
Hoje metade do mundo está fazendo algum tipo de dieta. Infelizmente as pessoas acreditam que o conceito de que calorias é uma equação simples e ganhamos peso porque consuminos mais calorias do que gastamos.
Um recente artigo revisita os dados do clássico Minnesota Starvation Experiment para explicar por que, depois de uma perda substancial de peso, o organismo:
- reduz o gasto energético;
- aumenta intensamente a fome;
- recupera gordura mais rapidamente do que massa magra;
- pode continuar estimulando a ingestão mesmo depois de a gordura perdida já ter sido recuperada;
- e, por isso, frequentemente termina com mais gordura do que possuía antes do emagrecimento.
A tese de Abdul Dulloo é que esses fenômenos não representam simplesmente falta de disciplina ou “fracasso da dieta”. Eles fazem parte de um conjunto coordenado de adaptações fisiológicas, chamadas no artigo de “reações à fome”, que evoluíram para restaurar rapidamente as reservas corporais após períodos de escassez.
O organismo não regula apenas o peso total. Ele procura recuperar separadamente:
- a massa de gordura;
- a massa livre de gordura, especialmente tecidos magros;
- a relação entre esses compartimentos.
Quando a recuperação de gordura e massa magra ocorre em velocidades diferentes, pode haver hiperfagia persistente, recuperação preferencial de gordura e ultrapassagem do nível inicial de adiposidade.
2. O Minnesota Starvation Experiment
O experimento foi conduzido entre outubro de 1944 e novembro de 1945, na Universidade de Minnesota, sob liderança de Ancel Keys. Seu objetivo original era entender os efeitos físicos, psicológicos e metabólicos da fome e descobrir a melhor maneira de reabilitar populações submetidas à escassez alimentar durante a Segunda Guerra Mundial.
Participantes
Foram selecionados homens jovens, saudáveis, majoritariamente objetores de consciência. Dos voluntários originais, 32 completaram as principais fases analisadas.
Os participantes apresentavam ampla variação de gordura corporal inicial, aproximadamente entre 6% e 25%, mas nenhum tinha obesidade manifesta. Essa variabilidade permitiu investigar como a adiposidade inicial influenciava a resposta à perda e à recuperação do peso.
Fases do estudo
O experimento teve quatro momentos principais:
- Controle inicial — 12 semanas: estabilização do peso e determinação das necessidades energéticas individuais.
- Semifome — 24 semanas: dieta semelhante à consumida nas regiões europeias afetadas pela guerra, baseada em pão integral, batatas, cereais, nabo e repolho, com quantidades mínimas de carne e laticínios.
- Realimentação restrita — 12 semanas: os homens foram divididos em quatro níveis de ingestão calórica. Também foram testados suplementos de proteínas e vitaminas.
- Realimentação livre — 8 semanas: 12 participantes puderam comer à vontade, com registro rigoroso de toda a ingestão.
Os participantes permaneceram fisicamente ativos durante o estudo e viveram sob monitoramento contínuo.
Perda de peso
Durante as 24 semanas de semifome, os participantes perderam entre 19% e 28% do peso corporal, com perda média próxima de 24%.
A dieta e o estilo de vida eram rigidamente controlados, o que torna esse estudo excepcional. Um experimento semelhante dificilmente seria realizado hoje por razões éticas.
3. Principais observações do experimento
3.1 Redução profunda do metabolismo
O metabolismo basal médio caiu de aproximadamente 6,7 MJ/dia para 2,6 MJ/dia ao final da semifome.
Cerca de 65% dessa queda podia ser explicada pela redução do tamanho corporal e da quantidade de tecidos metabolicamente ativos. Os 35% restantes correspondiam a uma adaptação metabólica adicional.
Depois dos ajustes para gordura e massa livre de gordura, a redução adaptativa do metabolismo basal foi estimada em aproximadamente:
- 10% após quatro semanas de semifome;
- 20% após 12 semanas;
- 25% após 24 semanas;
- ainda cerca de 10% após 12 semanas de realimentação restrita.
