O tratamento do lipedema melhora os sintomas — mas eles não melhoram todos ao mesmo tempo

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Uma das maiores dificuldades no tratamento do lipedema é alinhar expectativa e realidade.

Muitas pacientes começam o tratamento esperando que dor, edema, sensibilidade, peso nas pernas, equimoses, cansaço e dificuldade para caminhar melhorem juntos e rapidamente.

Mas um recente estudo, com 1.300 pacientes com diagnóstico clínico de lipedema, mostrou que isso não acontece dessa forma.

Os sintomas parecem seguir uma ordem relativamente consistente de melhora. Alguns respondem mais rápido. Outros precisam de meses — e, em alguns casos, mais de um ano — para apresentar melhora importante.

O que o estudo avaliou?

As pacientes foram acompanhadas com o QuASiL, questionário validado que avalia 13 sintomas relacionados ao lipedema, entre eles:

  • dor;
  • sensibilidade ao toque;
  • facilidade para formar equimoses;
  • sensação de pressão ou tensão;
  • calor/queimação;
  • frio;
  • cãibras;
  • peso nas pernas;
  • fadiga;
  • edema;
  • irritação da pele;
  • prurido;
  • dificuldade para caminhar.

O acompanhamento mediano foi de aproximadamente 181 dias, mas algumas pacientes foram acompanhadas por quase cinco anos. O tratamento foi conservador e individualizado, incluindo diferentes combinações de compressão, drenagem linfática, exercício e orientação alimentar.

É importante destacar que este não foi um ensaio clínico com um protocolo único. Portanto, o estudo não permite dizer qual intervenção específica foi responsável pela melhora. O objetivo foi entender como os sintomas evoluem ao longo do tratamento conservador.

Todos os sintomas melhoraram, mas em velocidades diferentes

Esse foi o principal achado.

Os 13 sintomas avaliados apresentaram melhora ao longo do acompanhamento, mas a melhora não ocorreu simultaneamente. Seis métodos estatísticos diferentes apontaram para praticamente a mesma hierarquia.

Isso ajuda a responder uma pergunta muito frequente no consultório:

“Estou tratando, mas ainda tenho alguns sintomas. Isso significa que o tratamento não está funcionando?”

Nem sempre.

Alguns sintomas são naturalmente mais lentos para responder.

Os sintomas que tendem a melhorar mais rápido

Entre os sintomas mais responsivos estavam:

irritação da pele — redução média de 66,4%
dificuldade para caminhar — 62,6%
prurido — 62,0%
calor/queimação — 64,4%.

Esses sintomas podem refletir fenômenos mais dinâmicos, relacionados a mediadores inflamatórios, vasomotricidade e impacto funcional.

Por isso, muitas pacientes podem perceber primeiro melhora de:

  • ardência;
  • coceira;
  • desconforto cutâneo;
  • mobilidade.

Isso pode acontecer antes de alterações mais estruturais do tecido.

Os sintomas mais persistentes

O estudo identificou um grupo de sintomas que tende a melhorar mais lentamente:

equimoses
edema
sensibilidade ao toque
peso nas pernas
fadiga
dor
pressão/tensão.

Esse grupo foi chamado de “núcleo persistente”.

As equimoses foram o sintoma mais resistente.

Mesmo assim, elas melhoraram.

Entre as pacientes que apresentaram resposta global significativa, a redução média das equimoses foi de 39,1%. Portanto, “mais resistente” não significa “sem resposta”.

Por que as equimoses demoram tanto para melhorar?

Provavelmente porque representam uma alteração mais estrutural.

A tendência a formar equimoses no lipedema está relacionada à fragilidade capilar e alterações da microvasculatura. Estruturas vasculares não se modificam na mesma velocidade que sintomas associados a mediadores inflamatórios ou vasomotores.

Por isso, é plausível que ardência ou prurido melhorem antes que a fragilidade vascular seja modificada. O próprio estudo propõe que o remodelamento vascular tende a ocorrer em uma escala temporal mais lenta.

Isso tem uma implicação prática importante:

continuar apresentando equimoses após semanas ou meses de tratamento não significa necessariamente que o tratamento falhou.

E o edema?

O edema foi outro sintoma particularmente persistente.

Entre as pacientes com resposta mais intensa ao tratamento, 67,2% ainda apresentavam edema ativo no melhor momento observado, apesar da melhora global importante.

Isso mostra como é inadequado julgar todo o tratamento com base em apenas um sintoma.

Uma paciente pode estar:

  • com menos dor;
  • caminhando melhor;
  • dormindo melhor;
  • com menos sensação de peso;
  • com menor irritação da pele;

e ainda apresentar edema residual.

Isso não significa ausência de resposta.

Quanto tempo pode levar?

Talvez esse seja o resultado mais importante para alinhar expectativas.

Na análise de tempo para atingir pelo menos 50% de melhora, houve diferenças enormes entre os sintomas.

A mediana foi aproximadamente:

546 dias para equimoses — cerca de 18 meses
381 dias para sensibilidade ao toque
368 dias para edema
203 dias para calor/queimação
205 dias para sensação de frio.

Isso significa que avaliar um tratamento após poucas semanas pode ser cedo demais para determinados sintomas.

