
Você pode estar satisfeita com o trabalho e, ao mesmo tempo, sentir falta de vínculos mais próximos. Pode ter estabilidade financeira, mas pouca clareza sobre o sentido da própria vida. Também pode encontrar propósito e afeto mesmo enfrentando dificuldades materiais.
Essas combinações mostram por que uma única pergunta — “você é feliz?” — não consegue revelar tudo sobre como uma pessoa está vivendo.
Essa é a proposta do Global Flourishing Study, uma pesquisa internacional cujos primeiros resultados foram publicados em 2025 na revista Nature Mental Health. Com 202.898 participantes de 22 países, incluindo o Brasil, o estudo investiga o chamado florescimento humano: uma maneira de compreender o bem-estar que reúne diferentes dimensões da vida.
O projeto foi planejado para acompanhar os participantes anualmente durante cinco anos. O artigo apresenta os resultados da primeira etapa, oferecendo um retrato inicial das experiências dessas pessoas.
O que significa florescer?
Na perspectiva adotada pelos pesquisadores, florescer envolve saúde física e mental, felicidade e satisfação com a vida, sentido e propósito, caráter e virtudes, relacionamentos próximos e segurança financeira.
Isso ajuda a entender algo que reconhecemos na experiência cotidiana: estar bem em uma área não significa estar bem em todas.
Uma pessoa pode ter conforto material e viver isolada. Outra pode contar com relações afetuosas, mas sofrer com a preocupação de não conseguir pagar as contas. Um olhar mais amplo permite reconhecer tanto os recursos quanto as dificuldades presentes em cada trajetória.
O conceito também considera o contexto em que vivemos. As condições da comunidade e do ambiente fazem parte das possibilidades de uma vida boa, embora o índice principal analisado no artigo se concentre nas dimensões individuais.
O dinheiro importa, mas conta apenas parte da história
Os resultados mostram que segurança material e outras formas de bem-estar nem sempre caminham juntas. Alguns países economicamente desenvolvidos apresentaram condições financeiras mais favoráveis, mas resultados menos positivos em aspectos como sentido de vida e qualidade dos relacionamentos.
Isso não significa que a pobreza favoreça o bem-estar ou que o desenvolvimento econômico prejudique o propósito. O estudo não demonstra essas relações de causa e efeito.
A questão que ele levanta é outra: como melhorar as condições materiais de uma sociedade e, ao mesmo tempo, fortalecer os vínculos, o pertencimento e as razões pelas quais as pessoas consideram que vale a pena viver?
“No Brasil, a média do índice foi de 7,63 em uma escala de zero a dez quando os indicadores financeiros ficaram de fora. Com a inclusão desses indicadores, passou a 7,02. A diferença evidencia quanto as preocupações materiais podem alterar o retrato do bem-estar.” – Comenta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).
Esses números precisam ser interpretados com cuidado. Idioma, cultura e formas de responder às perguntas influenciam as comparações entre países.
Os resultados entre os mais jovens merecem atenção
Ao reunir os dados dos 22 países, os pesquisadores observaram que o florescimento permaneceu relativamente estável dos 18 aos 49 anos e aumentou nas faixas etárias seguintes. No Brasil, também houve uma tendência de maior florescimento com a idade.
Esse resultado chama a atenção porque contrasta com a ideia de que a juventude seria, necessariamente, a fase de maior bem-estar.
Mas há uma distinção importante: comparar pessoas de idades diferentes em um mesmo momento não permite concluir que os jovens de hoje vão melhorar simplesmente porque envelhecerão. As próximas etapas do estudo poderão ajudar a separar os efeitos da idade das experiências particulares de cada geração.
Por enquanto, os dados reforçam a importância de compreender melhor as dificuldades enfrentadas pelos jovens.
A infância aparece na vida adulta
Pessoas que relataram boas relações com a mãe e com o pai durante a infância apresentaram, em média, maior florescimento na vida adulta. Experiências de abuso, dificuldades financeiras e a sensação de ser alguém excluído estiveram associadas a resultados menos favoráveis.
Como as lembranças da infância foram relatadas pelos próprios participantes, existem limitações relacionadas à memória e à possibilidade de outros fatores influenciarem essas associações.
Ainda assim, os achados dão peso à importância de proteger as crianças e criar condições para que cresçam com cuidado, segurança e pertencimento. São relações observadas em grupos, que não permitem prever o destino de uma pessoa.
Pertencer também faz parte de viver bem
A participação em celebrações religiosas esteve associada a maior florescimento em muitos dos países estudados. Pessoas empregadas e casadas também apresentaram, em média, resultados mais altos em comparação com determinados outros grupos, embora os padrões variassem entre países.
Esses resultados não oferecem uma receita individual de felicidade. As análises demográficas são descritivas e não demonstram que adotar uma dessas condições produzirá, por si só, maior bem-estar.
Elas convidam, porém, a investigar o papel das relações, das comunidades, das condições de trabalho e das fontes de sentido na experiência de viver bem.
Talvez a contribuição mais valiosa do estudo seja ampliar as perguntas que fazemos sobre a nossa vida e sobre a sociedade que estamos construindo.
Além de perguntar se estamos felizes, podemos perguntar: temos com quem contar? Encontramos sentido no cotidiano? Conseguimos cuidar da saúde? Vivemos com segurança material? Nossas comunidades oferecem condições para crescer?
Olhar para essas dimensões permite reconhecer necessidades que uma medida isolada deixaria passar. E ajuda a transformar o bem-estar em uma responsabilidade compartilhada entre pessoas, comunidades e instituições.
Texto baseado em VanderWeele, T. J. e colaboradores. “The Global Flourishing Study: Study Profile and Initial Results on Flourishing”. Nature Mental Health, 3, 636–653 (2025). Acesse o artigo original.
Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.
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