Atividade física para a mulher com Lipedema.

Existe mulher mais saudável que uma mulher com lipedema?

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Atividade física para a mulher com Lipedema.

Um recente artigo investigou se mulheres com lipedema apresentam um perfil metabólico diferente de mulheres sem lipedema, mas com IMC semelhante.

A ideia central é importante: duas mulheres podem ter o mesmo IMC, mas distribuir gordura, responder à insulina e utilizar energia de formas diferentes. Os autores buscaram identificar uma “assinatura metabólica” do lipedema usando metabolômica por ressonância magnética nuclear, medidas corporais e, em uma subamostra, DXA.

1. Por que este estudo é relevante?

O lipedema costuma ser confundido com obesidade porque pode aumentar muito o peso corporal e o IMC. Porém, muitas pacientes têm padrão periférico de gordura, cintura relativamente preservada e menor acúmulo de gordura central do que seria esperado para o mesmo IMC.

Os autores chamam isso de “paradoxo metabólico do lipedema”: apesar do IMC elevado, várias pacientes apresentam sensibilidade à insulina relativamente preservada e menor risco metabólico do que controles com obesidade central.

O estudo tenta avançar além de marcadores isolados, como glicemia, colesterol ou triglicerídeos, e avaliar conjuntos de variáveis que podem refletir melhor a fisiologia do lipedema.

2. Desenho do estudo

Foi um estudo observacional transversal, ou seja, avaliou as participantes em um único momento.

Foram incluídas:

  • 24 mulheres pré-menopáusicas com lipedema clinicamente confirmado
  • 21 mulheres controles sem lipedema
  • Os grupos foram pareados aproximadamente por IMC.

Todas realizaram jejum de pelo menos 8 horas antes da coleta de sangue. Foram feitas avaliações clínicas, medidas corporais, exames laboratoriais e metabolômica por RMN. Uma subamostra pequena, de 12 mulheres, também realizou DXA para avaliar distribuição regional de gordura.

A metabolômica avaliou 153 variáveis, incluindo aminoácidos, corpos cetônicos, marcadores de glicólise, lipoproteínas e subclasses de VLDL, LDL e HDL.

3. Características das participantes

As mulheres com lipedema eram, em média, mais velhas: 41 anos versus 35,8 anos no grupo controle. Por isso, as análises principais foram ajustadas para idade.

O IMC foi semelhante entre os grupos:

  • Controles: 33,5 kg/m²
  • Lipedema: 36,8 kg/m²

Apesar disso, as mulheres com lipedema tinham:

  • menor circunferência abdominal;
  • menor circunferência cervical;
  • menor relação cintura-quadril;
  • menor relação cintura-altura.

A relação cintura-quadril foi de aproximadamente 0,75 no lipedema versus 0,86 nos controles, reforçando o padrão de maior acúmulo periférico/ginoide e menor adiposidade central.

A atividade física estimada por passos diários não foi diferente entre os grupos. Portanto, as diferenças observadas não parecem ser explicadas simplesmente por maior atividade física das pacientes com lipedema.

4. Insulina, resistência insulínica e o “lado protetor” do lipedema

Um dos achados mais relevantes foi que, mesmo com IMC semelhante, as mulheres com lipedema apresentaram:

  • menor insulina de jejum;
  • menor HOMA-IR;
  • perfil compatível com maior sensibilidade à insulina.

A insulina de jejum foi significativamente menor no grupo lipedema mesmo após ajuste para idade. O HOMA-IR também foi menor.

Isso apoia a ideia de que o tecido adiposo periférico, especialmente em pernas e quadris, pode ter comportamento metabolicamente menos prejudicial do que o acúmulo de gordura visceral e abdominal.

Os próprios autores sugerem que armazenar gordura predominantemente nas extremidades pode, em parte, reduzir o depósito ectópico de gordura no fígado e em órgãos viscerais, diminuindo lipotoxicidade e resistência insulínica.