A melhora do lipedema precisa ser pensada em meses e, para algumas manifestações, possivelmente anos, e não em uma expectativa imediata.

Mas esses tempos não devem ser interpretados como promessa individual ou cronograma rígido. O estudo é retrospectivo, os tratamentos foram diferentes entre as pacientes e existe grande variação individual.

A evolução não é linear

Outro ponto muito importante é que o tratamento do lipedema não segue necessariamente uma linha reta.

Pacientes podem:

  • melhorar;
  • estabilizar;
  • apresentar períodos de piora;
  • voltar a melhorar.

O estudo analisou também pacientes que tiveram uma fase de piora depois de um período de controle.

Os primeiros sintomas a reaparecer foram:

edema
e
sensação de pressão/tensão.

O edema reapareceu em 81,6% das pacientes elegíveis para essa análise, e a pressão/tensão em 72,7%.

Isso levanta uma hipótese interessante: edema e pressão podem funcionar como sinais precoces de perda de controle dos sintomas.

Ainda é necessário confirmar isso prospectivamente, mas pode ser útil ensinar a paciente a reconhecer mudanças precoces em seu próprio corpo.

Piora não significa que tudo voltou ao início

Esse conceito é importante.

Assim como os sintomas não desaparecem todos juntos, eles também não reaparecem todos juntos.

Edema e pressão podem aumentar enquanto outros sintomas continuam relativamente controlados.

Portanto, uma piora pontual não deve automaticamente ser interpretada como “o tratamento deixou de funcionar”.

O mais adequado é compreender:

qual sintoma voltou, por que voltou e o que mudou naquele período.

O tratamento não deve ser avaliado apenas pelo tamanho das pernas

O estudo analisou sintomas, não redução de volume ou emagrecimento.

Isso reforça uma ideia fundamental no lipedema:

resultado clínico não é sinônimo de perda de peso.

Uma mulher pode ter melhora importante de:

  • dor;
  • função;
  • mobilidade;
  • peso nas pernas;
  • sintomas cutâneos;

mesmo sem uma transformação imediata na aparência corporal.

Da mesma forma, perder peso não garante necessariamente resolução de todos os sintomas do lipedema.

O tratamento precisa avaliar a mulher como um todo.

O que é razoável esperar do tratamento?

O dado mais importante desse trabalho é que existe possibilidade real de melhora clínica com tratamento conservador.

Mas a expectativa precisa ser adequada.

Não devemos prometer:

“em três meses todos os sintomas vão desaparecer”.

Os dados não sustentam isso.

O que o estudo sugere é:

alguns sintomas melhoram mais rapidamente, enquanto alterações relacionadas a edema, fragilidade capilar, sensibilidade, dor e remodelamento estrutural exigem mais tempo.

O tratamento deve ser visto como uma construção progressiva.

Primeiro podem melhorar sintomas mais dinâmicos.

Depois, com continuidade, podem ocorrer mudanças mais lentas nos sintomas persistentes.

O objetivo não é zerar todos os sintomas imediatamente

Na prática, o tratamento do lipedema deveria buscar:

  • reduzir dor e desconforto;
  • melhorar função e mobilidade;
  • controlar edema;
  • preservar massa muscular;
  • melhorar condicionamento físico;
  • tratar obesidade quando presente;
  • melhorar qualidade alimentar;
  • reduzir fatores que agravam sintomas;
  • manter a paciente funcional e metabolicamente saudável.

A resposta deve ser individualizada.

Uma paciente pode ter como principal problema a dor. Outra, edema. Outra, fadiga. Outra, limitação funcional.

Por isso, não existe um único marcador que defina sucesso terapêutico.

Persistência de um sintoma não significa fracasso

Talvez essa seja a principal mensagem para as pacientes.

Uma mulher pode melhorar muito e continuar tendo equimoses.

Pode melhorar da dor e ainda perceber algum edema.

Pode caminhar melhor antes de notar grande alteração visual nas pernas.

Pode ter períodos de oscilação.

Tudo isso pode fazer parte da evolução.

No estudo, mesmo os sintomas mais resistentes apresentaram melhora relevante, mas em ritmo mais lento.

Conclusão

“ O tratamento do lipedema exige uma palavra que muitas vezes é difícil de aceitar: tempo. A melhora existe, mas não acontece da mesma maneira para todos os sintomas. Irritação, prurido, calor/queimação e dificuldade para caminhar podem responder relativamente mais rápido. Equimoses, edema, sensibilidade, peso nas pernas, fadiga e dor tendem a ser mais persistentes. E durante períodos de piora, edema e pressão/tensão podem ser os primeiros sinais a retornar. A mensagem mais importante é: tratamento do lipedema não deve ser avaliado por uma única consulta, um único sintoma ou pelo número da balança. Ele deve ser acompanhado ao longo do tempo, avaliando tendência, função, sintomas e qualidade de vida.”  – Aponta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

No lipedema, melhorar não significa necessariamente que tudo desapareça ao mesmo tempo. Muitas vezes, significa perceber que o corpo está melhorando em uma ordem própria — e respeitar o tempo biológico dessa recuperação.

Referência: Amato ACM, Amato JLS, Benitti DA. Order of resolution and recurrence of inflammatory symptoms in lipedema: a longitudinal study of 1,300 patients. J Vasc Bras. 2026;25.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

 

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