O médico mais difícil de lidar

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Talvez o médico mais difícil de lidar seja aquele que não precisa vender nada para você.

Não porque dinheiro seja errado. Não porque um médico não deva ganhar bem. E muito menos porque ter dívidas torne alguém um profissional ruim.

A questão é outra.

Quanto menor a pressão financeira sobre uma decisão médica, maior tende a ser a liberdade para fazer algo extremamente difícil na medicina moderna:

dizer ao paciente que ele não precisa fazer nada.

Esse médico talvez não tenha o consultório mais luxuoso da cidade.

Talvez não troque de carro todos os anos.

Talvez não esteja preocupado em transmitir sucesso por meio de roupas, relógios, viagens ou pelas tecnologias que possui dentro do consultório.

Porque ele aprendeu que existe uma diferença enorme entre parecer bem-sucedido e ter independência suficiente para exercer a medicina com liberdade.

E isso importa mais do que parece.

Quando a medicina encontra o incentivo financeiro

Existe um conceito bastante estudado em economia da saúde: os incentivos modificam comportamentos.

Isso não significa que médicos tomem conscientemente decisões erradas por dinheiro. Seria simplista e injusto afirmar isso.

O problema é muito mais sutil.

Quando o profissional ganha mais se fizer mais exames, procedimentos ou tratamentos, cria-se um conflito potencial entre duas forças:

“O que meu paciente realmente precisa?”

e

“O que mantém minha estrutura funcionando?”

A literatura científica mostra que os modelos de remuneração podem modificar o comportamento médico.

Um estudo publicado no American Economic Review encontrou que um aumento de aproximadamente 2% na remuneração médica esteve associado a aumento de cerca de 3% na quantidade de cuidados oferecidos. Procedimentos eletivos — justamente aqueles em que há maior margem de decisão — responderam ainda mais intensamente às mudanças de remuneração.

Revisões sobre conflitos financeiros também concluíram que relações e incentivos econômicos podem influenciar decisões clínicas, incluindo indicação de exames, tratamentos e utilização de tecnologias.

Isso não transforma médicos em vilões.

Mostra apenas algo que vale para qualquer ser humano:

ninguém é completamente imune aos incentivos do ambiente em que trabalha.

Quanto mais você precisa faturar, mais difícil fica dizer “não faça”

Imagine duas situações.

Um médico compra um equipamento de alto custo. Assume parcelas importantes durante vários anos. Contrata funcionários para operá-lo. Cria uma estrutura dependente daquele equipamento.

Outro médico não possui a tecnologia e não tem nenhuma obrigação financeira relacionada a ela.

Se surgir um paciente no limite da indicação, os dois podem ser profissionais éticos e competentes.

Mas somente um deles está completamente livre daquele incentivo financeiro específico.

Esse é o ponto.

O conflito de interesse não significa necessariamente corrupção ou má-fé.

Significa simplesmente existir um segundo interesse capaz de competir com o interesse primário do paciente.

A própria discussão sobre profissionalismo médico reconhece que a essência da profissão está justamente em colocar o bem-estar do paciente acima dos interesses financeiros ou proprietários do médico.

Tecnologia não é sinônimo de medicina melhor

A medicina moderna criou uma associação perigosa:

novo = melhor.

Nem sempre.

Uma tecnologia pode ser extraordinária quando corretamente indicada.

Mas o fato de existir uma máquina nova não significa que todo paciente precise utilizá-la.

O mesmo vale para medicamentos, suplementos, procedimentos estéticos e cirurgias.

Existe uma diferença fundamental entre:

ter uma tecnologia disponível

e

precisar utilizá-la.

Um bom médico não precisa provar que seu equipamento foi um bom investimento.

Ele precisa decidir se aquele equipamento será um bom investimento para a saúde do paciente.

São coisas completamente diferentes.

O médico independente pode dar uma resposta frustrante

Você pode chegar esperando sair da consulta com:

um procedimento,

um medicamento,

uma cirurgia,

dez suplementos,

um “protocolo”,

ou algum tratamento inovador.

E ouvir:

“Você não precisa disso.”

Talvez essa seja uma das consultas mais valiosas que existem.

