
Um recente estudo investigou se diferentes tipos de preparo de café se associam de forma diferente ao envelhecimento biológico.
A pergunta prática foi:
Café instantâneo e café filtrado têm a mesma relação com marcadores de envelhecimento biológico?
A resposta encontrada foi: não.
No estudo, o café filtrado foi associado a sinais de envelhecimento biológico mais lento, enquanto o café instantâneo foi associado a marcadores de envelhecimento biológico mais acelerado.
2. Por que o estudo é importante?
O café é uma das bebidas mais consumidas do mundo. Muitos estudos já associaram o consumo de café a menor risco de algumas doenças crônicas, inflamação, estresse oxidativo, diabetes tipo 2, cânceres e mortalidade geral. Porém, os autores destacam que poucos trabalhos avaliaram especificamente envelhecimento biológico, e menos ainda separaram o tipo de café: instantâneo, filtrado ou outros métodos.
Esse ponto é importante porque “café” não é uma substância única. O método de preparo pode mudar a concentração de compostos bioativos, como ácidos clorogênicos, diterpenos, antioxidantes e outros componentes potencialmente relevantes para metabolismo, inflamação e envelhecimento.
3. População estudada
O estudo usou dados do UK Biobank, uma grande base populacional do Reino Unido. A amostra final incluiu 49.414 adultos, com média de idade de 56,39 anos. Do total, 44,3% eram mulheres e 91,1% eram da Inglaterra.
Os participantes apresentavam uma carga importante de comorbidades: aproximadamente 64,9% tinham hipertensão, 28,7% doença cardiovascular, 10,7% câncer e 5,8% diabetes. O consumo médio diário foi de 1,47 xícara de café instantâneo, 0,71 xícara de café filtrado e 0,03 xícara de outros tipos de café.
Para chegar aos 49.414 participantes, os autores excluíram indivíduos sem dados necessários para calcular os marcadores de envelhecimento, sem questionários dietéticos completos, com menos de três recordatórios alimentares preenchidos ou com dados ausentes de covariáveis.
4. Como o envelhecimento biológico foi medido?
Os autores usaram três marcadores:
1. rLTL — relative leukocyte telomere length
É o comprimento relativo dos telômeros dos leucócitos. Telômeros tendem a encurtar com divisões celulares e são usados como marcador de envelhecimento celular.
2. KDM-BA Accel
É a aceleração da idade biológica pelo método Klemera-Doubal. Integra variáveis como função pulmonar, pressão sistólica, albumina, fosfatase alcalina, ureia, creatinina, PCR, hemoglobina glicada e colesterol.
3. PhenoAge Accel
É uma medida de aceleração da idade fenotípica, derivada de biomarcadores clínicos relacionados a risco de mortalidade, como albumina, creatinina, PCR, glicose e índices hematológicos.
Os autores destacam que KDM-BA e PhenoAge tendem a predizer melhor morbidade e mortalidade do que o comprimento telomérico isoladamente, por isso a combinação dos três marcadores permite uma avaliação mais abrangente do envelhecimento.
5. Como o café foi avaliado?
Os participantes responderam questionários alimentares sobre o consumo de diferentes tipos de café. O estudo separou principalmente:
café instantâneo,
café filtrado,
outros tipos de café.
Também foram consideradas informações como café descafeinado, café com leite, café adoçado e uso de adoçantes artificiais. Participantes que completaram apenas um dos três recordatórios foram excluídos; quando havia múltiplos recordatórios, os autores usaram a média de consumo como estimativa.
6. Ajustes estatísticos
O modelo ajustado considerou muitos potenciais fatores de confusão, incluindo idade, sexo, raça/etnia, educação, região geográfica, índice de privação socioeconômica de Townsend, tabagismo, álcool, atividade física, IMC, hipertensão, doença cardiovascular, diabetes, câncer e características do café, como açúcar, adoçante, leite e descafeinado.
Isso é importante porque pessoas que tomam café filtrado podem ter perfil socioeconômico, estilo de vida e hábitos alimentares diferentes de pessoas que tomam café instantâneo.
7. Principais resultados
Café instantâneo
Depois dos ajustes, o café instantâneo foi associado a maior aceleração da idade biológica.
Para KDM-BA Accel, em comparação com quem não consumia café, os coeficientes foram:
0–1 xícara/dia: β = 0,050
1–3 xícaras/dia: β = 0,092
>3 xícaras/dia: β = 0,166
com tendência significativa (P-trend = 0,002).
Para PhenoAge Accel, o padrão foi semelhante, especialmente em consumo acima de 3 xícaras/dia, com β = 0,190. Para rLTL, o café instantâneo foi associado a valores menores de comprimento telomérico relativo em algumas categorias.
Em termos práticos, o efeito do café instantâneo foi estatisticamente significativo, mas os autores reconhecem que a magnitude individual foi pequena, cerca de 0,1–0,2 ano de aceleração. Eles argumentam que isso pode ser pouco relevante individualmente, mas potencialmente importante em nível populacional, considerando milhões de consumidores.
Café filtrado
O café filtrado mostrou associação oposta.
Em comparação com não consumidores, o consumo de café filtrado foi associado a menor KDM-BA Accel:
0–1 xícara/dia: β = -0,326
1–3 xícaras/dia: β = -0,762
>3 xícaras/dia: β = -1,118
com tendência altamente significativa (P-trend <0,001).
Também houve associação com menor PhenoAge Accel:
0–1 xícara/dia: β = -0,317
1–3 xícaras/dia: β = -0,735
>3 xícaras/dia: β = -0,941.
Para rLTL, o café filtrado foi associado a maior comprimento telomérico relativo nas categorias de menor e médio consumo, embora o resultado para >3 xícaras/dia tenha intervalo de confiança cruzando zero.
