos ultraprocessados;
  • reconhecer os sinais de fome e saciedade;
  • controlar o estresse;
  • evitar metas irreais;
  • procurar acompanhamento profissional quando necessário.

O objetivo não deve ser travar uma guerra contra o próprio corpo, mas compreender sua biologia e trabalhar com ela.

Uma questão de biologia, ambiente e sociedade

A obesidade não é um fracasso pessoal. Ela resulta da interação entre mecanismos cerebrais, hormônios, genes, experiências precoces e um ambiente radicalmente diferente daquele em que o ser humano evoluiu.

Nosso corpo levou cerca de 2,5 milhões de anos para desenvolver mecanismos capazes de sobreviver à falta de alimentos. Nos últimos 200 anos, porém, transformamos completamente a forma de produzir, consumir e nos relacionar com a comida. Biologicamente, não houve tempo para acompanhar tantas mudanças.

A boa notícia é que também temos capacidade para modificar o ambiente. A ciência e a medicina já oferecem novas possibilidades de tratamento, enquanto políticas públicas e estratégias de prevenção podem criar condições mais saudáveis para as próximas gerações.

Se você tem dificuldade para emagrecer ou manter o peso perdido, saiba que não está sozinha e isso não é simplesmente culpa sua. O cérebro pode ser um adversário poderoso, mas compreender seus mecanismos é o primeiro passo para abandonar a culpa e buscar estratégias mais eficazes.

E, se quisermos mudar verdadeiramente o futuro, precisamos começar onde a prevenção tem maior potencial: na infância.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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Tirzepatida

GLP-1 e tirzepatida: qual o melhor para perder peso?

Medicamentos como semaglutida, liraglutida e tirzepatida transformaram o tratamento da obesidade. Eles reduzem a fome, aumentam a saciedade, retardam o esvaziamento gástrico e ajudam muitas pessoas a perder uma quantidade significativa de peso.

Mas existe um ponto que ainda recebe pouca atenção: quando o apetite diminui muito, a paciente pode passar a comer menos do que o necessário não apenas em calorias, mas também em proteínas, vitaminas e minerais.

Um estudo publicado em 2026 no Journal of Translational Medicine avaliou o consumo alimentar de 387 adultos em uso de agonistas de GLP-1 ou do agonista duplo GIP/GLP-1. Os participantes utilizavam semaglutida, liraglutida, dulaglutida ou tirzepatida e preencheram diários alimentares referentes a um dia útil e a um dia de fim de semana.

Os resultados chamam atenção.

A ingestão média relatada foi de apenas:

  • 753 kcal por dia;
  • 33,4 g de proteína por dia;
  • 26,5 g de gordura;
  • 96,4 g de carboidratos.

A grande maioria dos participantes não atingia as recomendações de proteína, e também foram observadas inadequações importantes de micronutrientes, especialmente vitamina D, cálcio e potássio.

O problema não é apenas comer pouco

Para muitas pessoas, observar uma ingestão calórica muito baixa pode parecer algo positivo, afinal o objetivo do tratamento é reduzir o peso.

Mas o organismo não perde apenas gordura.

Quando existe uma combinação de:

  • redução intensa do apetite;
  • baixa ingestão de proteína;
  • ausência de treinamento de força;
  • perda rápida de peso;
  • baixa qualidade alimentar;

Parte relevante do peso perdido pode vir da massa muscular.

O artigo discute que, sem intervenções adequadas, até 25% a 30% do peso perdido pode corresponder a tecido magro. Isso aumenta o risco de obesidade sarcopênica, condição na qual a pessoa continua apresentando excesso de gordura, mas perde músculo, força e capacidade funcional.

Esse cenário pode trazer consequências como:

  • maior fraqueza;
  • pior disposição;
  • redução do gasto energético;
  • maior risco de quedas e fraturas;
  • pior controle glicêmico;
  • redução da capacidade de realizar exercícios;
  • maior dificuldade para manter o peso perdido;
  • recuperação de gordura após a suspensão do medicamento.

Por isso, perder muitos quilos rapidamente não significa necessariamente que o tratamento esteja produzindo a melhor composição corporal possível.

Proteína: quantidade absoluta importa

Um dos achados mais relevantes foi a associação entre maior ingestão total de proteína e maior perda de peso.

Isso pode parecer contraditório para quem acredita que comer mais proteína atrapalharia o déficit calórico. Na prática, a proteína pode ajudar porque:

  • aumenta a saciedade;
  • possui maior efeito térmico;
  • ajuda a preservar massa muscular;
  • favorece a recuperação após o exercício;
  • melhora a qualidade das refeições;
  • reduz a chance de que o paciente sobreviva apenas de pequenas quantidades de alimentos pouco nutritivos.

Os autores sugerem uma meta aproximada de 1,2 g de proteína por quilo de peso-alvo, o que corresponderia, para muitos pacientes, a aproximadamente 75 a 90 g por dia. No estudo, porém, a média foi de apenas 33,4 g.

Isso significa que muitos participantes consumiam menos da metade da quantidade considerada adequada pelos próprios autores.

Entretanto, a necessidade proteica deve ser individualizada. Idade, massa muscular, função renal, nível de atividade física, presença de sarcopenia e tolerância gastrointestinal precisam ser considerados.

Nem toda proteína animal é igual

O estudo encontrou uma associação inesperada: maior consumo de proteína animal esteve relacionado a menor perda de peso.

Esse resultado não significa que ovos, peixes, iogurte, carnes magras ou outras fontes animais prejudiquem o emagrecimento.

