Lipedema não é gordura nas pernas!!!

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Um recente artigo propõe uma mudança importante na forma de entender o lipedema.

Em vez de enxergar o lipedema apenas como uma alteração do tecido adiposo, os autores defendem que ele deve ser compreendido como uma condição de interação entre:

  • tecido adiposo;
  • microvasculatura;
  • endotélio;
  • sistema linfático;
  • matriz extracelular;
  • sistema imune;
  • inflamação crônica.

A mensagem principal é que o lipedema parece ser uma doença vascular-adiposa-conectiva, marcada por disfunção endotelial, angiogênese anormal, fragilidade vascular, edema intersticial, fibrose e inflamação crônica localizada.

Introdução: o lipedema como doença subdiagnosticada

O artigo reforça que o lipedema é uma condição crônica e debilitante, caracterizada por acúmulo simétrico e doloroso de tecido adiposo, principalmente em membros inferiores, podendo também acometer braços.

As manifestações clínicas incluem:

  • dor;
  • sensação de peso;
  • facilidade para hematomas;
  • edema;
  • desproporção entre tronco e membros;
  • limitação funcional;
  • piora da mobilidade;
  • redução da qualidade de vida.

Um ponto importante destacado é o atraso diagnóstico. Estudos citados no artigo mostram que, nos Estados Unidos e no Reino Unido, o atraso médio entre início dos sintomas e diagnóstico pode chegar a 22 anos.

Isso ocorre porque o lipedema é frequentemente confundido com:

  • obesidade;
  • linfedema;
  • insuficiência venosa;
  • lipodistrofias.

O papel central da disfunção vascular

O artigo coloca a disfunção vascular como um dos mecanismos centrais do lipedema.

As alterações vasculares descritas incluem:

  • disfunção endotelial;
  • aumento da permeabilidade capilar;
  • vasos sanguíneos dilatados;
  • vasos frágeis;
  • angiogênese aumentada;
  • maior acúmulo de fluido intersticial;
  • hipóxia local;
  • ativação inflamatória;
  • fibrose perivascular.

Essas alterações ajudam a explicar sintomas clássicos do lipedema:

  • hematomas fáceis;
  • dor;
  • edema;
  • peso nas pernas;
  • sensibilidade ao toque;
  • progressão tecidual.

Em outras palavras, o tecido do lipedema não é apenas “gordura aumentada”. É um tecido biologicamente alterado, com vasos anormais, inflamação, fibrose e acúmulo de líquido.

Disfunção endotelial

O endotélio é a camada de células que reveste internamente vasos sanguíneos e linfáticos.

Sua função é controlar:

  • passagem de líquidos;
  • permeabilidade vascular;
  • troca de nutrientes;
  • inflamação;
  • coagulação;
  • tônus vascular;
  • integridade da barreira vascular.

No lipedema, o artigo descreve perda da integridade endotelial.

Estudos citados mostram redução de proteínas importantes para manter as células endoteliais unidas, como:

  • VE-caderina
  • ZO-1

Quando essas proteínas diminuem, a barreira vascular fica mais “aberta”. Isso facilita o extravasamento de líquido e proteínas para o interstício.

Esse mecanismo pode explicar:

  • edema;
  • sensação de peso;
  • aumento da pressão tecidual;
  • dor;
  • maior carga sobre o sistema linfático.

Angiogênese aumentada

Outro ponto forte do artigo é a angiogênese.

Angiogênese é a formação de novos vasos sanguíneos.

No lipedema, o tecido adiposo parece apresentar um endotélio hiperproliferativo, com aumento de vasos pequenos.

Os autores citam evidências de:

  • aumento do número de capilares;
  • aumento do diâmetro dos capilares;
  • maior densidade microvascular;
  • aumento de VEGF;
  • vasos mais alongados em estágios avançados;
  • vasos mais permeáveis.

O VEGF-A aparece aumentado em mulheres com lipedema. O VEGF é importante para formação de vasos, mas quando está cronicamente elevado pode gerar vasos imaturos, frágeis e permeáveis.

Isso cria um ciclo:

mais angiogênese  vasos mais frágeis  mais extravasamento  mais edema  mais hipóxia  mais inflamação  mais angiogênese.

Fibrose e remodelamento da matriz extracelular

O artigo dedica atenção importante à fibrose.

A matriz extracelular é a “estrutura de sustentação” dos tecidos. Ela contém colágeno, proteoglicanos e outras moléculas que organizam o tecido.

No lipedema, há:

  • aumento de colágeno;
  • remodelamento da matriz extracelular;
  • fibrose no tecido adiposo afetado;
  • fibrose ao redor dos vasos;
  • espessamento de vasos;
  • rigidez tecidual progressiva.