Mas é fundamental interpretar isso com equilíbrio:

  • não significa que lipedema “protege” de todas as doenças;
  • não significa que toda paciente com lipedema tenha baixo risco metabólico;
  • obesidade central, sedentarismo, menopausa, resistência insulínica, hipertensão e genética continuam tendo grande importância.

O estudo apenas sugere que o padrão de distribuição da gordura importa muito mais do que o IMC isolado.

5. Principal achado metabólico: menor glicólise e maior sinal de corpos cetônicos

A metabolômica mostrou um padrão sugestivo de menor atividade glicolítica e maior sinal de uso de gordura como combustível.

Nas mulheres com lipedema, foram encontrados:

  • menor alanina;
  • menor lactato;
  • menor piruvato;
  • maior acetona;
  • maior 3-hidroxibutirato;
  • maior acetoacetato.

A alanina foi o metabólito com diferença mais consistente, permanecendo significativa após correção para múltiplas comparações.

Lactato e piruvato são produtos associados à glicólise, ou seja, ao uso de glicose como fonte de energia. Já acetona, acetoacetato e 3-hidroxibutirato são corpos cetônicos, geralmente aumentados quando há maior uso de ácidos graxos e menor disponibilidade relativa de carboidrato.

O padrão encontrado sugere, portanto, uma possível mudança metabólica em direção a:

menor dependência de glicose + maior utilização de gordura como substrato energético.

Os autores são cuidadosos: isso não prova que todas as mulheres com lipedema estejam “em cetose” ou que tenham metabolismo equivalente ao de uma dieta cetogênica. O estudo apenas encontrou um sinal metabólico em jejum compatível com maior oxidação de gordura.

6. Índices compostos: por que eles foram importantes?

Em vez de analisar cada marcador isoladamente, os pesquisadores criaram oito índices compostos, agrupando dados que refletem o mesmo domínio fisiológico.

Os principais índices foram:

  1. Distribuição de gordura
    Relação cintura-quadril, cintura-altura, razão tronco/pernas, razão android/ginoide etc.
  2. Quantidade total de gordura
    IMC, massa gorda total e massa gorda ajustada pela altura.
  3. Glicólise
    Lactato e piruvato.
  4. Corpos cetônicos
    3-hidroxibutirato e acetoacetato.
  5. Triglicerídeos/glicerol
  6. Aminoácidos de cadeia ramificada
  7. Aminoácidos aromáticos
  8. Perfil lipoproteico aterogênico
    Relações LDL/HDL, ApoB/ApoA1, VLDL e HDL.

Os índices com diferenças estatisticamente mais robustas entre lipedema e controles foram:

  • Índice de distribuição de gordura: efeito grande, Hedges g = 1,26;
  • Índice de glicólise: Hedges g = 0,74;
  • Índice de corpos cetônicos: Hedges g = 0,70.

Isso reforça que o lipedema parece ter uma assinatura composta por:

gordura mais periférica + menor sinal glicolítico + maior sinal de corpos cetônicos.

7. Resultados do DXA: gordura mais periférica

Na subamostra de DXA, foram comparadas 6 mulheres com lipedema e 6 controles, cuidadosamente pareadas por massa total de gordura.

Mesmo com quantidade total de gordura semelhante, as participantes com lipedema mostraram:

  • maior razão gordura de pernas/tronco ajustada pelo IMC;
  • maior proporção de gordura corporal localizada nas pernas;
  • menor razão gordura de tronco/pernas;
  • menor razão gordura de tronco/extremidades.

A Figura 3 do artigo ilustra bem esse padrão: o grupo lipedema concentra proporcionalmente mais gordura nas pernas e menos no tronco, independentemente da massa total de gordura.

Esse é um dado relevante porque confirma quantitativamente aquilo que é observado clinicamente: o lipedema não é apenas “mais gordura”, mas uma distribuição corporal diferente.

8. Perfil lipídico e risco cardiovascular

Os autores não encontraram diferença significativa no perfil lipoproteico global entre os grupos.

Não houve diferença relevante no índice lipoproteico aterogênico, nem em HDL, LDL ou triglicerídeos convencionais. Houve uma tendência a menor carga lipídica em algumas subfrações de VLDL no lipedema, mas isso não permaneceu significativo após correção estatística.