Os próprios autores levantam uma hipótese mais provável: parte da proteína animal consumida poderia estar vindo de alimentos como:

  • embutidos;
  • carnes processadas;
  • refeições prontas;
  • produtos ricos em gordura saturada;
  • alimentos com grande quantidade de sódio.

Nesses casos, a proteína vem acompanhada de pior qualidade nutricional.

O estudo não separou adequadamente peixe, ovos, carnes magras, laticínios e carnes processadas. Portanto, não é possível concluir que “proteína animal engorda” ou que deve ser evitada.

A interpretação mais cuidadosa é: a fonte da proteína importa.

Sódio elevado pode ser um marcador de alimentos ultraprocessados

Maior consumo de sódio também esteve associado a menor redução de peso e de IMC.

O sódio pode influenciar temporariamente o peso por retenção de líquidos. Mas também pode funcionar como um marcador indireto de uma alimentação com maior presença de:

  • ultraprocessados;
  • embutidos;
  • salgadinhos;
  • molhos;
  • refeições industrializadas;
  • carnes processadas;
  • produtos ricos em gordura e calorias.

Por isso, olhar apenas a quantidade de proteína sem analisar o alimento que a fornece pode levar a conclusões erradas.

Uma refeição com peixe, vegetais e azeite não possui o mesmo impacto nutricional que uma refeição baseada em embutidos, queijo processado e produtos prontos, mesmo que ambas apresentem quantidades semelhantes de proteína.

Tirzepatida versus agonistas de GLP-1

Os usuários de tirzepatida consumiram um pouco mais de proteína total e proteína animal e menos carboidratos do que os usuários de agonistas de GLP-1 isolados.

Ainda assim, a ingestão proteica absoluta continuou baixa.

Depois dos ajustes estatísticos, o tipo de medicamento não foi um preditor independente da magnitude da perda de peso. O tempo de tratamento foi o fator mais fortemente associado ao resultado.

É importante não interpretar esse achado como prova de que semaglutida, liraglutida e tirzepatida possuem a mesma eficácia. O estudo foi observacional, não controlou adequadamente as doses e reuniu diferentes medicamentos no mesmo grupo.

Ensaios clínicos randomizados continuam sendo mais adequados para comparar a eficácia farmacológica entre as medicações.

Aumentar a dose nem sempre é a melhor decisão

Quando o paciente já apresenta:

  • pouco apetite;
  • dificuldade para atingir proteína;
  • náuseas;
  • constipação;
  • perda acelerada de peso;
  • redução da força;
  • piora da ingestão alimentar;

aumentar a dose automaticamente pode agravar o problema.

O objetivo não deve ser eliminar completamente a fome. A fome é um sinal fisiológico necessário para garantir ingestão de nutrientes.

O medicamento deve ajudar a controlar o excesso de fome e melhorar a relação com a alimentação, não tornar o paciente incapaz de comer adequadamente.

A musculação é parte do tratamento

A proteína isoladamente não preserva todo o músculo.

O estímulo mecânico do treinamento resistido é fundamental para que o organismo tenha motivo para manter a massa muscular durante o déficit energético.

Um tratamento bem estruturado deve combinar:

  • medicação, quando indicada;
  • alimentação individualizada;
  • ingestão proteica adequada;
  • musculação;
  • sono;
  • acompanhamento da composição corporal;
  • correção de deficiências nutricionais.

Conclusão

“ Os agonistas de GLP-1 e GIP/GLP-1 são ferramentas muito eficazes no tratamento da obesidade. Podem ser aliados no tratamento das mulheres com lipedema mas ainda não temos estudos. Mas sua capacidade de reduzir intensamente o apetite exige acompanhamento. O estudo mostra que muitos pacientes podem estar consumindo quantidades muito baixas de energia e proteína, além de apresentar risco de inadequação de micronutrientes. O sucesso do tratamento não deve ser medido apenas pela quantidade de peso perdido, mas pela qualidade do peso perdido e pela saúde preservada durante o processo. Perder gordura é desejável. Perder músculo, força, qualidade nutricional e capacidade funcional não é.” – Analisa o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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Selfies podem estar mudando a forma como enxergamos o nosso nariz?

A rinoplastia está entre as cirurgias plásticas mais realizadas no mundo. Segundo o levantamento global de 2024 da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil ocupa a liderança mundial nesse procedimento, com mais de 100 mil rinoplastias realizadas no período analisado.

Existem diversos fatores que podem explicar essa procura. Entre eles, está a exposição cada vez mais frequente à própria imagem nas redes sociais. Fotografias, vídeos, chamadas virtuais e, principalmente, selfies fizeram com que passássemos a observar o rosto com uma frequência sem precedentes.

Mas existe um problema importante: a imagem produzida pela câmera frontal do celular pode não representar fielmente a nossa aparência.

O “efeito selfie” sobre o nariz

Um estudo publicado no periódico JAMA Facial Plastic Surgery demonstrou que fotografias feitas a curta distância provocam uma distorção das proporções faciais.

Quando a câmera é posicionada a aproximadamente 30 centímetros do rosto — uma distância comum ao tirar uma selfie — o nariz fica mais próximo da lente do que as demais estruturas faciais. Como consequência, ele parece proporcionalmente maior.

De acordo com o modelo desenvolvido pelos pesquisadores, uma selfie feita a essa distância pode aumentar o tamanho percebido do nariz em cerca de 29% nas mulheres e 30% nos homens, em comparação com uma imagem sem essa distorção.

Já nas fotografias realizadas a aproximadamente 1,5 metro de distância, como ocorre nos retratos tradicionais, praticamente não existe alteração perceptível no tamanho do nariz.

Isso significa que o nariz observado em uma selfie tirada de perto não corresponde necessariamente ao nariz que as outras pessoas enxergam.