Os autores destacam que a fibrose é maior no tecido adiposo afetado pelo lipedema, principalmente nas áreas hipervasculares e perivasculares.

Isso reforça a ideia de que a alteração vascular pode estar diretamente ligada à formação de fibrose.

Na prática, essa fibrose ajuda a explicar por que o tecido do lipedema:

  • dói;
  • é mais rígido;
  • não responde bem apenas à perda de peso;
  • apresenta nódulos;
  • progride em alguns casos;
  • dificulta drenagem tecidual.

Relação com tecido conjuntivo e Ehlers-Danlos

O artigo também discute a sobreposição entre lipedema e alterações do tecido conjuntivo, especialmente síndromes como Ehlers-Danlos.

Essa associação é interessante porque muitas pacientes com lipedema apresentam:

  • hipermobilidade articular;
  • fragilidade vascular;
  • hematomas fáceis;
  • dor;
  • frouxidão tecidual;
  • alterações fasciais.

Os autores sugerem que alterações em colágeno e matriz extracelular podem contribuir para:

  • instabilidade vascular;
  • fragilidade capilar;
  • acúmulo de líquido;
  • dor;
  • fibrose perivascular;
  • alteração da mecânica da fáscia.

Isso reforça a ideia de que lipedema não é uma doença isolada da gordura, mas uma condição do tecido conjuntivo, vascular e adiposo.

Acúmulo de fluido intersticial

Um dos modelos mais importantes do artigo é o papel do líquido intersticial.

No linfedema clássico, o problema primário é a falha linfática.

No lipedema, o modelo proposto é diferente:

  1. A microvasculatura fica mais permeável.
  2. Mais líquido extravasa para o tecido.
  3. O sistema linfático inicialmente tenta compensar.
  4. A carga linfática aumenta.
  5. Com o tempo, a capacidade de transporte pode ser excedida.
  6. O tecido acumula líquido, inflama, endurece e fibrosa.

Ou seja: no lipedema inicial, o linfático pode não estar “falido”; ele pode estar sobrecarregado.

Isso ajuda a diferenciar lipedema de linfedema.

No lipedema, o edema pode ser mais difuso, não depressível, poupando os pés, e relacionado à alteração do microambiente vascular e intersticial.

Inflamação crônica no lipedema

O artigo descreve o lipedema como uma condição de inflamação crônica localizada.

Essa inflamação é diferente da inflamação da obesidade.

Na obesidade, a inflamação costuma estar associada à resistência insulínica e disfunção metabólica sistêmica.

No lipedema, os autores destacam que a inflamação parece ser:

  • localizada nos depósitos afetados;
  • desproporcional ao IMC;
  • associada ao tecido subcutâneo específico;
  • persistente;
  • relacionada à dor, fibrose e angiogênese.

Isso é extremamente importante porque ajuda a explicar por que pacientes com lipedema podem ter grande aumento de gordura nos membros inferiores sem apresentar necessariamente o mesmo perfil metabólico da obesidade visceral.

Macrófagos: inflamação sem o padrão clássico da obesidade

O artigo destaca aumento de macrófagos no tecido adiposo do lipedema.

Mas há um detalhe importante: o perfil desses macrófagos parece ser diferente da obesidade clássica.

Na obesidade, costuma haver predomínio de macrófagos M1, mais pró-inflamatórios.

No lipedema, estudos mostram maior presença de macrófagos com assinatura M2 ou híbrida.

Mas esses macrófagos M2 no lipedema não parecem simplesmente “resolver” a inflamação. Eles parecem participar de:

  • remodelamento tecidual;
  • angiogênese;
  • fibrose;
  • manutenção da inflamação crônica;
  • alteração da matriz extracelular.

Portanto, o tecido fica preso em um estado de inflamação crônica de baixa intensidade com remodelamento contínuo.

IL-1β, VEGF e dor

O artigo destaca duas vias muito importantes:

IL-1β

A IL-1β é uma citocina inflamatória ligada à inflamação inata.

No lipedema, ela pode estar relacionada a:

  • ativação imune;
  • alteração da barreira endotelial;
  • sensibilização dos nociceptores;
  • dor crônica;
  • manutenção da inflamação.

Isso conecta diretamente inflamação tecidual com dor.

VEGF

O VEGF-C e outras vias de VEGF aparecem aumentadas no lipedema.

Elas participam de:

  • angiogênese;
  • linfangiogênese;
  • aumento da permeabilidade vascular;
  • formação de vasos imaturos;
  • edema.

