
Durante décadas, a perda de peso foi resumida a uma orientação aparentemente simples: “coma menos e se movimente mais”. Quando alguém não conseguia emagrecer ou recuperava o peso perdido, a explicação costumava ser atribuída à falta de disciplina.
Hoje, a ciência mostra que essa interpretação é incompleta e injusta. A obesidade não é uma falha de caráter, mas uma condição complexa, influenciada pelo cérebro, pelos hormônios, pela genética, pelo ambiente e pela própria história evolutiva da humanidade.
Um corpo antigo vivendo em um mundo novo
A evolução humana acontece lentamente. Os primeiros representantes do Homo habilis surgiram há aproximadamente 2,5 milhões de anos. Durante quase todo esse período, nossos antepassados viveram em ambientes marcados pela escassez, pela incerteza alimentar e pela necessidade de grande esforço físico para conseguir comida.
Nesse contexto, armazenar gordura representava uma vantagem para a sobrevivência. Ter pouca reserva energética poderia significar não resistir a períodos de fome, doenças, invernos rigorosos ou longos deslocamentos. Ao longo de milhares de gerações, o organismo humano desenvolveu mecanismos extremamente eficientes para economizar energia, estimular a fome e proteger seus estoques de gordura.
O problema é que o ambiente mudou muito mais rapidamente do que a nossa biologia.
Nos últimos 200 anos, especialmente a partir da Revolução Industrial, ocorreram transformações profundas na produção, no transporte e na oferta de alimentos. A agricultura tornou-se mais produtiva, a comida passou a ser encontrada em abundância e surgiram produtos industrializados altamente palatáveis, ricos em açúcar, gordura, sal e calorias.
Ao mesmo tempo, nossa alimentação passou a incluir uma grande variedade de aditivos químicos, enquanto máquinas, automóveis, elevadores, telas e novas formas de trabalho reduziram drasticamente a necessidade de movimento.
Em apenas algumas gerações, saímos de um ambiente em que era preciso gastar energia para obter alimento para outro em que alimentos baratos, concentrados em calorias e intensamente estimulantes estão disponíveis praticamente o tempo todo.
Nosso corpo e nosso cérebro não tiveram tempo evolutivo suficiente para acompanhar tamanha transformação. Carregamos uma biologia preparada para enfrentar a escassez, mas vivemos cercados pela abundância. Esse desencontro ajuda a explicar a atual pandemia de obesidade.
Por que o corpo resiste à perda de peso?
Quando uma pessoa emagrece, o organismo nem sempre interpreta essa mudança como algo positivo. Para os mecanismos mais antigos do cérebro, perder peso pode representar uma ameaça à sobrevivência.
Como resposta, o corpo inicia uma série de adaptações:
- a fome aumenta;
- os desejos por alimentos mais calóricos tornam-se mais intensos;
- a sensação de saciedade pode diminuir;
- o gasto energético é reduzido;
- o organismo passa a utilizar as calorias com maior eficiência.
Essas respostas não surgiram para nos prejudicar. Elas foram fundamentais para que nossos antepassados sobrevivessem quando o alimento era escasso. No ambiente atual, porém, os mesmos mecanismos dificultam tanto a perda quanto a manutenção do peso.
É por isso que dietas muito restritivas frequentemente produzem emagrecimento inicial, mas são seguidas pela recuperação parcial ou total do peso. Não se trata simplesmente de “perder o controle”. O organismo está reagindo como aprendeu ao longo de milhões de anos: tentando recuperar suas reservas energéticas.
O cérebro pode “memorizar” o peso anterior
Pesquisas recentes indicam que o cérebro possui mecanismos capazes de defender o peso corporal e, de certa forma, “lembrar” quanto o corpo pesava anteriormente.
Para nossos antepassados, essa memória era útil. Se alguém perdesse peso durante um período de fome, o organismo tentaria recuperar sua reserva assim que os alimentos voltassem a estar disponíveis.
No mundo moderno, esse mecanismo pode se transformar em um obstáculo. Depois que uma pessoa permanece com um peso mais elevado, o cérebro pode passar a interpretar esse novo peso como o padrão que precisa ser protegido.
Assim, quando ocorre o emagrecimento, a biologia trabalha para levar o corpo de volta ao nível anterior. Isso ajuda a compreender por que tantas pessoas recuperam o peso depois de uma dieta, mesmo quando estão genuinamente comprometidas com o tratamento.
A recuperação do peso não significa necessariamente falta de disciplina. Muitas vezes, significa que o corpo está executando com eficiência exatamente aquilo para o qual evoluiu: defender-se da perda de reservas energéticas.
O papel dos medicamentos
Medicamentos como Wegovy e Mounjaro trouxeram novas possibilidades para o tratamento da obesidade. Eles reproduzem ou potencializam a ação de hormônios envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro, reduzindo o apetite e aumentando a saciedade.
Esses medicamentos ajudam a enfrentar parte da resposta biológica que dificulta o emagrecimento. Entretanto, não funcionam da mesma maneira para todas as pessoas. Alguns pacientes apresentam efeitos adversos, outros perdem pouco peso e há aqueles que recuperam parte do peso após a interrupção do tratamento.
