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Quanto você pesa? Será que isso é importante?

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Um recente estudo investigou se a quantidade e a distribuição da massa muscular e da gordura corporal, medidas por absorciometria de raios X de dupla energia (DXA), estavam associadas ao risco de morte em idosos brasileiros.

A conclusão central foi que:

  • A baixa massa muscular apendicular esteve fortemente associada à mortalidade em homens e mulheres.
  • Nos homens, maior quantidade de gordura visceral aumentou o risco de morte.
  • Ainda nos homens, maior massa de gordura corporal total apresentou associação inversa com a mortalidade, sugerindo um possível efeito protetor.
  • Nas mulheres, depois dos ajustes estatísticos, as medidas de gordura não foram preditores independentes de mortalidade; a baixa massa muscular foi o componente corporal predominante.
  • A associação entre massa muscular e mortalidade foi particularmente forte quando a massa muscular foi ajustada pela quantidade de gordura corporal, utilizando o método de Newman.

Em termos clínicos, o artigo mostra que o peso corporal ou o IMC isoladamente não descrevem adequadamente o risco associado à composição corporal do idoso. Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter riscos muito diferentes dependendo da quantidade de músculo e da localização da gordura.

Contexto e justificativa

O envelhecimento costuma produzir uma combinação de:

  • redução progressiva da massa muscular;
  • aumento proporcional da gordura corporal;
  • redistribuição da gordura para a região abdominal;
  • redução da água corporal;
  • perda de força e capacidade funcional.

Essas alterações são difíceis de identificar apenas pelo peso, IMC, circunferências corporais ou pregas cutâneas. Uma pessoa idosa pode, por exemplo, manter o mesmo peso enquanto perde músculo e acumula gordura visceral.

Os autores destacam que os estudos anteriores apresentavam resultados contraditórios. Algumas pesquisas associavam baixa massa muscular à mortalidade, enquanto outras não encontravam relação independente. Da mesma forma, a gordura corporal foi descrita tanto como fator de risco quanto como possível fator protetor em idosos.

Parte dessas divergências poderia decorrer de:

  • diferentes métodos de avaliação corporal;
  • definições distintas de baixa massa muscular;
  • combinação de participantes jovens e idosos na mesma análise;
  • uso de medidas imprecisas, como antropometria ou bioimpedância;
  • ausência de distinção entre gordura visceral e gordura subcutânea.

A DXA foi escolhida porque permite estimar, com boa precisão e baixa exposição à radiação, a massa magra apendicular, a gordura corporal total e a gordura visceral.

Objetivo

O objetivo foi verificar a associação entre parâmetros de composição corporal medidos por DXA e:

  1. mortalidade por todas as causas;
  2. mortalidade cardiovascular.

Os pesquisadores avaliaram especialmente:

  • massa magra apendicular;
  • diferentes definições de baixa massa muscular;
  • índice de massa de gordura;
  • gordura visceral medida como massa, área e volume.

Desenho e população do estudo

Trata-se de uma análise prospectiva da coorte São Paulo Ageing & Health Study — SPAH.

A coorte original incluiu 1.025 pessoas com 65 anos ou mais, recrutadas entre 2005 e 2007 no distrito do Butantã, em São Paulo. Foram sorteados 66 setores censitários, e os pesquisadores identificaram os idosos residentes nessas áreas.

Foram incluídos idosos residentes na comunidade considerados funcionalmente independentes, isto é, capazes de comparecer ao centro de pesquisa e realizar atividades básicas da vida diária.

Para a análise final:

  • foram avaliados 839 participantes;
  • 516 eram mulheres;
  • 323 eram homens;
  • a idade mínima era de 65 anos;
  • 132 participantes morreram durante o acompanhamento;
  • 707 permaneceram vivos;
  • 168 integrantes da coorte original não puderam ser localizados;
  • 18 foram excluídos por ausência de dados laboratoriais ou de DXA no início do estudo.

O tempo médio de acompanhamento foi de 4,06 ± 1,07 anos, com variação aproximada de 0,2 a 6,5 anos.