O artigo propõe que IL-1β e VEGF formam um circuito de retroalimentação:

inflamação aumenta VEGF  VEGF aumenta permeabilidade e angiogênese  mais edema e hipóxia  mais inflamação.

Hipóxia, succinato e SUCNR1

Esta é uma das partes mais novas e interessantes do artigo.

Os autores propõem que o tecido do lipedema pode desenvolver um microambiente hipóxico devido a:

  • hipertrofia adipocitária;
  • edema;
  • fibrose;
  • alteração vascular;
  • pior difusão de oxigênio.

Quando há hipóxia e estresse inflamatório, a mitocôndria pode acumular succinato.

O succinato deixa de ser apenas um intermediário do ciclo de Krebs e passa a atuar como molécula sinalizadora.

Ele pode:

  • estabilizar HIF-1α;
  • aumentar ROS;
  • ativar vias inflamatórias;
  • estimular IL-1β;
  • estimular VEGF;
  • aumentar angiogênese;
  • aumentar permeabilidade vascular.

O receptor envolvido é o SUCNR1.

O SUCNR1 pode estar presente em:

  • macrófagos;
  • células endoteliais;
  • fibroblastos;
  • adipócitos;
  • células dendríticas.

A hipótese dos autores é que o eixo succinato–SUCNR1 pode conectar metabolismo, inflamação, angiogênese, fibrose e disfunção vascular no lipedema.

Importante: o próprio artigo reconhece que essa via ainda é uma hipótese mecanística promissora, mas ainda precisa de validação direta em tecido humano de lipedema.

gura reforça que lipedema e obesidade não são a mesma coisa.

Lipedema não é variante da obesidade

“O lipedema deve ser diferenciado da obesidade. Na obesidade, a inflamação é geralmente sistêmica, associada à resistência insulínica e disfunção metabólica. No lipedema, a inflamação parece ser regional; localizada no tecido subcutâneo afetado; desproporcional ao IMC; associada a microvasculatura, matriz extracelular e linfáticos; com preservação relativa de alguns aspectos metabólicos sistêmicos. Isso é essencial para combater a ideia simplista de que lipedema é apenas “excesso de peso” ou gordura nas pernas. Enxergar o lipedema como uma proteção e não uma agressão muda a forma de tratar as pacientes.” – Explica o Dr. Daniel Benitti, cirurgião vascular formado pela USP com ênfase no tratamento do Lipedema que atende em São Paulo, Campinas e a distância (online).

Conclusão dos autores

A etiologia do lipedema ainda não está totalmente definida.

Mas as evidências atuais sustentam um modelo em que:

  • adipócitos hipertrofiados;
  • instabilidade microvascular;
  • disfunção endotelial;
  • angiogênese aberrante;
  • remodelamento da matriz extracelular;
  • acúmulo de fluido intersticial;
  • inflamação crônica;
  • disfunção imune;
  • hipóxia;
  • metabolismo alterado;

interagem para produzir a progressão do lipedema.

O artigo propõe que futuras pesquisas devem buscar biomarcadores vasculares, inflamatórios e de imagem para melhorar diagnóstico, estratificação e tratamento.

Interpretação clínica prática

Este artigo é muito importante porque muda a conversa sobre lipedema.

Ele reforça que o lipedema não é apenas uma condição estética nem apenas gordura resistente ao emagrecimento.

É uma condição com:

  • vaso doente;
  • endotélio permeável;
  • matriz extracelular alterada;
  • tecido inflamado;
  • linfático sobrecarregado;
  • adipócito hipertrofiado;
  • hipóxia;
  • fibrose;
  • dor neuroinflamatória.

Na prática, isso justifica uma abordagem multidisciplinar que inclua:

  • controle inflamatório;
  • melhora metabólica;
  • exercício resistido;
  • caminhada;
  • compressão;
  • tratamento venoso quando indicado;
  • suporte linfático;
  • alimentação anti-inflamatória;
  • sono;
  • controle do estresse;
  • avaliação hormonal;
  • preservação de massa muscular;
  • estratégias para reduzir hipóxia tecidual e edema.

A mensagem final do artigo poderia ser resumida assim:

O lipedema deve ser entendido como uma doença do tecido adiposo subcutâneo em diálogo permanente com vasos, linfáticos, matriz extracelular e sistema imune. Tratar apenas a gordura é tratar apenas uma parte da doença.

Para consulta e agendamento com o Dr. Daniel Benitti em Campinas, ligue para (19) 3233-4123 ou (19) 3233-7911.

Para consultas com o Dr. Daniel Benitti em São Paulo, ligue para (11) 3081-6851.

Caso prefira, entre em contato diretamente com ele via e-mail:
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