
Uma revisão publicada na revista Science propõe um cuidado mais individualizado, que considere os sintomas, a história de saúde e as diferentes opções de tratamento.
O sono muda. A concentração oscila. Surgem ondas de calor, alterações de humor e mudanças na composição corporal. Para muitas mulheres, esses sinais aparecem antes mesmo da última menstruação e interferem no trabalho, nos relacionamentos e na qualidade de vida.
Uma revisão publicada em outubro de 2026 na revista Science destaca a importância de olhar para essa fase de forma abrangente. Segundo os autores, a menopausa representa uma oportunidade para avaliar a saúde da mulher e planejar cuidados para as décadas seguintes.
O artigo reúne pesquisas sobre menopausa, envelhecimento e terapia hormonal. Sua principal mensagem é que a experiência da menopausa e a resposta ao tratamento variam de uma mulher para outra. Essas diferenças precisam orientar tanto a pesquisa quanto o atendimento.
Uma transição que envolve o corpo inteiro
Os efeitos das mudanças hormonais alcançam vários órgãos. Existem receptores para estrogênios e progesterona em tecidos como cérebro, ossos, músculos, pele e sistema cardiovascular.
Isso ajuda a compreender a diversidade de manifestações durante a transição menopausal. Além dos conhecidos calorões e suores noturnos, podem ocorrer:
- Dificuldade para dormir.
- Irritabilidade e alterações de humor.
- Queixas de memória e concentração.
- Ressecamento vaginal e desconforto nas relações.
- Dores musculares e articulares.
- Mudanças na distribuição de gordura corporal.
Essas manifestações variam em intensidade e duração. Algumas mulheres atravessam a fase com pouco desconforto; outras apresentam sintomas que comprometem significativamente sua rotina.
Reconhecer essa diversidade permite acolher melhor as queixas. Ao mesmo tempo, sintomas como cansaço, alterações de memória e dores também podem ter outras causas, que precisam ser consideradas na avaliação.
A história de cada mulher faz diferença
A menopausa espontânea é reconhecida após 12 meses consecutivos sem menstruar, quando não há outra causa para a ausência dos ciclos. A transição que a antecede, chamada perimenopausa, pode durar anos.
O artigo ressalta que a idade e a forma como a menopausa acontece têm implicações para a saúde. Uma menopausa espontânea por volta dos 50 anos e uma menopausa provocada pela retirada dos dois ovários aos 38 anos, por exemplo, envolvem contextos biológicos distintos.
Estudos associam a menopausa em idades mais jovens a maiores riscos de perda óssea, doenças cardiovasculares e alguns desfechos neurológicos. Essas associações ajudam a identificar quem pode precisar de acompanhamento mais atento, mas não determinam o que acontecerá com cada mulher.
Também merecem atenção as experiências anteriores: alterações intensas de humor no período pré-menstrual, complicações da gestação, cirurgias ginecológicas e uso de hormônios ao longo da vida podem fornecer informações relevantes para o cuidado.
Terapia hormonal: os detalhes importam
Conhecida popularmente como terapia de reposição hormonal, ou TRH, a terapia hormonal da menopausa reúne diferentes medicamentos e formas de uso.
A revisão destaca mais de 200 possibilidades, considerando variações de hormônios, doses, combinações, vias de administração e esquemas de tratamento. Por isso, falar apenas em “usar hormônio” oferece pouca informação sobre os benefícios e riscos de uma prescrição.
Entre os fatores que precisam ser avaliados estão:
- Qual hormônio será utilizado e em que dose.
- Se a administração será oral, pela pele ou vaginal.
- A necessidade de proteção do endométrio, o revestimento interno do útero.
- A idade e o tempo desde a menopausa.
- Os sintomas, antecedentes e preferências da mulher.
A via de administração, por exemplo, pode modificar o perfil de risco. O estrogênio oral passa inicialmente pelo fígado e pode influenciar fatores de coagulação. O uso pela pele evita essa primeira passagem e pode apresentar vantagens em determinadas situações clínicas.