Avaliação da composição corporal

A composição corporal foi medida no início do estudo com equipamento DXA Hologic QDR 4500A. Todas as avaliações foram realizadas pelo mesmo técnico experiente.

Massa muscular

A massa magra apendicular correspondia à soma da massa magra dos braços e das pernas. Foram utilizados três indicadores:

  1. Índice de massa magra apendicular — ALMI
    Calculado como:
    \[ ALMI = \frac{\text{massa magra apendicular em kg}}{\text{altura em m}^2} \]
  2. Baixa massa muscular segundo o EWGSOP2
    Classificação baseada nos pontos de corte recomendados pelo consenso europeu sobre sarcopenia.
  3. Baixa massa muscular pelo método de Newman
    Esse método estima quanto de massa muscular seria esperado para uma pessoa considerando simultaneamente sua altura e sua massa de gordura.
    A diferença entre a massa magra apendicular real e a esperada é chamada de resíduo:
    \[ resíduo = ALM_{\text{real}} – ALM_{\text{esperada}} \]Um resíduo muito negativo indica que a pessoa possui menos músculo do que seria esperado para sua estatura e quantidade de gordura.

Gordura corporal

Foram analisados:

  • massa de gordura total em quilogramas;
  • percentual de gordura corporal;
  • índice de massa de gordura, ou FMI;
  • massa de gordura visceral;
  • área de gordura visceral;
  • volume de gordura visceral.

Resultados gerais

Durante o acompanhamento ocorreram:

  • 132 mortes entre 839 participantes, correspondendo a 15,7%;
  • 57 mortes cardiovasculares, equivalentes a 43,2% de todos os óbitos;
  • 75 mortes por causas não cardiovasculares.

As causas não cardiovasculares não foram analisadas separadamente, como câncer ou infecção, porque o número de eventos em cada categoria seria pequeno.

Resultados nos homens

Entre os 323 homens:

  • 65 morreram;
  • 258 permaneceram vivos.

Na comparação inicial, os homens que morreram eram, em média:

  • mais velhos;
  • menos ativos fisicamente;
  • mais frequentemente diabéticos;
  • mais propensos a quedas recorrentes;
  • mais propensos a eventos cardiovasculares prévios;
  • portadores de menor densidade mineral óssea no fêmur;
  • portadores de menores concentrações de albumina, cálcio e vitamina D;
  • portadores de maior concentração de fósforo.

Em relação à composição corporal, os homens que morreram apresentavam:

  • frequência muito maior de baixa massa muscular pelo método de Newman: 58,5% versus 18,6%;
  • menor índice de massa de gordura;
  • tendência a maior quantidade de gordura visceral;
  • ausência de diferença significativa no ALMI médio;
  • ausência de diferença significativa na baixa massa muscular definida pelo EWGSOP2.

Essa diferença é importante: a simples divisão da massa muscular pela altura não discriminou adequadamente os homens que morreram. A classificação que também considerava a gordura corporal teve desempenho muito melhor.

Mortalidade por todas as causas nos homens

Depois do ajuste para fatores clínicos, laboratoriais e densidade óssea:

  • A baixa massa muscular pelo método de Newman aumentou o risco de morte por qualquer causa em aproximadamente 11 vezes:
    OR 11,36; IC95% 2,21–58,37; p = 0,004.
  • Cada aumento de 100 g de gordura visceral foi associado a aproximadamente o dobro do risco:
    OR 1,99; IC95% 1,38–2,87; p < 0,001.
  • Cada aumento de 1 kg/m² no índice de massa de gordura foi associado a aproximadamente 52% menos risco:
    OR 0,48; IC95% 0,33–0,71; p < 0,001.

A associação da gordura visceral permaneceu presente quando ela foi expressa como massa, área ou volume.

Mortalidade cardiovascular nos homens

Os resultados foram semelhantes:

  • baixa massa muscular: aproximadamente 14 vezes mais risco de morte cardiovascular, segundo a descrição principal dos autores;
  • gordura visceral: aumento significativo do risco, com OR 1,66 por 100 g;
  • FMI: redução do risco, com OR 0,57 por aumento de 1 kg/m².