Outros tipos de café
Os autores não encontraram associações significativas entre “outros tipos de café” e os marcadores de envelhecimento biológico.
8. Análises de subgrupos
Alguns efeitos foram mais evidentes em subgrupos.
O consumo de >3 xícaras/dia de café instantâneo foi associado a maior KDM-BA Accel especialmente em pessoas com ≥60 anos, homens e fumantes atuais. Para PhenoAge Accel, o aumento foi observado principalmente em pessoas com IMC <30 e fumantes atuais.
Já para café filtrado, o consumo de >3 xícaras/dia foi associado a menor KDM-BA Accel mais fortemente em homens do que em mulheres.
9. Análises de sensibilidade
Os autores fizeram várias análises para testar a robustez dos achados.
Os resultados permaneceram semelhantes após excluir participantes com doença cardiovascular, câncer ou diabetes; após excluir consumidores de café com açúcar, adoçantes artificiais, descafeinado ou leite; e após ajuste adicional pela ingestão calórica total.
Eles também fizeram análise de E-value, uma técnica para estimar o quanto um confundidor não medido precisaria ser forte para explicar a associação. Para café filtrado, os valores sugeriram maior robustez, especialmente para KDM-BA e PhenoAge. Para café instantâneo, a robustez foi menor, mas ainda presente.
10. Análise de mediação
Os autores avaliaram se alguns marcadores metabólicos ou inflamatórios poderiam mediar a relação entre café e envelhecimento biológico.
Os mediadores principais foram:
BMR — basal metabolic rate, ou taxa metabólica basal;
GlycA, marcador inflamatório relacionado a proteínas de fase aguda glicadas;
Cystatin C, marcador associado à função renal.
Para o café filtrado, parte da associação com menor envelhecimento biológico foi mediada por BMR e Cystatin C. Para KDM-BA Accel, as proporções mediadas foram 16,72% para BMR e 14,24% para Cystatin C. Para PhenoAge Accel, BMR mediou 2,85% e Cystatin C 17,97%.
A GlycA mediou parte importante das associações tanto para café instantâneo quanto para café filtrado. No caso do café instantâneo, GlycA mediou 34,62% da associação com KDM-BA Accel e 24,59% com PhenoAge Accel.
Os autores destacam que BMR, GlycA e Cystatin C mediaram os efeitos em KDM-BA e PhenoAge, mas não em rLTL. Isso sugere que os diferentes marcadores de envelhecimento capturam dimensões distintas: KDM-BA e PhenoAge refletem mais o envelhecimento fenotípico sistêmico, enquanto rLTL reflete uma dimensão celular mais específica.
11. Possíveis mecanismos
Os autores sugerem que as diferenças entre café filtrado e instantâneo podem refletir diferenças na composição química e no processamento.
O café filtrado pode preservar ou oferecer um perfil mais favorável de compostos bioativos, como ácidos clorogênicos, além de envolver remoção de diterpenos dependendo do método de preparo. Esses compostos podem influenciar metabolismo energético, inflamação, função renal e marcadores clínicos ligados à idade biológica.
Eles também especulam que a maior presença de ácidos clorogênicos no café filtrado poderia contribuir para melhora da vitalidade celular, metabolismo energético e proteção hepatorrenal, embora essa interpretação seja mecanística e não prove causalidade.
Já no café instantâneo, o processamento industrial pode alterar a composição bioativa, reduzir compostos protetores ou aumentar componentes potencialmente desfavoráveis. O estudo não prova exatamente qual composto seria responsável.
12. Limitações importantes
A principal limitação é que se trata de um estudo observacional e transversal. Portanto, ele mostra associação, mas não prova que café instantâneo causa envelhecimento acelerado ou que café filtrado causa envelhecimento mais lento. Os próprios autores afirmam que a análise de mediação, por usar desenho observacional, não consegue garantir ausência de confundidores não medidos nem estabelecer temporalidade.
Outra limitação é o risco de confusão residual. O método de preparo do café pode estar associado a nível socioeconômico, estilo de vida, alimentação, escolaridade e consciência de saúde. Embora o estudo tenha ajustado muitos fatores, não é possível excluir completamente confundimento residual.
Além disso, o consumo de café foi autorreferido, o que pode gerar erro de memória e imprecisão. A população era predominantemente branca/europeia, limitando a extrapolação para populações mais diversas. Os autores também reconhecem que as ferramentas atuais de gerociência ainda não capturam toda a complexidade multidimensional do envelhecimento biológico.
13. Interpretação prática
A leitura mais prudente é:
café filtrado parece estar associado a um perfil mais favorável de envelhecimento biológico do que café instantâneo, mas isso ainda não prova causalidade.
O estudo sugere que, do ponto de vista populacional, pode fazer sentido preferir café filtrado ao café instantâneo, especialmente quando a pessoa consome café diariamente. Os autores concluem que o café filtrado pode ter benefícios potenciais para mitigar o processo de envelhecimento, enquanto o café instantâneo pode exacerbar marcadores de envelhecimento.
Conclusão final
Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.“ Este estudo mostra que o tipo de café importa. Na amostra do UK Biobank, o café filtrado foi associado a menor aceleração da idade biológica e maior comprimento telomérico relativo, enquanto o café instantâneo foi associado a maior aceleração da idade biológica e menor rLTL em algumas análises. A hipótese dos autores é que isso pode envolver diferenças em compostos bioativos, metabolismo energético, inflamação sistêmica e função renal, refletidas por BMR, GlycA e Cystatin C. Mas a mensagem científica precisa ser cautelosa: não é prova de que café instantâneo envelhece ou de que café filtrado rejuvenesce. É uma associação observacional forte o suficiente para levantar hipótese e orientar futuras pesquisas.” – finaliza o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).
Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.
Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:


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