Close-up, alarm clock on a blurred food background.

Comer em horários muito diferentes durante a semana pode aumentar o risco cardiovascular?

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Durante muito tempo, quando falávamos em alimentação saudável, a maior parte da discussão girava em torno de duas perguntas:

o que comer?  e quanto comer?

 

Nos últimos anos, porém, uma terceira pergunta ganhou espaço:

quando comer?

Um estudo publicado em 2026 na Communications Medicine, utilizando dados da grande coorte francesa NutriNet-Santé, avaliou justamente isso. Os pesquisadores investigaram se a diferença entre os horários das refeições nos dias úteis e nos fins de semana — o chamado “eating jetlag” — poderia estar relacionada ao risco cardiovascular.

O que é eating jetlag?

O conceito é parecido com o conhecido social jetlag, que ocorre quando uma pessoa dorme e acorda em horários muito diferentes durante a semana e no fim de semana.

No eating jetlag, a diferença está nos horários da alimentação.

Imagine alguém que, de segunda a sexta, faz a primeira refeição às 7h e termina de comer por volta das 19h, mas aos sábados e domingos começa a comer às 10h e termina às 22h.

Mesmo que a qualidade da alimentação seja semelhante, o organismo está recebendo alimento em horários bastante diferentes.

Os pesquisadores calcularam o ponto médio da janela alimentar entre a primeira e a última ingestão do dia e compararam esse horário entre dias úteis e fins de semana. Quanto maior a diferença, maior o eating jetlag.

Mais de 100 mil pessoas acompanhadas

O estudo analisou 104.806 adultos, sendo 79% mulheres, com idade média de 42,7 anos.

Os participantes foram acompanhados por uma mediana de 8,1 anos, totalizando mais de 814 mil pessoas-ano de acompanhamento.

Durante esse período ocorreram:

  • 2.368 eventos cardiovasculares;
  • 1.270 eventos coronarianos;
  • 1.098 eventos cerebrovasculares.

A alimentação foi avaliada por registros de 24 horas repetidos, com informação detalhada sobre alimentos, quantidades e horários das refeições. Em média, cada participante forneceu 5,8 registros alimentares.

O principal resultado apareceu nos homens

Na população masculina, cada 1 hora adicional de eating jetlag esteve associada a aproximadamente:

14% maior risco de doença cardiovascular
e
21% maior risco de doença coronariana.

Essas associações permaneceram mesmo depois de ajustes para diversos fatores, incluindo IMC, ingestão energética, qualidade da dieta, atividade física, tabagismo, álcool e horários médios das refeições.

Quando os pesquisadores incluíram também informações sobre horário de dormir e duração do sono, o resultado continuou presente nos homens.

Nas mulheres, porém, não foi identificada associação estatisticamente significativa entre eating jetlag e eventos cardiovasculares.

Isso é importante: o estudo não demonstra que o fenômeno tenha o mesmo impacto em homens e mulheres.

Não foi apenas comer mais tarde

Um dos aspectos mais interessantes foi que o risco não pareceu depender apenas de atrasar as refeições no fim de semana.

Os participantes foram classificados em três grupos:

Maintenance: diferença de até 1 hora entre dias úteis e fins de semana;

Advance: refeições mais de 1 hora mais cedo no fim de semana;

Delay: refeições mais de 1 hora mais tarde.

Nos homens, em comparação com aqueles que mantinham horários relativamente constantes, o grupo que antecipava as refeições apresentou:

44% maior risco cardiovascular
e
68% maior risco de doença coronariana.

Entre os que atrasavam as refeições, também houve aumento do risco de doença coronariana, de aproximadamente 36%.

Esse resultado sugere que o ponto central talvez não seja simplesmente “comer cedo” ou “comer tarde”.

Pode ser a instabilidade do horário alimentar.

O corpo pode interpretar isso como um pequeno fuso horário semanal

A alimentação funciona como um importante sinalizador temporal para os relógios biológicos periféricos.

Fígado, tecido adiposo, pâncreas, músculo e outros órgãos apresentam ritmos circadianos próprios, que são influenciados pelo horário das refeições.

Quando o horário da alimentação muda repetidamente, pode ocorrer uma espécie de dessincronização entre:

  • sono;
  • luz;
  • atividade;
  • alimentação;
  • relógios periféricos.

O estudo não mediu diretamente esses mecanismos, mas essa é uma das principais hipóteses biológicas discutidas pelos autores.

O resultado não pareceu ser explicado apenas pela qualidade da dieta

Os modelos estatísticos consideraram:

  • padrão alimentar saudável;
  • padrão alimentar ocidental;
  • ingestão energética;
  • IMC;
  • número de refeições;
  • horário médio da primeira refeição;
  • horário médio da última refeição.

Mesmo após esses ajustes, a associação permaneceu nos homens.

Isso sugere que regularidade alimentar pode carregar informação adicional além da qualidade da dieta.

Mas isso não significa que o horário seja mais importante do que aquilo que se come.

O estudo não compara o impacto relativo de eating jetlag com fatores clássicos como:

  • LDL elevado;
  • hipertensão;
  • diabetes;
  • tabagismo;
  • sedentarismo.

Portanto, seria um erro transformar o horário da refeição no principal determinante do risco cardiovascular.

A primeira refeição também chamou atenção

Em uma análise adicional, os pesquisadores dividiram os participantes de acordo com o horário da primeira ingestão do dia.

A mediana era 8h02.

A associação entre eating jetlag e eventos cardiovasculares apareceu principalmente entre aqueles que faziam a primeira refeição mais tarde.

Isso sugere que a combinação de:

alimentação mais tardia + horários irregulares

pode ser particularmente relevante.

Mas essa análise é exploratória. O estudo não permite afirmar que tomar café da manhã antes das 8h seja protetor.

E o sono?

Uma dúvida óbvia seria:

“essas pessoas não estão apenas dormindo em horários diferentes?”

Os pesquisadores tentaram separar os dois fenômenos.

Eles ajustaram os resultados para:

  • horário de dormir;
  • duração total do sono;
  • social jetlag.

As associações nos homens permaneceram.

Eating jetlag e social jetlag estavam relacionados, mas a correlação foi relativamente baixa, de aproximadamente 0,23.

Isso sugere que os dois fenômenos se sobrepõem apenas parcialmente.

Existe um limite de segurança?

A análise de dose-resposta mostrou um possível platô do risco a partir de aproximadamente 1,5 hora de eating jetlag.

Mas isso não deve ser interpretado como um corte clínico.

O estudo tinha poucos participantes com diferenças muito grandes de horário, e os próprios autores reconhecem que isso pode explicar o formato da curva.

Portanto, não existe base para dizer que:

“até 1 hora e 29 minutos é seguro.”

O conceito é muito mais simples:

quanto mais regular o padrão alimentar, menor tende a ser a dessincronização temporal.

secundários.

O que podemos levar para a prática?

“Este grande estudo prospectivo sugere que maior diferença no horário das refeições entre dias úteis e fins de semana está associada a maior risco cardiovascular e coronariano, principalmente em homens. Ainda não podemos afirmar que tornar os horários mais regulares previna infarto ou outras doenças cardiovasculares. Para isso, seriam necessários estudos de intervenção. Mas o artigo reforça um conceito cada vez mais relevante na medicina metabólica: não importa apenas o que você come. O organismo também percebe quando você come. E talvez exista uma terceira dimensão que estamos começando a compreender melhor: a previsibilidade com que você alimenta o seu relógio biológico.” – Analisa o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

 

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