Das fotografias de artistas às próprias selfies

Durante muito tempo, era comum que pacientes chegassem aos consultórios levando fotografias de atrizes, modelos ou outras personalidades. Elas desejavam um nariz semelhante ao de alguém considerado uma referência de beleza.

Hoje, o comportamento mudou. Muitas mulheres apresentam as próprias selfies e solicitam alterações baseadas naquilo que enxergam na tela do celular.

À primeira vista, usar a própria fotografia como referência pode parecer mais realista. Entretanto, quando a imagem foi produzida a uma distância muito curta, o pedido pode estar baseado em proporções que não existem na realidade.

O próprio artigo cita uma pesquisa da Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial na qual 42% dos cirurgiões participantes disseram ter atendido pacientes interessados em procedimentos estéticos para melhorar sua aparência em selfies e fotografias publicadas nas redes sociais.

Esses dados não provam, isoladamente, que as selfies sejam responsáveis pelo crescimento da rinoplastia. No entanto, indicam que elas podem influenciar a percepção da aparência e contribuir para a procura por intervenções estéticas.

Quando uma distorção pode influenciar uma decisão real

“O principal risco é transformar uma alteração produzida pela câmera em uma insatisfação verdadeira com o próprio corpo. Uma mulher pode acreditar que seu nariz é muito largo ou desproporcional quando, na realidade, está observando repetidamente uma imagem distorcida. A partir dessa percepção, ela pode começar a considerar uma cirurgia que talvez não desejasse ao se enxergar de maneira mais fiel. Vejo a mesma situação nas mulheres com lipedema que as vezes valorizam fotografias em ângulos ou iluminação que não favorecem elas.” – Alerta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

A rinoplastia pode trazer benefícios estéticos, funcionais e emocionais quando possui uma indicação adequada e expectativas realistas. Ainda assim, continua sendo um procedimento cirúrgico. Como qualquer cirurgia, envolve recuperação, limitações e possibilidade de complicações. Além disso, o resultado definitivo não pode ser simplesmente desfeito caso a paciente descubra que sua insatisfação estava relacionada à autoimagem ou à distorção fotográfica.

Por isso, uma decisão cirúrgica nunca deve ser tomada com base apenas em selfies, filtros ou comentários recebidos nas redes sociais.

Como produzir uma fotografia mais fiel

Antes de avaliar a aparência do nariz em uma imagem, é importante observar como a fotografia foi produzida.

Para reduzir a distorção, o ideal é posicionar a câmera mais distante do rosto e utilizar o zoom, se necessário, para fazer o enquadramento. Fotografias tiradas a cerca de 1,5 metro proporcionam uma representação mais próxima das proporções reais do rosto do que uma selfie feita com o braço estendido.

Também é importante avaliar diferentes ângulos, observar fotografias não filtradas e comparar essas imagens com a aparência no espelho.

Filtros de beleza merecem atenção especial. Eles podem afinar o nariz, modificar a ponta, aumentar os olhos e alterar o contorno facial de forma automática. Com o uso repetido, existe o risco de a pessoa se acostumar com uma versão artificial do próprio rosto e passar a considerar sua aparência natural inadequada.

A importância de uma avaliação responsável

Uma consulta para rinoplastia não deve se limitar à escolha de um formato de nariz. O profissional precisa avaliar as proporções do rosto, a anatomia nasal, a respiração, as expectativas da paciente e as razões que motivaram a procura pela cirurgia.

Também é importante compreender que não existe um nariz ideal que possa ser aplicado a todas as pessoas. O resultado deve respeitar as características individuais e manter equilíbrio com as demais estruturas da face.

Quando o desejo de operar surgiu após o uso intenso de selfies ou filtros, essa influência precisa ser discutida abertamente durante a consulta. Em algumas situações, pode ser prudente adiar a decisão e permitir uma reflexão mais cuidadosa sobre as expectativas.

A câmera pode mudar a imagem, mas a cirurgia muda o nariz de verdade

As redes sociais modificaram profundamente a maneira como observamos e apresentamos nossa aparência. Hoje, não nos comparamos apenas com celebridades: também nos comparamos com versões alteradas de nós mesmos.

O “efeito selfie” mostra que até mesmo uma fotografia sem filtro pode transmitir uma imagem enganosa. A curta distância entre o rosto e a câmera é suficiente para fazer o nariz parecer significativamente maior.

Antes de considerar uma rinoplastia, portanto, é fundamental perguntar: estou insatisfeita com o meu nariz real ou com a imagem que a câmera criou?

Essa reflexão não pretende desvalorizar o desejo legítimo de realizar uma cirurgia plástica. Seu objetivo é garantir que uma decisão permanente seja baseada na realidade, em expectativas possíveis e em uma avaliação médica cuidadosa — e não em uma distorção produzida pela lente do celular.

Referências

WARD, Brittany et al. Nasal Distortion in Short-Distance Photographs: The Selfie Effect. JAMA Facial Plastic Surgery, 2018.

INTERNATIONAL SOCIETY OF AESTHETIC PLASTIC SURGERY. ISAPS International Survey on Aesthetic/Cosmetic Procedures Performed in 2024.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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Imagem corporal Lipedema.

O lipedema começa antes do inchaço e hematomas

Imagem corporal Lipedema.

Um artigo publicado em 2020 representa um marco na pesquisa do lipedema porque foi o primeiro a identificar um gene candidato para o lipedema primário não sindrômico, propondo que alterações no metabolismo local da progesterona possam participar diretamente da fisiopatologia da condição.

