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Como você alimenta o seu lipedema?

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Um recente estudo avaliou se três características da alimentação estavam associadas à gravidade clínica do lipedema:

  • maior consumo de alimentos ultraprocessados;
  • dieta com maior potencial pró-inflamatório, medido pelo Dietary Inflammatory Index — DII;
  • menor adesão ao padrão alimentar mediterrâneo.

Os principais desfechos avaliados foram:

  • intensidade da dor;
  • qualidade de vida física;
  • composição corporal;
  • marcadores inflamatórios;
  • metabolismo da glicose;
  • perfil lipídico.

Desenho e população

Tratou-se de um estudo observacional, analítico e transversal, realizado entre janeiro de 2024 e junho de 2025 em um ambulatório de nutrição na Turquia.

Foram incluídas 86 mulheres entre 18 e 45 anos, com diagnóstico clínico confirmado de lipedema:

  • estágio 1: 36 mulheres;
  • estágio 2: 33 mulheres;
  • estágio 3: 17 mulheres.

Inicialmente, 102 mulheres foram avaliadas, mas 16 foram excluídas por dados incompletos, registros alimentares pouco confiáveis ou por não preencherem os critérios de inclusão.

O diagnóstico e o estadiamento foram realizados por dois médicos, das áreas de Medicina Física e Reabilitação e Cirurgia Vascular.

Características das participantes

A idade média foi de 34,2 anos.

Em relação à composição corporal:

  • IMC médio: 28,7 kg/m²;
  • 39,5% apresentavam sobrepeso;
  • 36,1% apresentavam obesidade;
  • percentual médio de gordura corporal: 38,4%;
  • percentual médio de gordura nos membros inferiores: 41,9%.

A maioria apresentava baixa atividade física:

  • 67,4% foram classificadas como pouco ativas;
  • média de aproximadamente 5.412 passos por dia;
  • tempo sedentário médio de 7,1 horas diárias.

Os sintomas foram bastante frequentes:

  • sensibilidade dolorosa nas pernas: 87,2%;
  • aumento do edema ao final do dia: 81,4%;
  • equimoses fáceis: 74,4%;
  • dor diária: 72,1%;
  • limitação de mobilidade: 57%;
  • intensidade média da dor: 5,8 em 10.

Entre as comorbidades, destacaram-se:

  • deficiência de vitamina D: 47,6%;
  • depressão ou ansiedade: 26,7%;
  • resistência à insulina ou pré-diabetes pelo HOMA-IR: 22,1%;
  • hipotireoidismo: 17,4%;
  • síndrome dos ovários policísticos: 13,9%.

Principais resultados

1. O consumo calórico total não foi muito diferente entre os estágios

Um dos achados mais interessantes foi que a ingestão total de calorias e a distribuição geral de carboidratos, proteínas e gorduras não apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre os estágios.

A ingestão média de energia foi de:

  • estágio 1: 1.782 kcal/dia;
  • estágio 2: 1.866 kcal/dia;
  • estágio 3: 1.943 kcal/dia.

Apesar da tendência de aumento, a diferença não alcançou significância estatística.

Isso sugere que a qualidade da dieta pareceu mais importante do que simplesmente a quantidade total de calorias consumidas.

2. A qualidade alimentar piorou nos estágios mais avançados

Do estágio 1 para o estágio 3, houve aumento de:

  • gorduras saturadas;
  • açúcares adicionados;
  • carnes processadas;
  • alimentos ultraprocessados;
  • potencial inflamatório da dieta.

Ao mesmo tempo, houve redução de:

  • fibras;
  • ômega-3;
  • vitamina D;
  • azeite de oliva;
  • frutas e vegetais;
  • adesão à dieta mediterrânea.

Fibras

A ingestão de fibras caiu de:

  • 22,4 g/dia no estágio 1;
  • para 16,8 g/dia no estágio 3.

Essa diferença foi estatisticamente significativa.

Açúcares adicionados

O consumo aumentou de:

  • 26,3 g/dia no estágio 1;
  • para 34,5 g/dia no estágio 3.

Ômega-3

A ingestão caiu de:

  • 1,21 g/dia;
  • para 0,89 g/dia.

Ultraprocessados

A participação dos ultraprocessados na ingestão energética aumentou de:

  • 28,1% das calorias no estágio 1;
  • para 41,3% no estágio 3.

Em porções diárias, o consumo subiu de:

  • 2,1 porções por dia;
  • para 3,6 porções por dia.

Esse foi um dos resultados mais expressivos do estudo.

3. A dieta tornou-se progressivamente mais inflamatória

O DII aumentou conforme o estágio:

  • estágio 1: +1,46;
  • estágio 2: +2,29;
  • estágio 3: +3,02.

Entre as mulheres no estágio 3, 70,6% estavam no grupo de maior potencial inflamatório da dieta, comparado a apenas 16,7% no estágio 1.