Em alguns modelos apresentados na tabela, o diabetes também permaneceu associado à mortalidade cardiovascular, com OR próximo de 3,8.

Resultados nas mulheres

Entre as 516 mulheres:

  • 67 morreram;
  • 449 permaneceram vivas.

As mulheres que morreram eram:

  • mais velhas;
  • menos ativas fisicamente;
  • mais frequentemente diabéticas;
  • mais propensas a eventos cardiovasculares prévios;
  • portadoras de menor IMC;
  • portadoras de pior função renal;
  • portadoras de menor densidade mineral óssea no fêmur;
  • portadoras de maior concentração de paratormônio.

Quanto à composição corporal, as mulheres que morreram apresentavam:

  • ALMI significativamente menor: 6,76 versus 7,71 kg/m²;
  • baixa massa muscular pelo método de Newman em 86,6% versus 11,8%;
  • baixa massa muscular pelo EWGSOP2 em aproximadamente 31,2% versus 7,1%;
  • menor gordura visceral nas análises não ajustadas;
  • FMI praticamente idêntico entre os grupos.

O achado de menor gordura visceral entre as mulheres que morreram desapareceu depois do controle dos demais fatores. Portanto, não foi considerado uma associação independente.

Mortalidade por todas as causas nas mulheres

No modelo multivariável, o principal parâmetro corporal foi a baixa massa muscular pelo método de Newman:

  • OR 62,88; IC95% 22,59–175,0; p < 0,001.

Também permaneceram associados:

  • idade: OR 1,07 por ano;
  • paratormônio: OR 1,02 por pg/mL;
  • baixo nível de atividade física: OR 4,86.

O intervalo de confiança muito amplo da baixa massa muscular — de aproximadamente 23 a 175 — mostra que a associação foi muito forte, mas sua magnitude exata é imprecisa, provavelmente pelo número relativamente pequeno de óbitos.

Mortalidade cardiovascular nas mulheres

A baixa massa muscular pelo método de Newman também esteve fortemente associada à mortalidade cardiovascular:

  • OR 74,54; IC95% 9,72–571,46; p < 0,001.

A idade também permaneceu no modelo:

  • OR 1,11 por ano.

Novamente, o intervalo de confiança extremamente amplo recomenda cautela na interpretação da magnitude.

Outras definições de massa muscular

Quando o método de Newman foi substituído por outros indicadores:

  • Cada aumento de 1 kg/m² no ALMI foi associado a menor mortalidade por todas as causas:
    OR 0,50; IC95% 0,37–0,67; p < 0,001.
  • Para mortalidade cardiovascular, o ALMI também foi protetor:
    OR 0,54; IC95% 0,35–0,84; p = 0,007.
  • A baixa massa muscular pelo EWGSOP2 esteve associada à mortalidade por todas as causas:
    OR 4,21; IC95% 1,80–9,87; p < 0,001.
  • Entretanto, essa definição não foi um preditor estatisticamente significativo de mortalidade cardiovascular:
    OR 2,25; IC95% 0,69–7,30; p = 0,17.

Assim, todas as abordagens apontaram na direção de maior risco com menor massa muscular nas mulheres, mas o método ajustado pela gordura apresentou a associação mais forte e consistente.

Conclusão

“ Ajustar a massa magra apendicular apenas pela altura pode não ser suficiente. Uma pessoa com obesidade pode apresentar uma massa muscular absoluta aparentemente normal, mas ainda ter pouco músculo para sustentar sua massa corporal. O método de Newman procura identificar essa “deficiência muscular relativa”. Isso explicaria por que ele foi mais sensível na identificação de idosos com risco elevado. A baixa massa muscular pode se relacionar à mortalidade por diversos mecanismos:menor reserva metabólica; pior resposta a doenças agudas; menor mobilidade; resistência à insulina; maior rigidez arterial; maior risco de quedas e incapacidade; associação com inflamação e doenças crônicas. Já a gordura visceral está associada a inflamação sistêmica; resistência à insulina; diabetes; dislipidemia; aterosclerose; maior risco cardiovascular.” – Concluio Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

 

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