Portanto, o metabolismo não retornava imediatamente ao normal quando a alimentação aumentava.
3.2 Hiperfagia prolongada
Quando os participantes passaram a comer livremente, apresentaram fome intensa e ingeriram grandes quantidades de alimentos.
Essa hiperfagia persistiu durante semanas, inclusive depois de o peso corporal médio já ter retornado ao valor anterior à fome. Ao final, os homens recuperaram mais peso do que haviam perdido, com uma ultrapassagem média de aproximadamente 3,3 kg de peso e 4,6 kg de gordura.
3.3 Recuperação mais rápida da gordura
A gordura frequentemente foi recuperada mais rapidamente do que a massa livre de gordura. O autor chama esse padrão de “preferential catch-up fat”, ou recuperação preferencial de gordura.
Em outras palavras, a composição corporal não retorna ao ponto inicial de maneira uniforme. A gordura pode atingir ou ultrapassar seu nível anterior enquanto a massa magra ainda permanece abaixo do normal.
4. A autorregulação da composição corporal
Dulloo propõe que a recuperação do peso é governada por vários sistemas de controle interligados. Eles utilizariam uma espécie de “memória” da composição corporal anterior à privação.
Essa memória não precisa ser entendida como um registro consciente ou um ponto fixo literal. Trata-se de mecanismos fisiológicos que respondem aos déficits de gordura e tecidos magros.
Os três componentes centrais do modelo são:
- controle da distribuição de energia entre gordura e proteína;
- termogênese adaptativa;
- controle da fome e da ingestão alimentar.
5. Distribuição de energia entre gordura e massa magra
O conceito de razão P
O artigo usa a chamada razão P para representar a proporção da energia corporal mobilizada ou armazenada na forma de proteína:
- durante o emagrecimento, indica quanto da energia perdida veio das proteínas corporais;
- durante a recuperação, indica quanto da energia depositada foi destinada à reconstrução de tecidos proteicos.
Uma razão P elevada significa maior participação de proteína ou massa magra. Uma razão baixa significa maior participação da gordura.
Uma característica relativamente estável do indivíduo
Os dados mostraram forte associação entre a razão P durante a semifome e durante a realimentação. Quem mobilizava proporcionalmente mais proteína durante o emagrecimento também tendia a depositar mais proteína na recuperação.
Isso sugere que a divisão de energia entre gordura e tecidos magros constitui uma característica relativamente conservada de cada pessoa.
Influência da gordura corporal inicial
A porcentagem inicial de gordura foi o principal preditor dessa distribuição:
- indivíduos mais magros utilizaram proporcionalmente mais proteína durante a privação;
- indivíduos com mais gordura conseguiram poupar mais proteína e mobilizar proporcionalmente mais gordura.
Mesmo dentro da faixa considerada saudável para homens jovens, pequenas diferenças de adiposidade estiveram associadas a diferenças de aproximadamente 2,5 a 3 vezes na razão P.
O autor denomina a porcentagem inicial de gordura — ou, mais precisamente, a relação inicial entre gordura e massa livre de gordura — uma “memória da partição”.
6. Duplo controle da termogênese adaptativa
O artigo distingue dois componentes da adaptação metabólica.
6.1 Termogênese não específica
É uma resposta relativamente rápida às mudanças na oferta de energia.
Durante a restrição alimentar, o organismo diminui o gasto energético. Quando a alimentação retorna, esse componente tende a se normalizar mais rapidamente e pode aumentar durante a hiperfagia.
O autor relaciona esse sistema principalmente ao sistema nervoso simpático e a órgãos com alto gasto metabólico, como fígado, rins e tecido adiposo marrom. Ele também pode responder a fatores como frio, infecções e deficiências nutricionais.
Sua função seria atenuar o desequilíbrio energético imediato.
6.2 Termogênese específica da gordura
O segundo componente responde mais lentamente ao estado das reservas adiposas.