Introdução

Os autores começam destacando alguns fatos importantes:

  • o lipedema acomete quase exclusivamente mulheres;
  • geralmente inicia na puberdade, gestação ou menopausa;
  • existe forte agregação familiar;
  • até aquele momento nenhum gene havia sido identificado para explicar o lipedema primário.

Eles lembram que:

  • o tecido adiposo subcutâneo possui receptores para progesterona;
  • progesterona e estradiol regulam de forma diferente a diferenciação dos adipócitos;
  • a homeostase hormonal dentro do tecido adiposo depende das enzimas hidroxiesteroide desidrogenases.

Entre elas está a AKR1C1, responsável por inativar progesterona.

Objetivo

Identificar uma variante genética responsável por uma família com:

  • lipedema não sindrômico;
  • herança autossômica dominante limitada ao sexo feminino.

A família estudada

Foi analisada uma família italiana composta por:

  • 12 indivíduos
  • 3 mulheres com lipedema
  • transmissão vertical entre gerações.

Todas apresentavam:

  • início na puberdade
  • acometimento de coxas e quadris
  • sem alterações endócrinas importantes.

Sequenciamento do exoma

Foi realizado Whole Exome Sequencing (WES).

Após sucessivos filtros restou uma variante extremamente interessante:

AKR1C1

mutação

c.638T>A

↓

Leu213Gln (L213Q)

Essa variante estava presente em todas as mulheres afetadas e ausente nos familiares saudáveis.

O que faz a AKR1C1?

“ Esta é a principal mensagem do artigo. A AKR1C1 possui atividade na  20α-hidroxiesteroide desidrogenase. Ela converte Progesterona em 20α-hidroxiprogesterona  que possui atividade biológica muito menor. Portanto AKR1C1 inativa a progesterona dentro do tecido adiposo. A progesterona tem um efeito muito importante em algumas mulheres com lipedema e observamos a mesma coisa no nosso estudo sobre anticoncepcional nas mulheres com lipedema.” – Resume o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

O que acontece com a mutação?

A mutação não destrói a proteína.

Ela modifica sua conformação.

Os autores utilizaram:

  • modelagem molecular
  • dinâmica molecular
  • bioinformática estrutural

e observaram:

  • perda de interações hidrofóbicas
  • menor estabilidade do sítio de ligação do esteroide
  • menor afinidade pelo substrato.

Consequência funcional

Redução da eficiência catalítica em quase 50%!

Ou seja: a progesterona permanece ativa por mais tempo.

Hipótese fisiopatológica

Os autores propõem:

AKR1C1 ↓

↓

menos degradação da progesterona

↓

mais progesterona ativa

↓

maior estímulo adipogênico

↓

maior diferenciação de adipócitos

↓

expansão do tecido adiposo

↓

lipedema.

Como a progesterona estimularia gordura?

Os autores revisam estudos experimentais mostrando que a progesterona:

↑ ADD1/SREBP1c

↓

maior diferenciação dos pré-adipócitos

↓

maior síntese de ácidos graxos

↓

maior depósito de gordura.

Um segundo mecanismo: prostaglandinas

A AKR1C1 também participa da síntese de:

PGF2α

A PGF2α normalmente:

↓

inibe adipogênese.

Portanto:

AKR1C1 reduzida

↓

menos PGF2α

↓

menos freio sobre adipócitos

↓

mais adipogênese.

Os próprios autores deixam claro que essa hipótese ainda necessita de confirmação experimental.

Um achado curioso

Nenhuma paciente apresentava dor importante.

Isso chamou atenção.

A explicação proposta:

AKR1C1 também degrada

alopregnanolona

↓

se a enzima trabalha menos

↓

mais alopregnanolona

↓

maior ativação do receptor GABA-A

↓

efeito analgésico.

É uma hipótese interessante, mas não comprovada.

O que este artigo NÃO mostrou

É importante separar hipótese de evidência.

O estudo não demonstrou:

  • aumento da progesterona no tecido adiposo;
  • aumento da adipogênese em humanos;
  • que toda paciente com lipedema possui mutação em AKR1C1;
  • que corrigir AKR1C1 trate o lipedema.

Ele mostrou apenas uma associação genética em uma família e utilizou modelagem computacional para prever perda parcial de função.

Relação com as pesquisas atuais

Hoje sabemos que esse artigo abriu uma linha de investigação muito maior.

Nos anos seguintes apareceram estudos mostrando alterações em:

  • receptores de estrogênio;
  • aromatase (CYP19A1);
  • metabolismo intracrino do tecido adiposo;
  • matriz extracelular;
  • angiogênese;
  • vias inflamatórias.

Assim, atualmente a hipótese mais aceita não é que AKR1C1 isoladamente cause o lipedema, mas que ela possa fazer parte de uma rede de alterações hormonais e metabólicas.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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A maior dificuldade das pessoas que querem emagrecer

Hoje metade do mundo está fazendo algum tipo de dieta. Infelizmente as pessoas acreditam que o conceito de que calorias é uma equação simples e ganhamos peso porque consuminos mais calorias do que gastamos.

Um recente artigo revisita os dados do clássico Minnesota Starvation Experiment para explicar por que, depois de uma perda substancial de peso, o organismo:

  • reduz o gasto energético;
  • aumenta intensamente a fome;
  • recupera gordura mais rapidamente do que massa magra;
  • pode continuar estimulando a ingestão mesmo depois de a gordura perdida já ter sido recuperada;
  • e, por isso, frequentemente termina com mais gordura do que possuía antes do emagrecimento.

A tese de Abdul Dulloo é que esses fenômenos não representam simplesmente falta de disciplina ou “fracasso da dieta”. Eles fazem parte de um conjunto coordenado de adaptações fisiológicas, chamadas no artigo de “reações à fome”, que evoluíram para restaurar rapidamente as reservas corporais após períodos de escassez.

