
Nem toda escolha ruim parece ruim no começo. Algumas chegam disfarçadas de oportunidade, praticidade ou prazer imediato. O problema aparece depois, quando percebemos que investimos dinheiro, saúde ou tempo em algo que oferece um retorno negativo.
Em 2026, três escolhas merecem atenção especial: apostar dinheiro nas chamadas bets, emagrecer sem praticar atividade física e passar mais de duas horas por dia no celular para fins recreativos.
1. Apostar nas bets como forma de ganhar dinheiro
As apostas esportivas são apresentadas como diversão, desafio ou oportunidade de lucro. Entretanto, apostar não é investir: não existe aquisição de um ativo produtivo, geração de renda ou construção de patrimônio. Existe apenas a tentativa de prever um resultado dentro de um sistema matematicamente organizado para favorecer a casa de apostas no conjunto das operações.
Uma revisão sistemática sobre apostas esportivas, que reuniu 54 estudos, identificou associação entre essa prática e problemas relacionados ao jogo, impulsividade e coexistência de outros comportamentos aditivos. Os próprios autores ressaltam que boa parte das pesquisas disponíveis é transversal, o que exige cautela ao estabelecer causalidade, mas o conjunto das evidências aponta para riscos relevantes em grupos vulneráveis.[1]
O prejuízo também não se limita ao dinheiro perdido. Uma revisão sobre os danos relacionados ao jogo aponta consequências financeiras, psicológicas, profissionais, educacionais e familiares. A literatura sugere que o aumento do consumo de apostas — considerando frequência, despesas e perdas — está relacionado ao crescimento dos problemas associados ao jogo.[2]
Quando a situação se agrava, endividamento e vergonha podem dificultar a procura por ajuda. Uma revisão sistemática de estudos qualitativos identificou esses dois fatores como importantes mecanismos na relação entre problemas com apostas e comportamento suicida.[3] Outra metanálise, envolvendo 107 estudos e mais de 4,6 milhões de participantes, encontrou maiores chances de ideação e tentativa de suicídio entre pessoas com problemas relacionados ao jogo. Como os estudos são predominantemente observacionais, a associação não deve ser interpretada isoladamente como prova de causalidade.[4]
Se a intenção é construir patrimônio, investimentos diversificados e compatíveis com o perfil de risco fazem sentido. Apostar para “recuperar” perdas ou gerar renda recorrente não é estratégia financeira: é exposição a um risco que pode crescer rapidamente.
2. Emagrecer sem atividade física
A segunda escolha ruim é buscar apenas a redução do número na balança, sem se preocupar com a composição corporal.
Quando uma pessoa emagrece, ela não perde somente gordura. Parte da redução pode ocorrer à custa de massa livre de gordura, cuja principal parcela é o músculo esquelético. Uma revisão publicada em 2026 concluiu que perdas expressivas de peso obtidas por dieta ou medicamentos, sem exercício estruturado, estão associadas a uma proporção de perda de massa livre de gordura maior do que a esperada. Nos estudos com medicamentos baseados em incretinas, aproximadamente 33% a 38% do peso total perdido correspondeu à massa livre de gordura.[5]
Uma revisão sistemática com metanálise de 34 estudos randomizados e 1.455 participantes comparou restrição calórica isolada com restrição calórica acompanhada de exercícios. A inclusão de atividade física preservou, em média, 0,87 kg adicionais de massa livre de gordura e evitou aproximadamente 46% da perda desse tecido. Os melhores resultados apareceram nas intervenções que incluíram treinamento de força ou a combinação de força e atividade aeróbica.[6]
O objetivo, portanto, não deve ser simplesmente “pesar menos”. Deve ser reduzir gordura preservando músculos, força, autonomia e capacidade funcional. Isso exige alimentação adequada, ingestão proteica individualizada e treinamento resistido, respeitando as condições clínicas de cada pessoa.
Medicamentos para obesidade podem ser excelentes ferramentas quando corretamente indicados, mas não substituem o movimento. A balança mostra quanto o corpo pesa; ela não revela, sozinha, o que foi perdido.
