Será que a luz do ambiente realmente importa?

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80–90% do tempo das pessoas é passado em ambientes internos, sob iluminação artificial, com baixa intensidade luminosa e espectro pobre.

Como a luz é o principal zeitgeber (sincronizador) do relógio biológico central (núcleo supraquiasmático), existe a hipótese de que a privação crônica de luz natural pode contribuir para:

  • desorganização circadiana periférica (músculo, fígado, pâncreas)
  • piora do metabolismo da glicose
  • piora da função mitocondrial

Em especial, indivíduos com diabetes tipo 2 já apresentam alterações conhecidas do relógio molecular muscular e metabólico.

Um recente estudo avaliou se, em condições controladas, a exposição à luz natural durante o expediente versus luz artificial típica de escritório modifica:

  • controle glicêmico contínuo
  • metabolismo de substratos
  • secreção de melatonina
  • relógio molecular do músculo esquelético
  • perfil multi-ômico sanguíneo

em indivíduos com diabetes tipo 2.

🧪 Desenho do estudo

  • Ensaio randomizado, cruzado (crossover)
  • Registro clínico: NCT05263232
  • Amostra: 13 indivíduos com DM2
    • 8 mulheres, 5 homens
    • idade média: 70 anos
    • IMC médio: 30,1 kg/m²
    • 11 em uso de medicação antidiabética

Cada participante foi exposto a:

  • 4,5 dias de luz natural por janelas (durante 8h–17h)
  • 4,5 dias de luz artificial constante (~300 lux)

com washout ≥ 4 semanas.

Todos os demais fatores foram rigorosamente padronizados:

  • dieta
  • horários de sono
  • atividade física
  • temperatura ambiental
  • exposição à luz fora do protocolo (uso de óculos bloqueadores de azul)

💡 Características da exposição luminosa

A luz natural apresentou:

  • maior intensidade luminosa
  • espectro contínuo ao longo de todo o visível
  • variação dinâmica ao longo do dia

A luz artificial apresentou:

  • espectro com picos típicos de LED/fluorescente
  • intensidade fixa
  • praticamente nenhuma variação espectral.

📌 Principais resultados – glicemia

1️⃣ Glicemia média

👉 Não houve diferença significativa na glicemia média global entre os dois cenários.

2️⃣ Tempo na faixa alvo (Time in Range)

Quando analisado o tempo na faixa de:

4,4–7,2 mmol/L

observou-se:

✅ maior tempo em normoglicemia sob luz natural

  • 50,9% no ambiente com luz natural
  • 43,3% sob luz artificial
  • p = 0,036

Esse é o principal achado clínico do estudo.

3️⃣ Oscilação circadiana da glicose

Usando um modelo matemático que separa:

  • picos pós-prandiais
  • ritmo circadiano basal

foi demonstrado que:

✅ a amplitude das oscilações circadianas da glicose foi menor sob luz natural.

E:

➡️ quanto maior a amplitude circadiana da glicose, menor o tempo em faixa normal.

Ou seja:
luz natural achatou as flutuações metabólicas diárias da glicose.

🔥 Metabolismo de substratos (calorimetria indireta)

Durante o dia:

✅ sob luz natural houve:

  • menor RER
  • menor oxidação de carboidratos
  • maior oxidação de gordura

Diferença consistente ao longo do período acordado.

🍽️ Teste de refeição mista (MMTT)

Após refeição padronizada:

  • RER permaneceu menor sob luz natural
  • tendência a:
    • menor oxidação de carboidratos
    • maior oxidação de lipídios
  • dinâmica temporal dos metabólitos foi diferente entre as condições

🩸 Metabólitos plasmáticos de 24h

Não houve diferença nos níveis médios de:

  • glicose plasmática
  • ácidos graxos livres
  • triglicerídeos

ao longo de 24 horas.

O efeito metabólico foi detectado principalmente na utilização de substratos, e não na simples concentração média de metabólitos.

🌙 Melatonina

  • O horário de início da secreção (DLMO) não mudou.
  • Porém:

✅ a área sob a curva da melatonina no início da noite (21h–23h) foi maior sob luz natural.

Ou seja:

➡️ maior produção noturna de melatonina após dias de exposição à luz natural diurna.

🧬 Relógio molecular do músculo esquelético

Nas biópsias musculares:

  • aumento da expressão de:
    • PER1
    • CRY1
    • tendência para PER2

sob luz natural.

🧫 Experimento funcional em miócitos

Células musculares primárias cultivadas a partir das biópsias mostraram:

✅ avanço de fase (~45 minutos) do relógio molecular (BMAL1-luc)

após o período de exposição à luz natural.

Importante:

  • período
  • amplitude
  • amortecimento

não foram alterados.

Ou seja:

➡️ houve realinhamento de fase do relógio muscular.

🧪 Assinatura multi-ômica sanguínea

Foram realizadas:

  • metabolômica
  • lipidômica
  • transcriptômica em monócitos

Metabólitos associados à luz natural:

↑ treonina
↑ ácido cólico
↑ glutamato
↑ uracila

hidroxiprolina
alantoína
ácido salicílico
citrato/isocitrato

Lipídios

Associação positiva com luz natural:

  • fosfatidiletanolaminas (PE)
  • éteres de PE (PE-O)
  • LPE
  • DAG

Associação negativa:

  • ceramidas
  • glucosil-ceramidas
  • ésteres de colesterol

Este achado é particularmente relevante, pois:

➡️ ceramidas são biomarcadores fortemente associados à resistência à insulina e DM2.

Transcriptoma de monócitos

Foram observadas alterações em genes relacionados a:

  • metabolismo de ceramidas
  • vias lipídicas
  • inflamação metabólica

Embora, após correção por múltiplos testes, os resultados sejam exploratórios.

🧠 Pressão arterial, frequência cardíaca e temperatura

➡️ Nenhuma diferença entre os ambientes.

Logo, o efeito não foi mediado por:

  • estresse térmico
  • alterações hemodinâmicas
  • diferenças de conforto ambiental.

🧩 Conclusão

“A exposição à luz natural durante o dia melhora o alinhamento circadiano periférico (especialmente muscular), favorece um perfil metabólico mais oxidativo para gordura,  reduz a amplitude das oscilações glicêmicas diárias, aumenta o tempo em normoglicemia, altera de forma consistente a assinatura metabólica e lipídica circulante. Tudo isso sem modificar dieta, atividade física ou sono percebido. Isso é algo que tem de ser valorizado, principalmente nas mulheres com lipedema.” – Indica o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online)

⚠️ Limitações

  • Amostra pequena (n = 13)
  • Duração curta (4,5 dias)
  • População idosa (média 70 anos)
  • Estudo realizado apenas em meses de primavera/verão europeu

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

 

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