O organismo não regula apenas o peso total. Ele procura recuperar separadamente:

  1. a massa de gordura;
  2. a massa livre de gordura, especialmente tecidos magros;
  3. a relação entre esses compartimentos.

Quando a recuperação de gordura e massa magra ocorre em velocidades diferentes, pode haver hiperfagia persistente, recuperação preferencial de gordura e ultrapassagem do nível inicial de adiposidade.

2. O Minnesota Starvation Experiment

O experimento foi conduzido entre outubro de 1944 e novembro de 1945, na Universidade de Minnesota, sob liderança de Ancel Keys. Seu objetivo original era entender os efeitos físicos, psicológicos e metabólicos da fome e descobrir a melhor maneira de reabilitar populações submetidas à escassez alimentar durante a Segunda Guerra Mundial.

Participantes

Foram selecionados homens jovens, saudáveis, majoritariamente objetores de consciência. Dos voluntários originais, 32 completaram as principais fases analisadas.

Os participantes apresentavam ampla variação de gordura corporal inicial, aproximadamente entre 6% e 25%, mas nenhum tinha obesidade manifesta. Essa variabilidade permitiu investigar como a adiposidade inicial influenciava a resposta à perda e à recuperação do peso.

Fases do estudo

O experimento teve quatro momentos principais:

  1. Controle inicial — 12 semanas: estabilização do peso e determinação das necessidades energéticas individuais.
  2. Semifome — 24 semanas: dieta semelhante à consumida nas regiões europeias afetadas pela guerra, baseada em pão integral, batatas, cereais, nabo e repolho, com quantidades mínimas de carne e laticínios.
  3. Realimentação restrita — 12 semanas: os homens foram divididos em quatro níveis de ingestão calórica. Também foram testados suplementos de proteínas e vitaminas.
  4. Realimentação livre — 8 semanas: 12 participantes puderam comer à vontade, com registro rigoroso de toda a ingestão.

Os participantes permaneceram fisicamente ativos durante o estudo e viveram sob monitoramento contínuo.

Perda de peso

Durante as 24 semanas de semifome, os participantes perderam entre 19% e 28% do peso corporal, com perda média próxima de 24%.

A dieta e o estilo de vida eram rigidamente controlados, o que torna esse estudo excepcional. Um experimento semelhante dificilmente seria realizado hoje por razões éticas.

3. Principais observações do experimento

3.1 Redução profunda do metabolismo

O metabolismo basal médio caiu de aproximadamente 6,7 MJ/dia para 2,6 MJ/dia ao final da semifome.

Cerca de 65% dessa queda podia ser explicada pela redução do tamanho corporal e da quantidade de tecidos metabolicamente ativos. Os 35% restantes correspondiam a uma adaptação metabólica adicional.

Depois dos ajustes para gordura e massa livre de gordura, a redução adaptativa do metabolismo basal foi estimada em aproximadamente:

  • 10% após quatro semanas de semifome;
  • 20% após 12 semanas;
  • 25% após 24 semanas;
  • ainda cerca de 10% após 12 semanas de realimentação restrita.

Portanto, o metabolismo não retornava imediatamente ao normal quando a alimentação aumentava.

3.2 Hiperfagia prolongada

Quando os participantes passaram a comer livremente, apresentaram fome intensa e ingeriram grandes quantidades de alimentos.

Essa hiperfagia persistiu durante semanas, inclusive depois de o peso corporal médio já ter retornado ao valor anterior à fome. Ao final, os homens recuperaram mais peso do que haviam perdido, com uma ultrapassagem média de aproximadamente 3,3 kg de peso e 4,6 kg de gordura.

3.3 Recuperação mais rápida da gordura

A gordura frequentemente foi recuperada mais rapidamente do que a massa livre de gordura. O autor chama esse padrão de “preferential catch-up fat”, ou recuperação preferencial de gordura.

Em outras palavras, a composição corporal não retorna ao ponto inicial de maneira uniforme. A gordura pode atingir ou ultrapassar seu nível anterior enquanto a massa magra ainda permanece abaixo do normal.

4. A autorregulação da composição corporal

Dulloo propõe que a recuperação do peso é governada por vários sistemas de controle interligados. Eles utilizariam uma espécie de “memória” da composição corporal anterior à privação.

Essa memória não precisa ser entendida como um registro consciente ou um ponto fixo literal. Trata-se de mecanismos fisiológicos que respondem aos déficits de gordura e tecidos magros.

Os três componentes centrais do modelo são:

  1. controle da distribuição de energia entre gordura e proteína;
  2. termogênese adaptativa;
  3. controle da fome e da ingestão alimentar.

5. Distribuição de energia entre gordura e massa magra

O conceito de razão P

O artigo usa a chamada razão P para representar a proporção da energia corporal mobilizada ou armazenada na forma de proteína:

  • durante o emagrecimento, indica quanto da energia perdida veio das proteínas corporais;
  • durante a recuperação, indica quanto da energia depositada foi destinada à reconstrução de tecidos proteicos.

Uma razão P elevada significa maior participação de proteína ou massa magra. Uma razão baixa significa maior participação da gordura.

Uma característica relativamente estável do indivíduo

Os dados mostraram forte associação entre a razão P durante a semifome e durante a realimentação. Quem mobilizava proporcionalmente mais proteína durante o emagrecimento também tendia a depositar mais proteína na recuperação.

Isso sugere que a divisão de energia entre gordura e tecidos magros constitui uma característica relativamente conservada de cada pessoa.

