Trombose e câncer. Qual a relação?

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Um recente estudo acabou de avaliar de forma abrangente:

  • epidemiologia do câncer oculto em pacientes com tromboembolismo venoso não provocado (TEV não provocado)
  • Os mecanismos fisiopatológicos bidirecionais entre câncer e trombose
  • Fatores de risco e estratificação
  • Estratégias atuais de rastreamento oncológico
  • Modelos preditivos e biomarcadores emergentes

O foco central é responder:
👉 Como identificar precocemente câncer oculto em pacientes com TEV não provocado?

📊 Epidemiologia

  • Dentro de 1 ano após TEV não provocado5% a 15% dos pacientes recebem diagnóstico de câncer.
  • Estudos mais recentes mostram incidência menor (≈ 2,4% a 8,8%), provavelmente devido a:
    • Melhor imagem diagnóstica
    • Protocolos clínicos mais eficientes

📌 Conclusão epidemiológica:
TEV não provocado é fator de risco independente para câncer oculto.

🧬 Fisiopatologia – Relação bidirecional

🔹 Câncer induz trombose

  • Tumores liberam:
    • Tissue Factor (TF)
    • Micropartículas pró-coagulantes
  • Ativam:
    • Cascata de coagulação
    • Plaquetas
    • Neutrófilos → formação de NETs
  • Inibem fibrinólise via ↑ PAI-1
  • Resultado: estado hipercoagulável tumoral

🔹 Trombose favorece progressão tumoral

  • Inflamação sistêmica (IL-6, TNF-α)
  • NETs facilitam:
    • Adesão tumoral
    • Metástase

📌 Mensagem central:
Câncer e TEV se retroalimentam biologicamente.

⚠️ Fatores de risco para câncer oculto em TEV não provocado

🔸 Idade

  • 50 anos → risco 6 a 7 vezes maior
  • 80 anos → prevalência de câncer ≈ 9% em 1 ano

🔸 Sexo

  • Dados conflitantes:
    • Alguns estudos: maior risco em homens
    • Outros: maior risco em mulheres
      ➡️ Ainda não conclusivo

🔸 Comorbidades associadas

(Figura 1 do artigo)

CondiçãoIncidência de câncer em 1 anoSIR
Diabetes + TEV4,1%3,28
Doença diverticular + TEV6,2%2,9
Demência + TEV2,8%1,9
Uso prévio de aspirina + TEV6,0–6,7%2,8–3,3

📌 Todas aumentam risco comparado à população geral.

🩸 Localização do trombo e risco de câncer

(Figura 2 do artigo)

Local do tromboIncidência de câncerSIR
Trombose venosa esplâncnica8% nos 3 primeiros meses33
Trombose venosa cerebral4,5% em 1 ano3,35
Trombose arterial de membro inferior2,5% em 6 meses3,28
Trombose venosa retinalNão aumenta risco

📌 Locais “incomuns” de trombose são forte sinal de alerta para câncer oculto.

🔁 TEV recorrente

  • Dois episódios não provocados em <1 ano →
    HR para câncer = 18,5
  • Pacientes com câncer oculto:
    • Recorrência de TEV em 1 ano: 38,6%
    • Sem câncer: 3,8%

📌 TEV recorrente é marcador clínico crítico.

🔍 Estratégias de rastreamento

🔹 Rastreamento limitado (guidelines ISTH)

Inclui:

  • História clínica
  • Exame físico
  • Hemograma e bioquímica
  • RX de tórax
  • Rastreamento oncológico padrão por idade/sexo

🔹 Rastreamento extensivo

Adiciona:

  • TC tórax/abdome/pelve
  • Endoscopia
  • US abdominal
  • Marcadores tumorais
  • PET-CT FDG

⚖️ Evidência dos ensaios clínicos

  • Ensaios randomizados mostram:
    ❌ Rastreamento extensivo não reduz mortalidade global
    ❌ Não reduz taxa de câncer perdido
  • Porém:
    ✔️ PET-CT FDG tem:

    • Sensibilidade ≈ 87%
    • Especificidade ≈ 70%
    • Valor preditivo negativo ≈ 98,9%

📌 Recomendação atual:
Rastreamento limitado inicial, com PET-CT reservado para casos de alto risco ou suspeita persistente.

🧮 Modelos de predição de câncer oculto

🔸 Modelos clássicos

ModeloAUC
RIETE0,59–0,62
SOME0,56

➡️ Baixa capacidade preditiva

🔸 Novo escore VTE Malignancy Score

  • AUC 0,74
  • Sensibilidade 86%
  • Especificidade 89%

🔸 Modelo por Machine Learning (CLOVER)

(Figura e Tabela II)

  • Algoritmo CatBoost
  • Variáveis: idade, sexo, sinais vitais, D-dímero, hemoglobina, plaquetas, creatinina etc.
  • AUC = 0,86
  • PPV = 75%
  • NPV = 93%

📌 Primeira evidência robusta de IA aplicável ao rastreio de câncer oculto em TEV.

🧪 Biomarcadores promissores

BiomarcadorAchado
D-dímero >4000 ng/mLHR 4,1 para câncer
P-selectina solúvel >62 ng/mL + D-dímero >10.000Especificidade 91%
H3Cit-DNA (NETs)↑79% risco a cada 500 ng/mL
Relação neutrófilo/linfócito + CEA + CA19-9 + CA125Sensibilidade ~80%

📌 Biomarcadores + ML = futuro do rastreio personalizado

 Conclusões finais do artigo

” TEV não provocado aumenta risco de câncer oculto. Idade avançada, TEV em locais incomuns e recorrência são sinais de alto risco. O rastreamento limitado é estratégia inicial padrão. A PET-CT é útil em casos selecionados e em breve teremos um uso maior de inteligência artificial e biomarcadores para auxiliar no diagnóstico. O trombo pode ser o primeiro sinal de um tumor silencioso. Detectar cedo salva prognóstico. Mas rastrear tudo indiscriminadamente não funciona — é preciso estratificar risco.” – Finaliza o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

 

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