Porque fazer alguma coisa é psicologicamente muito mais atraente do que não fazer nada.

Para o paciente e, muitas vezes, também para o médico.

Intervir transmite sensação de ação.

Prescrever transmite sensação de controle.

Operar transmite sensação de resolução.

Mas medicina não deveria ser medida pela quantidade de coisas que foram feitas.

Deveria ser medida pela quantidade de coisas necessárias que foram feitas e também pelas desnecessárias que foram evitadas.

Cirurgia exige ainda mais cuidado

Na cirurgia, isso fica particularmente evidente.

Uma cirurgia corretamente indicada pode transformar uma vida.

Uma cirurgia desnecessária expõe uma pessoa saudável ou relativamente saudável a anestesia, sangramento, infecção, trombose, cicatrizes, complicações e eventualmente novos procedimentos.

Por isso, uma das características mais importantes de um cirurgião não é apenas saber operar.

É saber quando não operar.

Existe uma frase que ensino há muito tempo:

a parte mais difícil de uma cirurgia pode acontecer antes de entrar no centro cirúrgico: decidir se ela realmente deveria ser realizada.

Formação custa caro — mas ignorância custa mais

Existe outra diferença importante.

O médico financeiramente independente talvez não tenha interesse em comprar uma máquina nova todos os anos.

Mas costuma existir um investimento do qual nenhum médico deveria economizar:

formação.

Graduação.

Residência.

Especialização.

Congressos.

Cursos sérios.

Leitura científica.

Atualização constante.

Discussão de casos.

Anos observando pacientes.

Porque uma tecnologia pode se tornar obsoleta rapidamente.

O conhecimento construído ao longo de décadas modifica a maneira como o médico pensa.

E é justamente esse conhecimento que permite reconhecer quando uma tecnologia nova realmente acrescenta alguma coisa e quando ela é apenas marketing vestido de inovação.

Dívida e pressão financeira também têm consequências

É importante não transformar isso em julgamento moral sobre médicos endividados.

A própria literatura mostra que endividamento e estresse financeiro podem influenciar escolhas profissionais e bem-estar dos médicos.

Uma revisão sistemática encontrou associação entre dívida educacional, estresse financeiro e determinadas escolhas de carreira entre médicos em formação, embora os resultados não sejam idênticos em todos os estudos.

Ou seja:

o problema não é ter dívida.

O problema é construir uma vida profissional tão dependente de faturamento crescente que se torne difícil separar necessidade financeira de necessidade médica.

Talvez luxo seja poder dizer a verdade

Para mim, existe uma forma diferente de pensar sobre sucesso na medicina.

Sucesso talvez não seja ter o consultório mais caro.

Nem o carro mais novo.

Nem a máquina recém-lançada.

Nem oferecer o tratamento que está viralizando naquele momento.

Talvez um dos maiores luxos que um médico possa conquistar seja a possibilidade de olhar para o paciente e dizer:

“Você não precisa gastar dinheiro com isso.”

Ou:

“Ainda não é hora de operar.”

Ou:

“Esse tratamento parece interessante, mas ainda não temos evidência suficiente para recomendar.”

Ou simplesmente:

“Não faça.”

Esse médico pode ser difícil para algumas empresas.

Difícil para vendedores.

Difícil para determinados modelos de negócio.

Talvez até difícil para o próprio paciente, quando ele chega querendo uma solução rápida e recebe em troca uma explicação que não gostaria de ouvir.

Mas existe uma enorme diferença entre oferecer aquilo que alguém deseja comprar e indicar aquilo de que uma pessoa realmente precisa.

Referências:

Clemens J, Gottlieb JD. Do Physicians’ Financial Incentives Affect Medical Treatment and Patient Health?American Economic Review. 2014.
PubMed – PMID 25170174

Robertson C, Rose S, Kesselheim AS. Effect of financial relationships on the behaviors of health care professionals: a review of the evidence. J Law Med Ethics. 2012.
PubMed – PMID 23061573

Bernat JL. Restoring medical professionalism. Neurology. 2012.
PubMed – PMID 22915177

Pisaniello MS et al. Effect of medical student debt on mental health, academic performance and specialty choice: a systematic review. BMJ Open. 2019.
PubMed – PMID 31270123

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