Influência da gordura corporal inicial

A porcentagem inicial de gordura foi o principal preditor dessa distribuição:

  • indivíduos mais magros utilizaram proporcionalmente mais proteína durante a privação;
  • indivíduos com mais gordura conseguiram poupar mais proteína e mobilizar proporcionalmente mais gordura.

Mesmo dentro da faixa considerada saudável para homens jovens, pequenas diferenças de adiposidade estiveram associadas a diferenças de aproximadamente 2,5 a 3 vezes na razão P.

O autor denomina a porcentagem inicial de gordura — ou, mais precisamente, a relação inicial entre gordura e massa livre de gordura — uma “memória da partição”.

6. Duplo controle da termogênese adaptativa

O artigo distingue dois componentes da adaptação metabólica.

6.1 Termogênese não específica

É uma resposta relativamente rápida às mudanças na oferta de energia.

Durante a restrição alimentar, o organismo diminui o gasto energético. Quando a alimentação retorna, esse componente tende a se normalizar mais rapidamente e pode aumentar durante a hiperfagia.

O autor relaciona esse sistema principalmente ao sistema nervoso simpático e a órgãos com alto gasto metabólico, como fígado, rins e tecido adiposo marrom. Ele também pode responder a fatores como frio, infecções e deficiências nutricionais.

Sua função seria atenuar o desequilíbrio energético imediato.

6.2 Termogênese específica da gordura

O segundo componente responde mais lentamente ao estado das reservas adiposas.

Quanto maior o déficit de gordura, maior a supressão metabólica residual. Essa relação foi observada tanto durante o emagrecimento quanto durante a recuperação. Em contraste, a redução metabólica não apresentou relação significativa com o déficit de massa livre de gordura.

Assim, mesmo depois de aumentar a alimentação, o organismo pode continuar economizando energia enquanto a gordura não tiver sido recuperada.

A energia poupada por esse mecanismo seria direcionada preferencialmente para a reposição das reservas adiposas, acelerando a recuperação da gordura em relação à massa magra.

7. Controle da fome e do apetite

A reanálise do experimento mostrou que a hiperfagia durante as oito semanas de alimentação livre era determinada por três fatores:

  1. déficit de gordura corporal;
  2. déficit de massa livre de gordura;
  3. intensidade da restrição energética anterior.

Juntos, esses fatores explicavam aproximadamente 80% da variação individual da hiperfagia.

O déficit de gordura foi o determinante mais forte, mas o déficit de massa magra também exerceu influência independente.

Isso amplia a visão lipostática tradicional, segundo a qual a fome de longo prazo seria controlada principalmente pelas reservas adiposas. O modelo de Dulloo propõe dois sinais simultâneos:

  • um sistema adipostático, relacionado à gordura;
  • um sistema proteinostático, relacionado à massa livre de gordura.

A fome compensatória teria a função de fornecer energia suficiente para recuperar ambos os compartimentos.

8. “Engorda colateral” e ultrapassagem da gordura inicial

Este é um dos conceitos mais importantes do artigo.

Como ocorre

Durante a recuperação:

  1. o metabolismo permanece parcialmente suprimido;
  2. a fome aumenta em resposta aos déficits de gordura e massa magra;
  3. a gordura é recuperada mais rapidamente;
  4. a massa magra continua abaixo do nível inicial;
  5. o déficit residual de massa magra mantém o estímulo para comer;
  6. como a alimentação não produz exclusivamente tecido magro, mais gordura continua sendo depositada.

O autor chama essa deposição adicional de gordura, necessária ou concomitante à tentativa de restaurar a massa magra, de “collateral fattening” — engorda colateral.

A hiperfagia só diminuiu quando a massa livre de gordura se aproximou da recuperação completa. Nesse momento, entretanto, a gordura já havia ultrapassado o valor inicial.

Quem apresentou maior ultrapassagem?

“Entre os participantes, o excesso de gordura recuperada variou aproximadamente entre 1 e 10 kg. A magnitude foi inversamente relacionada à adiposidade inicial: quanto mais magro o indivíduo antes da restrição, maior a tendência de ultrapassar sua gordura inicial durante a recuperação. Isso acontece porque uma mesma perda proporcional de peso representa depleção mais grave das reservas de gordura e massa magra em uma pessoa inicialmente magra. Vejo o mesmo resultado nas mulheres com lipedema. As que tem pouca gordura e fazem dietas restritivas pagam um preço mais alto pela restrição. Não recomendo restrição alimentar para ninguém.”  – Avalia o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Conclusão

A mensagem central é que a recuperação de peso após restrição energética constitui uma resposta biológica organizada. O organismo combina economia de energia, aumento da fome e controle da distribuição entre gordura e massa magra para restaurar a capacidade de sobrevivência.

Esses mecanismos foram vantajosos em um ambiente marcado por períodos recorrentes de fome, mas podem tornar-se desfavoráveis no ambiente atual, no qual alimentos são abundantes. Eles ajudam a explicar a recuperação de peso após dietas, o efeito sanfona, a rápida recuperação de gordura depois da desnutrição e parte da predisposição à obesidade.

A contribuição mais original do artigo é mostrar que a fome após o emagrecimento não parece responder apenas ao déficit de gordura. O déficit de massa magra também pode manter o impulso para comer. Quando a gordura é recuperada antes da massa magra, a continuação dessa fome produz engorda colateral e pode levar a um nível de gordura superior ao inicial.

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Todo café faz bem?

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(imagem freepik)

Um recente estudo investigou se diferentes tipos de preparo de café se associam de forma diferente ao envelhecimento biológico.

A pergunta prática foi:

Café instantâneo e café filtrado têm a mesma relação com marcadores de envelhecimento biológico?