Isso acontece porque, quando o medicamento é suspenso, os mecanismos biológicos de defesa podem voltar a agir.
“O avanço das pesquisas em obesidade e metabolismo poderá permitir o desenvolvimento de tratamentos capazes de modificar esses sinais de maneira mais duradoura. Ainda assim, os medicamentos devem ser entendidos como parte de uma estratégia individualizada, acompanhada por profissionais de saúde, e não como uma solução isolada.” – Analisa o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).
A obesidade não é apenas um problema individual
Não podemos responsabilizar exclusivamente o indivíduo por uma condição profundamente influenciada pelo ambiente.
Vivemos expostos a uma oferta constante de produtos ultraprocessados, porções excessivas, publicidade direcionada, jornadas cansativas, privação de sono, estresse e cidades que frequentemente dificultam caminhar ou andar de bicicleta.
Por isso, enfrentar a obesidade exige uma resposta de toda a sociedade. Algumas medidas importantes incluem:
- melhorar a qualidade das refeições escolares;
- reduzir a publicidade de alimentos não saudáveis direcionada às crianças;
- facilitar o acesso a alimentos frescos;
- criar espaços seguros para caminhar, brincar e andar de bicicleta;
- promover educação alimentar para toda a família;
- estabelecer porções mais adequadas em restaurantes;
- ampliar o acesso ao acompanhamento multiprofissional;
- combater o preconceito contra pessoas com obesidade.
Orientar escolhas individuais é importante, mas essas escolhas precisam ser possíveis dentro do ambiente em que as pessoas vivem.
A mudança deve começar na infância
Se desejamos modificar o futuro dessa pandemia, precisamos começar pela infância — e, quando possível, ainda durante a gestação.
Os primeiros anos de vida são um período em que os sistemas responsáveis pelo apetite, pela saciedade, pelo metabolismo e pelo armazenamento de gordura ainda estão em formação. Da gestação até aproximadamente os sete anos, o organismo apresenta grande capacidade de adaptação.
Diversos fatores podem influenciar esse desenvolvimento:
- a alimentação materna durante a gestação;
- a saúde metabólica dos pais;
- a forma como o bebê é alimentado;
- os alimentos oferecidos nos primeiros anos;
- a qualidade do sono;
- o tempo de exposição às telas;
- a prática de atividades físicas;
- o exemplo dos adultos;
- a maneira como a família utiliza a comida;
- o ambiente escolar e comunitário.
Isso não significa colocar crianças em dietas restritivas ou criar uma preocupação excessiva com o peso. Pelo contrário: o objetivo deve ser construir um ambiente saudável, no qual alimentos nutritivos, movimento, sono e equilíbrio emocional façam parte da rotina de maneira natural.
A criança não é a única responsável por suas escolhas. São os adultos, as escolas, os serviços de saúde, a indústria e o poder público que estruturam o ambiente no qual essas escolhas acontecem.
Prevenir a obesidade infantil também não deve significar vigiar corpos ou reforçar estigmas. O foco deve estar na saúde, no desenvolvimento e na criação de hábitos sustentáveis para toda a família.
O que podemos fazer hoje?
Para quem deseja emagrecer, dietas radicais raramente são a melhor estratégia. Mudanças sustentáveis costumam produzir resultados mais seguros e duradouros.
Alguns pontos importantes são:
- manter horários de sono adequados;
- praticar atividade física regularmente, mesmo que seja uma caminhada;
- priorizar alimentos frescos e minimamente processados;
- reduzir o consumo de produtos ultraprocessados;
- reconhecer os sinais de fome e saciedade;
- controlar o estresse;
- evitar metas irreais;
- procurar acompanhamento profissional quando necessário.
O objetivo não deve ser travar uma guerra contra o próprio corpo, mas compreender sua biologia e trabalhar com ela.
Uma questão de biologia, ambiente e sociedade
A obesidade não é um fracasso pessoal. Ela resulta da interação entre mecanismos cerebrais, hormônios, genes, experiências precoces e um ambiente radicalmente diferente daquele em que o ser humano evoluiu.
Nosso corpo levou cerca de 2,5 milhões de anos para desenvolver mecanismos capazes de sobreviver à falta de alimentos. Nos últimos 200 anos, porém, transformamos completamente a forma de produzir, consumir e nos relacionar com a comida. Biologicamente, não houve tempo para acompanhar tantas mudanças.
A boa notícia é que também temos capacidade para modificar o ambiente. A ciência e a medicina já oferecem novas possibilidades de tratamento, enquanto políticas públicas e estratégias de prevenção podem criar condições mais saudáveis para as próximas gerações.
Se você tem dificuldade para emagrecer ou manter o peso perdido, saiba que não está sozinha e isso não é simplesmente culpa sua. O cérebro pode ser um adversário poderoso, mas compreender seus mecanismos é o primeiro passo para abandonar a culpa e buscar estratégias mais eficazes.
E, se quisermos mudar verdadeiramente o futuro, precisamos começar onde a prevenção tem maior potencial: na infância.
Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.
Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:

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