Nos últimos anos, tem crescido a divulgação do uso da gestrinona como tratamento para o lipedema, principalmente na forma de implantes hormonais. Essa tendência, amplamente impulsionada por redes sociais e medicina estética, levanta uma questão fundamental: existe respaldo científico para essa prática?
A resposta, à luz das melhores evidências disponíveis até o momento, é clara: não.
Ausência total de evidência científica
Uma revisão sistemática recente avaliou de forma rigorosa toda a literatura disponível sobre o uso da gestrinona no lipedema. O resultado é contundente:
Nenhum estudo clínico foi encontrado — nem ensaios randomizados, nem estudos observacionais, nem mesmo séries de casos.
Além disso:
Não há estudos em andamento registrados
Não há recomendação em diretrizes nacionais ou internacionais
Sociedades médicas se posicionam contra o uso
Ou seja, estamos diante de uma situação rara na medicina: uso clínico disseminado sem qualquer evidência científica direta.
O que sabemos sobre a gestrinona (fora do lipedema)
A gestrinona é um esteroide sintético derivado da 19-nortestosterona, com efeitos:
Androgênicos
Antiestrogênicos
Antiprogestagênicos
Anabólicos
Foi desenvolvida para tratamento de endometriose, e mesmo nessa indicação, os dados são limitados e antigos.
Seu uso atual para estética ou composição corporal ocorre off-label, sem padronização de dose, via de administração ou segurança.
Perfil de segurança: sinais de alerta importantes
Uma revisão sistemática recente avaliando segurança da gestrinona traz dados preocupantes:
Amenorreia: ~41%
Acne/seborreia: ~42%
Queda de libido: ~26%
Fogachos: ~24%
Alterações hepáticas (transaminases): ~15%
Mas o dado mais relevante, e muitas vezes ignorado:
Ganho de peso significativo foi observado na maioria dos estudos
Esse achado é particularmente crítico no contexto do lipedema, uma doença já marcada por disfunção do tecido adiposo.
O paradoxo no lipedema
“O lipedema não é simplesmente acúmulo de gordura. Trata-se de uma doença complexa, com componentes inflamatórios, hormonais (ainda não completamente compreendidos), microvasculares, linfáticos e de tecido conjuntivo. Apesar de hipóteses envolvendo hormônios, não existe evidência de que manipulação hormonal melhore a doença. Pelo contrário, o uso de um composto com ação antiestrogênica, androgênica e metabolicamente ativa pode, teoricamente, agravar desequilíbrios metabólicos e inflamatórios.” – Comenta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).
Por que isso está acontecendo?
O crescimento do uso da gestrinona no lipedema parece estar mais relacionado a:
Marketing agressivo
Promessa de resultados rápidos
Desespero de pacientes sem diagnóstico adequado
E não à ciência.
Pacientes com lipedema frequentemente percorrem uma longa jornada até o diagnóstico, o que as torna mais vulneráveis a terapias não comprovadas.
O que realmente tem evidência no tratamento do lipedema
As abordagens recomendadas por diretrizes incluem:
Terapia compressiva
Exercício físico adaptado
Terapia descongestiva complexa
Ajustes nutricionais
Suporte psicológico
Lipoaspiração com preservação linfática (casos selecionados)
Essas estratégias têm base científica e foco na melhora funcional e qualidade de vida, não em promessas rápidas.
Conclusão
O uso da gestrinona no tratamento do lipedema representa um exemplo clássico de prática médica que se afastou da evidência científica.
Não há estudos comprovando eficácia
Não há dados de segurança para essa indicação
Há evidência consistente de efeitos adversos
Incluindo ganho de peso significativo
Em medicina, especialmente em doenças crônicas como o lipedema, não podemos substituir ciência por expectativa.
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