A resposta encontrada foi: não.

No estudo, o café filtrado foi associado a sinais de envelhecimento biológico mais lento, enquanto o café instantâneo foi associado a marcadores de envelhecimento biológico mais acelerado.

2. Por que o estudo é importante?

O café é uma das bebidas mais consumidas do mundo. Muitos estudos já associaram o consumo de café a menor risco de algumas doenças crônicas, inflamação, estresse oxidativo, diabetes tipo 2, cânceres e mortalidade geral. Porém, os autores destacam que poucos trabalhos avaliaram especificamente envelhecimento biológico, e menos ainda separaram o tipo de café: instantâneo, filtrado ou outros métodos.

Esse ponto é importante porque “café” não é uma substância única. O método de preparo pode mudar a concentração de compostos bioativos, como ácidos clorogênicos, diterpenos, antioxidantes e outros componentes potencialmente relevantes para metabolismo, inflamação e envelhecimento.

3. População estudada

O estudo usou dados do UK Biobank, uma grande base populacional do Reino Unido. A amostra final incluiu 49.414 adultos, com média de idade de 56,39 anos. Do total, 44,3% eram mulheres e 91,1% eram da Inglaterra.

Os participantes apresentavam uma carga importante de comorbidades: aproximadamente 64,9% tinham hipertensão, 28,7% doença cardiovascular, 10,7% câncer e 5,8% diabetes. O consumo médio diário foi de 1,47 xícara de café instantâneo, 0,71 xícara de café filtrado e 0,03 xícara de outros tipos de café.

Para chegar aos 49.414 participantes, os autores excluíram indivíduos sem dados necessários para calcular os marcadores de envelhecimento, sem questionários dietéticos completos, com menos de três recordatórios alimentares preenchidos ou com dados ausentes de covariáveis.

4. Como o envelhecimento biológico foi medido?

Os autores usaram três marcadores:

1. rLTL — relative leukocyte telomere length

É o comprimento relativo dos telômeros dos leucócitos. Telômeros tendem a encurtar com divisões celulares e são usados como marcador de envelhecimento celular.

2. KDM-BA Accel

É a aceleração da idade biológica pelo método Klemera-Doubal. Integra variáveis como função pulmonar, pressão sistólica, albumina, fosfatase alcalina, ureia, creatinina, PCR, hemoglobina glicada e colesterol.

3. PhenoAge Accel

É uma medida de aceleração da idade fenotípica, derivada de biomarcadores clínicos relacionados a risco de mortalidade, como albumina, creatinina, PCR, glicose e índices hematológicos.

Os autores destacam que KDM-BA e PhenoAge tendem a predizer melhor morbidade e mortalidade do que o comprimento telomérico isoladamente, por isso a combinação dos três marcadores permite uma avaliação mais abrangente do envelhecimento.

5. Como o café foi avaliado?

Os participantes responderam questionários alimentares sobre o consumo de diferentes tipos de café. O estudo separou principalmente:

café instantâneo,
café filtrado,
outros tipos de café.

Também foram consideradas informações como café descafeinado, café com leite, café adoçado e uso de adoçantes artificiais. Participantes que completaram apenas um dos três recordatórios foram excluídos; quando havia múltiplos recordatórios, os autores usaram a média de consumo como estimativa.

6. Ajustes estatísticos

O modelo ajustado considerou muitos potenciais fatores de confusão, incluindo idade, sexo, raça/etnia, educação, região geográfica, índice de privação socioeconômica de Townsend, tabagismo, álcool, atividade física, IMC, hipertensão, doença cardiovascular, diabetes, câncer e características do café, como açúcar, adoçante, leite e descafeinado.

Isso é importante porque pessoas que tomam café filtrado podem ter perfil socioeconômico, estilo de vida e hábitos alimentares diferentes de pessoas que tomam café instantâneo.

7. Principais resultados

Café instantâneo

Depois dos ajustes, o café instantâneo foi associado a maior aceleração da idade biológica.

Para KDM-BA Accel, em comparação com quem não consumia café, os coeficientes foram:

0–1 xícara/dia: β = 0,050
1–3 xícaras/dia: β = 0,092
>3 xícaras/dia: β = 0,166
com tendência significativa (P-trend = 0,002).

Para PhenoAge Accel, o padrão foi semelhante, especialmente em consumo acima de 3 xícaras/dia, com β = 0,190. Para rLTL, o café instantâneo foi associado a valores menores de comprimento telomérico relativo em algumas categorias.

Em termos práticos, o efeito do café instantâneo foi estatisticamente significativo, mas os autores reconhecem que a magnitude individual foi pequena, cerca de 0,1–0,2 ano de aceleração. Eles argumentam que isso pode ser pouco relevante individualmente, mas potencialmente importante em nível populacional, considerando milhões de consumidores.

Café filtrado

O café filtrado mostrou associação oposta.

Em comparação com não consumidores, o consumo de café filtrado foi associado a menor KDM-BA Accel:

0–1 xícara/dia: β = -0,326
1–3 xícaras/dia: β = -0,762
>3 xícaras/dia: β = -1,118
com tendência altamente significativa (P-trend <0,001).

Também houve associação com menor PhenoAge Accel:

0–1 xícara/dia: β = -0,317
1–3 xícaras/dia: β = -0,735
>3 xícaras/dia: β = -0,941.

Para rLTL, o café filtrado foi associado a maior comprimento telomérico relativo nas categorias de menor e médio consumo, embora o resultado para >3 xícaras/dia tenha intervalo de confiança cruzando zero.

Outros tipos de café

Os autores não encontraram associações significativas entre “outros tipos de café” e os marcadores de envelhecimento biológico.