A conclusão é prudente:

O estudo não encontrou evidência de um perfil lipídico classicamente mais aterogênico nas mulheres com lipedema.

Isso não significa ausência de risco cardiovascular individual. Significa apenas que, nesse grupo pequeno e pareado por IMC, o lipedema não se associou a um padrão de lipoproteínas mais desfavorável do que o grupo controle.

9. A hipótese sobre fígado, gliconeogênese e metabolismo energético

Os autores discutem que alguns dos achados podem estar relacionados ao metabolismo hepático.

A alanina é importante no ciclo glicose-alanina e na gliconeogênese hepática. Menor alanina, associada a menor lactato/piruvato e maior presença de corpos cetônicos, poderia indicar alterações na forma como o fígado direciona substratos entre:

  • gliconeogênese;
  • produção de VLDL;
  • produção de corpos cetônicos;
  • oxidação de ácidos graxos.

A hipótese dos autores é que exista uma “reorganização” metabólica em jejum, com preferência relativa por oxidação de gordura.

No entanto, eles deixam claro que este estudo não consegue afirmar se isso representa:

  • uma adaptação metabólica funcional;
  • uma alteração metabólica patológica;
  • uma consequência indireta da fisiologia do tecido adiposo;
  • ou uma combinação desses fatores.

Ou seja, o artigo levanta uma hipótese interessante, mas não prova mecanismo causal.

10. O grande paradoxo: por que existe gordura resistente à perda se há maior uso de gordura como combustível?

O artigo aborda uma pergunta muito relevante na prática clínica:

Se o perfil metabólico sistêmico sugere maior uso de gordura, por que o tecido do lipedema permanece tão resistente à perda?

A resposta proposta é que o metabolismo sistêmico e o metabolismo local do tecido adiposo não são necessariamente iguais.

O tecido adiposo do lipedema pode apresentar:

  • adipócitos hipertrofiados;
  • fibrose;
  • inflamação crônica;
  • alterações microvasculares;
  • alterações linfáticas;
  • maior rigidez e resistência à mobilização de gordura local.

Assim, a paciente pode apresentar sinal sistêmico de maior oxidação de gordura, mas o tecido adiposo das pernas pode continuar biologicamente resistente à lipólise e à redução de volume.

Essa é uma explicação plausível para a clássica queixa de pacientes que emagrecem tronco, rosto, braços e cintura, mas têm pouca mudança proporcional no volume das pernas.

11. Relação com dieta low carb e cetogênica

“Os autores fazem uma discussão interessante sobre dietas com restrição de carboidratos.Dietas cetogênicas e low carb aumentam a oxidação de gordura e os corpos cetônicos, um padrão parecido com o que foi observado no jejum das pacientes com lipedema. Por isso, algumas pacientes respondem bem a protocolos com menor carga de carboidratos porque essas dietas poderiam reforçar uma preferência metabólica já existente. Mas não são todas as pacientes que devem fazer dieta cetogênica.” – Comenta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Conclusão do artigo

O estudo apoia a ideia de que o lipedema não deve ser entendido apenas como obesidade ou excesso de gordura.

Mesmo com IMC semelhante, as mulheres com lipedema apresentaram:

  • distribuição de gordura mais periférica;
  • menor acúmulo abdominal;
  • menor insulina de jejum;
  • menor HOMA-IR;
  • menor alanina, lactato e piruvato;
  • maior sinal de corpos cetônicos;
  • ausência de perfil lipoproteico global mais aterogênico.

O conjunto sugere que o lipedema possui um fenótipo metabólico próprio, possivelmente caracterizado por menor glicólise e maior utilização de gordura em jejum.

A mensagem mais importante do artigo é que o IMC não é suficiente para descrever risco metabólico ou fisiologia corporal em mulheres com lipedema.

Duas mulheres com o mesmo peso e IMC podem ter metabolismo, distribuição de gordura e riscos muito diferentes.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

 

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