
A exposição à luz durante a noite tornou-se praticamente inevitável. Televisores, celulares, luminárias, relógios digitais e iluminação externa podem manter o quarto parcialmente iluminado mesmo enquanto dormimos. Um novo estudo sugere que esse hábito pode estar relacionado a alterações na estrutura do coração e ao aumento do risco cardiovascular.
Publicado em 2026 no European Heart Journal, o trabalho avaliou participantes do UK Biobank que utilizaram no pulso, durante sete dias, um sensor capaz de medir individualmente a exposição à luz. Os pesquisadores consideraram como exposição noturna a presença de luminosidade acima de 3 lux durante o período de cinco horas de menor atividade de cada participante.
Três lux representam uma luminosidade relativamente baixa. Portanto, não é necessário dormir com uma lâmpada forte acesa para que o organismo perceba a presença de luz no ambiente.
O que aconteceu com o coração?
A análise principal incluiu aproximadamente 11 mil pessoas que, cerca de três anos depois da avaliação da luminosidade, realizaram uma ressonância magnética cardíaca.
Quando comparadas às pessoas sem exposição noturna acima de 3 lux, aquelas com maior exposição apresentaram sinais de remodelamento cardíaco desfavorável, como:
- aumento da massa e da espessura das paredes do ventrículo esquerdo;
- redução da capacidade de contração do músculo cardíaco;
- piora de parâmetros sensíveis da deformação do miocárdio;
- dilatação do ventrículo direito;
- aumento do átrio esquerdo e redução de sua função.
As diferenças individuais foram relativamente pequenas, mas apresentaram uma relação linear: quanto maior a exposição à luz durante a noite, mais desfavoráveis eram alguns dos parâmetros cardíacos.
Essas alterações eram subclínicas, ou seja, não significavam necessariamente a presença imediata de uma doença ou de sintomas. Entretanto, podem representar mudanças precoces associadas ao desenvolvimento futuro de problemas cardiovasculares.
Maior risco de doenças cardiovasculares
Em uma análise com mais de 73 mil participantes acompanhados por aproximadamente oito a dez anos, a maior exposição noturna à luz esteve associada a:
- risco 29% maior de insuficiência cardíaca;
- risco 15% maior de fibrilação atrial;
- risco 24% maior de infarto;
- risco 33% maior de acidente vascular cerebral;
- risco 26% maior de morte cardiovascular.
Essas associações permaneceram presentes mesmo depois de ajustes para idade, sexo, índice de massa corporal, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, alimentação, hipertensão, diabetes, colesterol, doenças renais, poluição e outros fatores.
Qual seria a explicação?
A luz é um dos principais reguladores do relógio biológico. A exposição noturna pode reduzir a produção de melatonina, atrasar o início do sono e provocar desalinhamento do ritmo circadiano.
No estudo, as pessoas com maior exposição à luz dormiam, em média, menos. A menor duração do sono explicou estatisticamente entre 24% e 49% de várias associações encontradas entre luminosidade e alterações cardíacas.
No entanto, dormir menos provavelmente não é o único mecanismo. A desorganização do ritmo circadiano também pode aumentar a atividade do sistema nervoso simpático, alterar o controle da pressão arterial, favorecer inflamação, estresse oxidativo e disfunção dos vasos sanguíneos.
O estudo prova que a luz causa doenças cardíacas?
Não. Este foi um estudo observacional e, por isso, consegue identificar associações, mas não comprovar uma relação direta de causa e efeito.
A exposição à luz foi medida durante apenas uma semana e os sensores não registraram o comprimento de onda da iluminação. Além disso, a maioria dos participantes era branca e apresentava condições de saúde melhores do que a população geral. Trabalhadores noturnos também foram excluídos.
Embora os pesquisadores tenham realizado diversos ajustes estatísticos, ainda podem existir fatores não medidos que expliquem parte dos resultados.
Portanto, não devemos interpretar que qualquer luz durante uma única noite provocará uma doença cardiovascular. O estudo avalia padrões habituais de exposição e seus possíveis efeitos acumulados.
Como proteger o sono e o coração?
“Reduzir a luminosidade noturna é uma atitude simples, de baixo custo e potencialmente benéfica. Algumas medidas podem ajudar: desligar televisão e luzes antes de dormir; diminuir o brilho e evitar o uso do celular próximo ao horário de sono; utilizar cortinas que bloqueiem a iluminação externa; retirar ou cobrir aparelhos com LEDs intensos; manter o quarto o mais escuro possível; utilizar luz fraca e direcionada caso seja necessário levantar durante a noite; procurar manter horários regulares e duração adequada do sono. Esse efeito provavelmente é maior nas mulheres por isso o cuidado deve ser ainda maior, principalmente nas mulheres com lipedema.” – Alerta o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).
Ainda não sabemos se escurecer o quarto, isoladamente, reduz diretamente o número de infartos ou casos de insuficiência cardíaca. Entretanto, os resultados reforçam que a escuridão noturna e o sono adequado fazem parte de um estilo de vida favorável à saúde cardiovascular.
Cuidar do coração não envolve apenas alimentação, exercício, pressão arterial e colesterol. A qualidade do ambiente em que dormimos também pode ser importante.
Referência: Dai J, Dai W, Heianza Y, Qi L. Nighttime light exposure and cardiac structure and function. European Heart Journal. 2026. doi:10.1093/eurheartj/ehag563.
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