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Antibiótico pode fazer mal?

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O microbioma intestinal tem papel central na regulação de diversos processos fisiológicos, incluindo metabolismo, imunidade e inflamação. Alterações nesse ecossistema microbiano estão associadas a diversas doenças, como:

  • obesidade
  • diabetes tipo 2
  • doenças cardiovasculares
  • câncer colorretal
  • doenças inflamatórias intestinais

Antibióticos são um dos principais fatores capazes de perturbar o microbioma intestinal, mas a maior parte dos estudos avaliou apenas efeitos de curto prazo.

Um recente estudo investigou se o uso de antibióticos pode alterar o microbioma intestinal por vários anos, utilizando dados populacionais e metagenômica fecal.

2. Desenho do estudo

População

O estudo analisou 14.979 adultos suecos, provenientes de três grandes coortes populacionais:

  • SCAPIS (Swedish Cardiopulmonary BioImage Study) – 8.488 indivíduos
  • SIMPLER – 4.784 indivíduos
  • Malmö Offspring Study (MOS) – 1.707 indivíduos

Dados utilizados

  1. Registro nacional de prescrições da Suécia
    • contém todos os antibióticos prescritos ambulatorialmente.
  1. Sequenciamento metagenômico fecal profundo
    • permitiu identificar a composição de espécies bacterianas do intestino.

Período analisado

Uso de antibióticos até 8 anos antes da coleta das fezes.

Os autores dividiram o tempo em três intervalos:

  • < 1 ano
  • 1–4 anos
  • 4–8 anos antes da coleta

3. Características da população

Entre os participantes:

  • 70–74% haviam usado antibióticos pelo menos uma vez nos 8 anos anteriores
  • os antibióticos mais prescritos foram:
  1. penicilina V
  2. penicilinas de espectro ampliado
  3. tetraciclinas

4. Principal achado: antibióticos reduzem a diversidade do microbioma

Os resultados mostraram que cada curso adicional de antibiótico reduziu a diversidade bacteriana intestinal.

Diversidade foi avaliada por três métricas:

  • Shannon index
  • Richness (número de espécies)
  • Inverse Simpson index

Resultado importante

Quanto maior o número de ciclos de antibióticos:

→ menor diversidade microbiana.

Esse efeito ocorreu em todos os períodos avaliados:

  • <1 ano
  • 1–4 anos
  • até 8 anos após o uso

5. Alguns antibióticos têm impacto muito maior

Os antibióticos mais associados a alterações do microbioma foram:

1️⃣ Clindamicina

Maior impacto observado.

Cada ciclo de clindamicina foi associado a:

  • redução média de 47 espécies bacterianas.

2️⃣ Fluoroquinolonas

3️⃣ Flucloxacilina

Esses três antibióticos foram responsáveis pela maior parte das alterações detectadas no microbioma.

6. Alterações persistem por anos

Um achado central do estudo foi:

➡ alterações no microbioma podem persistir até 8 anos após o uso do antibiótico.

Mesmo um único ciclo de antibiótico foi associado a mudanças detectáveis anos depois.

7. Recuperação do microbioma

Os autores modelaram a recuperação da microbiota ao longo do tempo.

Resultado

  • recuperação mais rápida nos primeiros 2 anos
  • depois disso, recuperação muito lenta

Isso sugere que:

parte das alterações pode ser permanente ou de muito longa duração.

8. Alterações em espécies bacterianas específicas

Antibióticos alteraram a abundância de centenas de espécies bacterianas.

Por exemplo:

  • clindamicina alterou 296 espécies
  • flucloxacilina alterou 203 espécies
  • fluoroquinolonas alteraram 172 espécies

Muitas dessas alterações foram reduções na abundância bacteriana.

9. Relação com doenças metabólicas

Espécies associadas ao uso de antibióticos também foram relacionadas a marcadores cardiometabólicos.

Algumas bactérias aumentadas após antibióticos estão associadas a:

  • maior IMC
  • triglicerídeos elevados
  • inflamação (PCR)
  • diabetes tipo 2

Exemplos:

  • Enterocloster bolteae
  • Eggerthella lenta
  • Ruminococcus gnavus

Por outro lado, espécies reduzidas pelos antibióticos estavam associadas a melhor perfil metabólico.

10. Associação com doenças intestinais

O estudo também mostrou relação com microrganismos associados a:

Doença inflamatória intestinal (IBD)

Espécies reduzidas por antibióticos também são frequentemente reduzidas em pacientes com IBD.

Câncer colorretal

Algumas espécies relacionadas ao câncer colorretal também foram influenciadas pelo uso de antibióticos.

11. Diferenças por sexo e idade

Foram observadas algumas variações:

  • efeitos mais fortes em mulheres para algumas espécies
  • diferenças entre indivíduos jovens e idosos

Isso pode refletir:

  • diferenças hormonais
  • farmacocinética dos antibióticos
  • composição basal do microbioma

12. Conclusão

“Os antibióticos podem alterar o microbioma por anos e  essas alterações dependem da classe do antibiótico. O microbioma pode não retornar completamente ao estado original. Esses efeitos podem contribuir para o aumento de risco de obesidade, diabetes, doença cardiovascular, doença inflamatória intestinal, câncer colorretal. O impacto dos antibióticos no microbioma intestinal pode ser muito mais duradouro do que se imaginava, reforçando a necessidade de uso criterioso desses medicamentos. As mulheres com lipedema devem tomar ainda mais cuidado pois a flora intestinal delas pode ser muito sensível.” – Alerta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

13. Limitações do estudo

Os autores destacam algumas limitações:

  • estudo observacional (não prova causalidade)
  • não foi possível identificar a infecção que motivou o antibiótico
  • dados de dose e duração do tratamento não foram analisados
  • microbioma foi medido apenas uma vez
  • resultados podem refletir padrões de prescrição suecos

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

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