Isso demonstra uma associação clara entre estágios mais avançados e alimentação com perfil mais pró-inflamatório.

4. A adesão à dieta mediterrânea diminuiu

A pontuação de adesão à dieta mediterrânea caiu de:

  • 28,2 no estágio 1;
  • para 21,3 no estágio 3.

A alta adesão ao padrão mediterrâneo foi observada em:

  • 38,9% das mulheres no estágio 1;
  • apenas 5,8% no estágio 3.

O consumo de azeite caiu de 5,8 para 3,4 vezes por semana.

O consumo de frutas e vegetais diminuiu de:

  • 4,3 porções por dia;
  • para 2,9 porções por dia.

Já o consumo de carnes vermelhas e processadas aumentou de:

  • 2,1 porções por semana;
  • para 3,6 porções por semana.

5. Os estágios mais avançados apresentaram mais adiposidade

Do estágio 1 para o estágio 3, houve aumento de:

IMC

  • 27,1 para 31,1 kg/m².

Circunferência da cintura

  • 84,9 para 94,2 cm.

Percentual de gordura corporal

  • 36,7% para 41,1%.

Gordura nos membros inferiores

  • 39,3% para 45,2%.

Escore de gordura visceral

  • 8,6 para 11,9.

Também houve aumento das circunferências de coxa e panturrilha.

Esses resultados não significam que o lipedema seja causado pela obesidade. Eles mostram que maior adiposidade global e visceral pode coexistir com os estágios mais avançados e possivelmente agravar a inflamação, a mobilidade e os sintomas.

6. A inflamação sistêmica aumentou conforme o estágio

Os três marcadores inflamatórios analisados aumentaram progressivamente:

Proteína C-reativa ultrassensível

  • estágio 1: 3,9 mg/L;
  • estágio 3: 6,1 mg/L.

Interleucina-6

  • estágio 1: 3,1 pg/mL;
  • estágio 3: 4,6 pg/mL.

TNF-alfa

  • estágio 1: 7,1 pg/mL;
  • estágio 3: 9,2 pg/mL.

Esses dados reforçam a presença de um estado inflamatório mais intenso nas mulheres com estágios clínicos mais avançados.

Entretanto, como o estudo é transversal, não é possível afirmar se a dieta mais inflamatória causou a piora do lipedema, se o agravamento da doença favoreceu hábitos alimentares piores ou se ambos foram influenciados por outros fatores.

7. O metabolismo da glicose também piorou

A glicemia de jejum aumentou de:

  • 92,1 mg/dL;
  • para 99,1 mg/dL.

O HOMA-IR aumentou de:

  • 2,3 no estágio 1;
  • para 3,3 no estágio 3.

A prevalência de resistência à insulina ou pré-diabetes também foi numericamente maior no estágio 3:

  • estágio 1: 16,7%;
  • estágio 3: 35,3%.

Essa diferença de prevalência, porém, não atingiu significância estatística, provavelmente em razão do pequeno número de mulheres no estágio 3.

Dor

Maior dor esteve associada de forma independente a:

  • maior consumo de ultraprocessados;
  • maior pontuação no índice inflamatório da dieta.

Para ultraprocessados, o coeficiente padronizado foi β = 0,31.

Para o DII, β = 0,29.

O modelo explicou aproximadamente 39% da variação da intensidade da dor.

Isso sugere que a qualidade da dieta pode estar relacionada à dor para além da idade e do IMC.

Inflamação

A proteína C-reativa ultrassensível esteve associada principalmente a:

  • maior DII;
  • maior IMC.

O DII apresentou a associação mais forte:

  • β = 0,41;
  • p < 0,001.

O modelo explicou aproximadamente 42% da variação da proteína C-reativa.

O consumo de ultraprocessados apresentou tendência de associação com a proteína C-reativa, mas o intervalo de confiança cruzou o valor nulo.

Aplicação clínica

“ O estudo não demonstra uma “dieta única” para todas as mulheres com lipedema. Também não prova que a dieta mediterrânea seja superior a todas as outras estratégias nutricionais. A principal mensagem prática é que o tratamento não deve se limitar a “comer menos”. Deve priorizar a melhora da qualidade alimentar. O estudo encontrou uma associação consistente entre pior qualidade alimentar e maior carga clínica do lipedema.  Mulheres em estágios mais avançados consumiam mais ultraprocessados e apresentavam dietas mais pró-inflamatórias, menor adesão ao padrão mediterrâneo, mais gordura corporal, maior resistência à insulina, níveis mais elevados de marcadores inflamatórios e pior perfil clínico. Os ultraprocessados estão associados a dor independente do estágio. A qualidade da alimentação pode ser um fator modificável relevante no cuidado das mulheres com lipedema.” – Analisa o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

 

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

 

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