3. Passar mais de duas horas por dia no celular
O celular é uma ferramenta extraordinária. O problema começa quando deixa de servir ao usuário e passa a consumir automaticamente seu tempo, sua atenção e seu sono.
Duas horas não representam uma fronteira biológica universal entre uso saudável e prejudicial. O impacto depende da finalidade, do conteúdo, do horário e da pessoa. Ainda assim, esse limite funciona como uma referência prática para o uso recreativo. Em um ensaio clínico randomizado com 111 estudantes, reduzir o uso do smartphone para no máximo duas horas diárias durante três semanas produziu melhoras pequenas a moderadas no bem-estar, nos sintomas depressivos, no estresse e na qualidade do sono. Após o término da intervenção, porém, o tempo de tela voltou a crescer rapidamente, mostrando como é difícil sustentar a mudança.[7]
Uma metanálise de 21 estudos de coorte, com 548.338 participantes, encontrou associação entre maior tempo de tela e piores desfechos do sono. Cada hora adicional esteve relacionada a uma redução aproximada de três a cinco minutos na duração total do sono, além de maior risco de sono curto, sintomas de insônia e dificuldade para iniciar o sono. Por serem predominantemente dados observacionais, os resultados indicam associação, não que o celular seja necessariamente a única causa desses problemas.[8]
Outra metanálise de estudos de coorte, reunindo 241.398 participantes, identificou uma associação modesta entre maior tempo de tela e risco posterior de sintomas depressivos. O efeito variou conforme idade, sexo, localização e duração da exposição.[9]
A solução não precisa ser abandonar o celular. Pode começar com medidas simples: retirar notificações desnecessárias, evitar o aparelho durante refeições, estabelecer horários sem tela, não levá-lo para a cama e substituir parte do consumo passivo por exercício, leitura, conversas e sono.
A escolha que realmente vale a pena
As três piores escolhas de 2026 têm algo em comum: oferecem recompensa imediata e cobram a conta depois.
A aposta promete dinheiro rápido. O emagrecimento sem exercício promete um corpo mais leve sem preservar necessariamente sua força. O celular promete entretenimento infinito enquanto fragmenta tempo e atenção.
A alternativa é menos espetacular, mas oferece retorno real: construir patrimônio com planejamento, emagrecer preservando músculos e usar a tecnologia de maneira intencional.
Em 2026, talvez o melhor investimento não seja descobrir uma fórmula nova. Talvez seja proteger três recursos que continuam insubstituíveis: seu dinheiro, seu corpo e seu tempo.
Referências
- López-González H. et al. Clinical Correlates of Sports Betting: A Systematic Review. Journal of Gambling Studies, 2023. PubMed PMID: 37004597
- Kesaite V, Wardle H, Rossow I. Gambling consumption and harm: a systematic review of the evidence. Addiction Research & Theory, 2024. PubMed PMID: 38774110
- Marionneau V, Nikkinen J. Gambling-related suicides and suicidality: A systematic review of qualitative evidence. Frontiers in Psychiatry, 2022. PubMed PMID: 36387006
- Kristensen JH et al. Suicidality among individuals with gambling problems: A meta-analytic literature review. Psychological Bulletin, 2024. PubMed PMID: 38095933
- Bosy-Westphal A. et al. Defining Healthy Weight Loss and Target Weight in the Era of Highly Effective Treatment of Patients With Obesity. Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle, 2026. PubMed PMID: 42455525
- Deller M, Weiershaus J, Held S, Brinkmann C. Effects of Calorie Restriction With and Without Strength, Endurance or Mixed Training on Fat-Free and Skeletal Muscle Mass in Overweight or Obese Individuals: A Systematic Review With Pairwise Meta-Analysis and Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Studies. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026. PubMed PMID: 42144246
- Pieh C. et al. Smartphone screen time reduction improves mental health: a randomized controlled trial. BMC Medicine, 2025. PubMed PMID: 39985031
- He Q. et al. The association of screen time and the risk of sleep outcomes: a systematic review and meta-analysis. 2025. PubMed PMID: 41480345
- Wang X. et al. Screen time and depression risk: A meta-analysis of cohort studies. Frontiers in Psychiatry, 2022. PubMed PMID: 36620668
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