Quanto maior o déficit de gordura, maior a supressão metabólica residual. Essa relação foi observada tanto durante o emagrecimento quanto durante a recuperação. Em contraste, a redução metabólica não apresentou relação significativa com o déficit de massa livre de gordura.
Assim, mesmo depois de aumentar a alimentação, o organismo pode continuar economizando energia enquanto a gordura não tiver sido recuperada.
A energia poupada por esse mecanismo seria direcionada preferencialmente para a reposição das reservas adiposas, acelerando a recuperação da gordura em relação à massa magra.
7. Controle da fome e do apetite
A reanálise do experimento mostrou que a hiperfagia durante as oito semanas de alimentação livre era determinada por três fatores:
- déficit de gordura corporal;
- déficit de massa livre de gordura;
- intensidade da restrição energética anterior.
Juntos, esses fatores explicavam aproximadamente 80% da variação individual da hiperfagia.
O déficit de gordura foi o determinante mais forte, mas o déficit de massa magra também exerceu influência independente.
Isso amplia a visão lipostática tradicional, segundo a qual a fome de longo prazo seria controlada principalmente pelas reservas adiposas. O modelo de Dulloo propõe dois sinais simultâneos:
- um sistema adipostático, relacionado à gordura;
- um sistema proteinostático, relacionado à massa livre de gordura.
A fome compensatória teria a função de fornecer energia suficiente para recuperar ambos os compartimentos.
8. “Engorda colateral” e ultrapassagem da gordura inicial
Este é um dos conceitos mais importantes do artigo.
Como ocorre
Durante a recuperação:
- o metabolismo permanece parcialmente suprimido;
- a fome aumenta em resposta aos déficits de gordura e massa magra;
- a gordura é recuperada mais rapidamente;
- a massa magra continua abaixo do nível inicial;
- o déficit residual de massa magra mantém o estímulo para comer;
- como a alimentação não produz exclusivamente tecido magro, mais gordura continua sendo depositada.
O autor chama essa deposição adicional de gordura, necessária ou concomitante à tentativa de restaurar a massa magra, de “collateral fattening” — engorda colateral.
A hiperfagia só diminuiu quando a massa livre de gordura se aproximou da recuperação completa. Nesse momento, entretanto, a gordura já havia ultrapassado o valor inicial.
Quem apresentou maior ultrapassagem?
“Entre os participantes, o excesso de gordura recuperada variou aproximadamente entre 1 e 10 kg. A magnitude foi inversamente relacionada à adiposidade inicial: quanto mais magro o indivíduo antes da restrição, maior a tendência de ultrapassar sua gordura inicial durante a recuperação. Isso acontece porque uma mesma perda proporcional de peso representa depleção mais grave das reservas de gordura e massa magra em uma pessoa inicialmente magra. Vejo o mesmo resultado nas mulheres com lipedema. As que tem pouca gordura e fazem dietas restritivas pagam um preço mais alto pela restrição. Não recomendo restrição alimentar para ninguém.” – Avalia o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).
Conclusão
A mensagem central é que a recuperação de peso após restrição energética constitui uma resposta biológica organizada. O organismo combina economia de energia, aumento da fome e controle da distribuição entre gordura e massa magra para restaurar a capacidade de sobrevivência.
Esses mecanismos foram vantajosos em um ambiente marcado por períodos recorrentes de fome, mas podem tornar-se desfavoráveis no ambiente atual, no qual alimentos são abundantes. Eles ajudam a explicar a recuperação de peso após dietas, o efeito sanfona, a rápida recuperação de gordura depois da desnutrição e parte da predisposição à obesidade.
A contribuição mais original do artigo é mostrar que a fome após o emagrecimento não parece responder apenas ao déficit de gordura. O déficit de massa magra também pode manter o impulso para comer. Quando a gordura é recuperada antes da massa magra, a continuação dessa fome produz engorda colateral e pode levar a um nível de gordura superior ao inicial.
Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.
Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:


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