8. Análises de subgrupos

Alguns efeitos foram mais evidentes em subgrupos.

O consumo de >3 xícaras/dia de café instantâneo foi associado a maior KDM-BA Accel especialmente em pessoas com ≥60 anos, homens e fumantes atuais. Para PhenoAge Accel, o aumento foi observado principalmente em pessoas com IMC <30 e fumantes atuais.

Já para café filtrado, o consumo de >3 xícaras/dia foi associado a menor KDM-BA Accel mais fortemente em homens do que em mulheres.

9. Análises de sensibilidade

Os autores fizeram várias análises para testar a robustez dos achados.

Os resultados permaneceram semelhantes após excluir participantes com doença cardiovascular, câncer ou diabetes; após excluir consumidores de café com açúcar, adoçantes artificiais, descafeinado ou leite; e após ajuste adicional pela ingestão calórica total.

Eles também fizeram análise de E-value, uma técnica para estimar o quanto um confundidor não medido precisaria ser forte para explicar a associação. Para café filtrado, os valores sugeriram maior robustez, especialmente para KDM-BA e PhenoAge. Para café instantâneo, a robustez foi menor, mas ainda presente.

10. Análise de mediação

Os autores avaliaram se alguns marcadores metabólicos ou inflamatórios poderiam mediar a relação entre café e envelhecimento biológico.

Os mediadores principais foram:

BMR — basal metabolic rate, ou taxa metabólica basal;
GlycA, marcador inflamatório relacionado a proteínas de fase aguda glicadas;
Cystatin C, marcador associado à função renal.

Para o café filtrado, parte da associação com menor envelhecimento biológico foi mediada por BMR e Cystatin C. Para KDM-BA Accel, as proporções mediadas foram 16,72% para BMR e 14,24% para Cystatin C. Para PhenoAge Accel, BMR mediou 2,85% e Cystatin C 17,97%.

A GlycA mediou parte importante das associações tanto para café instantâneo quanto para café filtrado. No caso do café instantâneo, GlycA mediou 34,62% da associação com KDM-BA Accel e 24,59% com PhenoAge Accel.

Os autores destacam que BMR, GlycA e Cystatin C mediaram os efeitos em KDM-BA e PhenoAge, mas não em rLTL. Isso sugere que os diferentes marcadores de envelhecimento capturam dimensões distintas: KDM-BA e PhenoAge refletem mais o envelhecimento fenotípico sistêmico, enquanto rLTL reflete uma dimensão celular mais específica.

11. Possíveis mecanismos

Os autores sugerem que as diferenças entre café filtrado e instantâneo podem refletir diferenças na composição química e no processamento.

O café filtrado pode preservar ou oferecer um perfil mais favorável de compostos bioativos, como ácidos clorogênicos, além de envolver remoção de diterpenos dependendo do método de preparo. Esses compostos podem influenciar metabolismo energético, inflamação, função renal e marcadores clínicos ligados à idade biológica.

Eles também especulam que a maior presença de ácidos clorogênicos no café filtrado poderia contribuir para melhora da vitalidade celular, metabolismo energético e proteção hepatorrenal, embora essa interpretação seja mecanística e não prove causalidade.

Já no café instantâneo, o processamento industrial pode alterar a composição bioativa, reduzir compostos protetores ou aumentar componentes potencialmente desfavoráveis. O estudo não prova exatamente qual composto seria responsável.

12. Limitações importantes

A principal limitação é que se trata de um estudo observacional e transversal. Portanto, ele mostra associação, mas não prova que café instantâneo causa envelhecimento acelerado ou que café filtrado causa envelhecimento mais lento. Os próprios autores afirmam que a análise de mediação, por usar desenho observacional, não consegue garantir ausência de confundidores não medidos nem estabelecer temporalidade.

Outra limitação é o risco de confusão residual. O método de preparo do café pode estar associado a nível socioeconômico, estilo de vida, alimentação, escolaridade e consciência de saúde. Embora o estudo tenha ajustado muitos fatores, não é possível excluir completamente confundimento residual.

Além disso, o consumo de café foi autorreferido, o que pode gerar erro de memória e imprecisão. A população era predominantemente branca/europeia, limitando a extrapolação para populações mais diversas. Os autores também reconhecem que as ferramentas atuais de gerociência ainda não capturam toda a complexidade multidimensional do envelhecimento biológico.

13. Interpretação prática

A leitura mais prudente é:

café filtrado parece estar associado a um perfil mais favorável de envelhecimento biológico do que café instantâneo, mas isso ainda não prova causalidade.

O estudo sugere que, do ponto de vista populacional, pode fazer sentido preferir café filtrado ao café instantâneo, especialmente quando a pessoa consome café diariamente. Os autores concluem que o café filtrado pode ter benefícios potenciais para mitigar o processo de envelhecimento, enquanto o café instantâneo pode exacerbar marcadores de envelhecimento.

Conclusão final

“ Este estudo mostra que o tipo de café importa. Na amostra do UK Biobank, o café filtrado foi associado a menor aceleração da idade biológica e maior comprimento telomérico relativo, enquanto o café instantâneo foi associado a maior aceleração da idade biológica e menor rLTL em algumas análises. A hipótese dos autores é que isso pode envolver diferenças em compostos bioativos, metabolismo energético, inflamação sistêmica e função renal, refletidas por BMR, GlycA e Cystatin C. Mas a mensagem científica precisa ser cautelosa: não é prova de que café instantâneo envelhece ou de que café filtrado rejuvenesce. É uma associação observacional forte o suficiente para levantar hipótese e orientar futuras pesquisas.”  – finaliza o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

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