Já o estrogênio vaginal em baixa dose é utilizado principalmente para sintomas locais, como ressecamento e desconforto. Sua finalidade e exposição sistêmica diferem das terapias usadas para tratar calorões.
A escolha do tratamento depende dessas características e de uma avaliação individual.
Quais benefícios já estão bem estabelecidos?
A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para ondas de calor e suores noturnos. Também previne a perda óssea e reduz o risco de fraturas durante o uso.
Para mulheres saudáveis com sintomas incômodos, com menos de 60 anos ou dentro dos primeiros dez anos após a menopausa, a relação entre benefícios e riscos costuma ser favorável, desde que não existam contraindicações. O tratamento exige reavaliações periódicas. Essa orientação está descrita no posicionamento da The Menopause Society sobre terapia hormonal.
A decisão também precisa considerar riscos como trombose, acidente vascular cerebral e câncer de mama, cuja relevância varia conforme o esquema utilizado e o perfil de saúde da mulher.
Existem ainda opções não hormonais para o controle de sintomas, inclusive para quem tem contraindicações ou prefere outra abordagem.
E quanto à memória e à prevenção de Alzheimer?
Esse é um dos temas mais discutidos na revisão — e um dos que exigem maior cuidado na interpretação.
Queixas de “névoa mental”, como dificuldade para encontrar palavras ou manter a concentração, são frequentes durante a transição menopausal. Sono fragmentado, alterações de humor e mudanças hormonais podem participar desse quadro. Os estudos revisados descrevem alterações cognitivas geralmente discretas, que tendem a se estabilizar após a perimenopausa.
Os autores também discutem pesquisas sobre diferentes formulações hormonais e saúde cerebral. Há resultados promissores, mas os estudos ainda apresentam diferenças importantes de população, tratamento e método.
Não há evidência suficiente para prescrever terapia hormonal com o objetivo de prevenir Alzheimer ou outras demências. A The Menopause Society também ressalta que a prevenção de demência e de doenças cardiovasculares não constitui indicação para iniciar terapia hormonal em mulheres que tiveram menopausa na idade habitual. Veja o esclarecimento da sociedade sobre as indicações do tratamento.
Melhorar sintomas e qualidade de vida é um benefício concreto. Prometer proteção contra doenças neurodegenerativas ultrapassa o que a evidência permite afirmar.
O acompanhamento deve continuar ao longo dos anos
Os sintomas podem persistir por bastante tempo após a última menstruação. Por isso, o cuidado precisa acompanhar as mudanças nas necessidades e na saúde da mulher.
A revisão destaca uma distinção relevante: continuar um tratamento iniciado anteriormente e começar a usar hormônios em idade mais avançada são situações diferentes.
A duração do tratamento deve ser discutida ao longo do acompanhamento, considerando resposta, riscos e objetivos. A decisão envolve mais informações do que a idade isoladamente.
Esse cuidado também deve abranger saúde óssea, composição corporal, fatores de risco cardiovascular, sono, saúde mental e sexualidade.
Uma oportunidade para cuidar melhor
“ A revisão da Science reforça a necessidade de escutar as mulheres e estudar suas diferenças. Parte das hipóteses sobre genética, resposta hormonal e proteção cerebral ainda depende de pesquisas mais robustas antes de se transformar em rotina clínica. O conhecimento atual já permite melhorar o atendimento: reconhecer os sintomas, investigar outras causas quando necessário e escolher tratamentos com benefícios e riscos adequados a cada pessoa. Envelhecer com saúde passa por ter acesso a informação confiável, decisões compartilhadas e acompanhamento ao longo do tempo. A menopausa é um momento importante para colocar esse cuidado em prática.” – Reforça o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).
Artigo de referência: Gravelsins LL e colaboradores. Reframing menopause and menopause hormone therapy as opportunities for healthy aging. Science, 2026. DOI: 10.1126/science.aeg5004.
Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.
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